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TODAS AS FÊMEAS QUE ME DOMINAM Nº 1 — 11/03/2022

Atualizado: 15 de abr. de 2022

Estou estreando um novo livro em capítulos, em forma de diário. Os que me conhecem dirão que sou "eu" escrito. Os que sabem pouco menos de mim, poderão imaginar ser uma ficção. Pois bem! O que estou escrevendo é uma ficção, utilizando elementos reais para que o personagem pareça mais factível. Agora, se você vai ficar tentando descobrir o que é real, o que é ficção, não curtirá o texto como ele deve ser. Então relaxe, pegue o balde de pipocas e divirta-se! Ninguém sairá ferido no final desse projeto.


Esse livro mostrará o cotidiano de um homem de meia-idade, sem pretensões na vida, dominado pela mulher, cachorra, sogra, filhas, vizinhas, faxineiras e pela mulher do cafezinho. Espero que você se divirta com esse personagem, pois ele carrega um pouco de mim e de todas as pessoas que conheci pela minha caminhada até aqui.


Esse caderno não terá textos de outros autores e nem dia certo para ser publicado. Espero que ele se torne diário e por enquanto será publicado toda sexta e segunda.


Luiz Primati




TODAS AS FÊMEAS QUE ME DOMINAM

por Luiz Primati

IG: @luizprimati

CAMINHADA


Toda tarde saio para caminhar. E nessa caminhada encontro muitas pessoas. Quando cruzo com elas, disfarçam, olham para o chão, evitam olhar nos meus olhos. Olho nos olhos delas, quero ver as caras das pessoas, saber quem habita o meu bairro ou apenas passa por ele. Será que é bonita? Feia? Está brava? Quem sabe? A pessoa sorriria para mim? Mas elas nunca sorriem.


Também encontro com outras pessoas caminhando com os cachorros. Até hoje, não sei se são as pessoas que levam os cachorros para caminhar ou se são os cachorros que levam seus donos para dar uma volta. É um mistério. Conheço algumas pessoas que soltam seus cães pelas ruas e andam bem tranquilos. Eles cagam nas caçadas, avançam em outros cachorros e seus donos caminham tranquilamente, sem se importam com o que está acontecendo. Quando se aproximam do cocô de seus cães, abrem uma sacolinha e recolhem seus excrementos, mas é mentira. Eles não fazem isso! Seres abomináveis! Não sabem viver em sociedade? Peguem essa merda! Grito tudo isso no meu cérebro e de nada adianta. Uma vez ou outra fico encarando seus donos e por vergonha, acabam apanhando a merda do cachorro. Pode até ser que joguem na próxima esquina, quando eu não tiver mais olhando, mas isso pouco importa.


E toda a tarde faço isso. E não faço porque gosto; não! Para ser bem sincero, eu odeio caminhar. Odeio fazer qualquer exercício físico. Só gosto de andar de bike.


Sabe, não sou desses que vive enfiado numa academia. Aliás, fujo da academia de tal forma que as pessoas nem imaginam. A minha mulher insiste para que eu frequente a academia com ela. Penso que ela só quer uma companhia, porque também não gosta. E ela paga academia somente para ficar com a consciência tranquila. Aquela sensação de dever cumprido, essa é a verdade. Mas ela não gosta. Então, para que ela não pegue no meu pé, eu saio caminhar. Tem horas que olho para ela e tenho vontade de falar um monte de coisas e desisto. Melhor ficar calado. Estou acreditando que perdi a vontade de discutir. E sempre que discutimos ela acaba vencendo. Só eu sei disso. Melhor assim.


Aí posso dizer: já fiz o meu exercício diário. É isso que eu faço, sabe? Duvido que as pessoas, a maioria delas, pelo menos, gostem realmente de se exercitar. Muitos vão à academia só para olhar o corpo das meninas/garotos, não é? Essa é a verdade. Mas eu já cansei disso. Eu nem sei se tenho ânimo para ficar olhando as mulheres. Não! Eu já sou quase sexagenário. Corpos femininos pouco importam na minha vida na minha idade. Quero ter contato com pessoas com o conteúdo, cérebro inteligente e não com o corpo físico. Ter um corpo perfeito qualquer um pode ter. Basta para isso ir à academia diariamente. E a mente perfeita? E conversar com uma mulher muito mais inteligente que eu? Que honra! Mentira! Sou um pouco narcisista, julgo que morreria de ódio de mim mesmo se encontrasse essa mulher perfeita! Para mim, seríamos iguais. Odeio perder! Nem no par-ou-ímpar eu aceito a derrota.


Então, continuando… A minha vida é assim, sabe? Largo o cachorro em casa, trancado na lavanderia para poder caminhar. Para ele ficar quieto, eu jogo algumas rações no canto da lavanderia. Ele corre desesperado para comer os pequenos grãos. Alguns entram embaixo da cama dele e outras atrás do cesto de roupa suja. Enquanto ele se diverte fazendo a sua caça ao Tesouro, eu saio de fininho, tranco a porta da cozinha e vou. Mas ele não fica quieto, não! Logo que chego no térreo, após descer 6 andares de elevador, escuto seus latidos desesperados. Parece que ele escuta meus movimentos. Depois de um tempo, ele sossega. Mas quando eu volto para casa, ele começa a latir logo que abro o portão, acredite se quiser. Lá do sexto andar ele reconhece a minha caminhada. É! Os animais são muito inteligentes, e muito espertos. Possuem os sentidos apurados. E o ouvido deles deve ser biônico, tipo Steve Austin (se não sabe sobre o que falo, procure por uma série de TV de 1974 chamada: “O Homem de Seis Milhões de dólares”). Ele consegue detectar a minha presença numa distância enorme. Aí fico pensando, será que caminho de uma forma diferente? Manco um pouco? Será que faço algum barulho? A chave do apartamento no bolso, a cada passada, bate no sensor de abertura de portas e faz um clique que ele escuta? Talvez seja isso.


Bom, mas como eu falava, a minha mulher não gosta nem um pouco da academia. Porque cada dia ela arruma uma desculpa para não ir. Ela só vai 2 dias na academia, quero dizer, ela paga para ir 2 dias na academia, mas quando chega o dia e a hora, é uma desculpa atrás da outra. Um dia está com dor na coluna. Outro dia, dormiu demais. Outro dia não passou bem à noite. Outras vezes, ela chega a dizer que foi até academia e estavam sem energia elétrica. Eu, para falar a verdade, não sei mais no que acreditar.


Na rua é que me divertido. Aproveito esses momentos de caminhada para mandar os áudios no WhatsApp para os amigos. O dia inteiro as pessoas me mandam mensagens e mais mensagens e eu não tenho tempo de responder a todos com o devido cuidado. Aí quando chega no fim da tarde eu aproveito. Mando mensagem! Uma atrás da outra. Então imaginem vocês: são 40 minutos infinitos de caminhada; e são 40 minutos de áudio; não para a mesma pessoa; e não um áudio único; mando um monte de mensagens de 2 minutos, 3 minutos, até alguns áudios de 7, 8 minutos. E as pessoas ficam #¿$?%!¡ da vida. Acredito que a maioria delas nem ouve até o fim e quando ouvem, colocam na velocidade 2x.


Fora isso, eu aproveito para fazer as minhas reflexões. Sim, é aí que faço minhas reflexões. Analiso como minha vida é uma rotina! Como os objetivos acabam se extinguindo com a idade. E aí fico pensando: o que eu faria se eu fosse um aposentado? Esse é o meu dilema. A minha esposa já se aposentou faz 7 anos. E ela reclama diariamente porque não tem o que fazer. Sofre de solidão: com a televisão ligada, no WhatsApp, no Facebook. Eu não quero isso para a minha vida. Ficar o dia inteiro sem fazer nada? Nas redes sociais? Isso é para quem tem muito tempo e pouco objetivo na vida. Meus objetivos são maiores. Eu gostaria mesmo é de ter mais tempo para me dedicar à leitura, passeios de bike, chope com os amigos e meus netos, essa é a verdade. Mas nem sempre tenho esse tempo.


Outra coisa que acontece todo dia, ou quase todo dia, é encontrar a moradora do quarto andar, no elevador, sem máscara. Sim! O prédio onde moro exige que os moradores usem máscaras ao se locomoverem pelas áreas comuns. É uma merda isso. Se eu pudesse, já tinha largado essa máscara, da mesma forma que faço agora, quando caminho. Senão eu não conseguiria respirar. É muito engraçado o jeito que ela se comporta quando me vê. Ela deve ter entre 40 e 50 anos. Sempre fica desesperada quando me vê, procura a máscara na bolsa. Se acua num canto do elevador e procura, procura e olha-me constrangida; torcendo para que elevador não chegue ao destino. Ele sempre para antes que ela encontre a máscara. E eu sempre a olho, sorrio, por trás da máscara, é claro! E ela entende que sorri com os olhos e digo: “Não se preocupe, esquece a máscara” e sinto ela relaxar. Se fosse me preocupar com isso, eu não iria num restaurante, não é? Na hora de comer eu não tiraria a máscara. A não ser que o vírus só ataque as pessoas que não estão comendo? É assim que funciona? Não é não! O vírus atacaria qualquer um! Ela é uma mulher estilosa. Cabelos bem negros, pele, tatuada. E nós acabamos nos encontrando na rua, na hora da minha caminhada. Quase sempre ela está indo numa direção e eu na direção oposta. E aí, mal trocamos olhares.


Uma coisa que eu não entendo é porque as pessoas fingem não conhecerem as outras na rua. Dentro de um espaço fechado, de um prédio, de um condomínio, todos se cumprimentam. Dão um Sorriso amarelo, ou disfarçam, fingindo que estão no celular. Cada um se comporta de um jeito. É engraçado isso, não? Muito engraçado, mas é assim que acontece. Inevitavelmente se cumprimentam com os olhos ao menos e eu as constranjo com um sonoro “bom dia!”.


E afinal de contas, por que é que caminho? Fico pensando sempre nisso. Concluo ser por 2 motivos: primeiro, porque a minha mulher pega no meu pé; isso eu já falei. Segundo porque eu gosto de tomar minha cerveja geladinha no final do dia. E se eu não faço exercício, é mais uma reclamação que terei que aguentar da chata da minha mulher, dizendo que morrerei, porque o colesterol aumentará, triglicerídeos explodirão etc. É uma forma de eu garantir a minha cerveja, sem culpa. Pelo menos para mim, porque na concepção dela, eu bebo demais. Acredito que bebo pouco perto de uns amigos. Tenho alguns que conseguem acabar com uma dúzia de latas numa noite. Acabo bebendo, no máximo, 2 latinhas de cerveja. Se passar disso passo mal. Minha mulher quer que seja apenas uma. De raiva, às vezes, não tomo nenhuma. Fico dias sem beber. Meu médico disse que estou dentro dos limites que a medicina aprova, ela acha que não! Mas, o que mais quero da vida? Se eu não puder, de vez em quando, tomar minha cerveja, sossegado, o que farei? Gosto também de estar com meus netos, mas eles só aparecem a cada 15 dias. Antigamente eu pensava em um milhão de coisas, fazia um milhão de planos. Eu queria ser milionário — ainda acredito que serei —, queria ter muitas namoradas, muitos carros etc. Agora pergunto sempre para a minha alma, para o meu íntimo: para que desejo bens materiais e prazeres carnais? E chego à conclusão que eu não preciso de muito para ser feliz. Eu preciso de bem pouco. O que eu não largo mão de forma alguma, é da tecnologia. Meus computadores, celulares e meu tablet. Fora isso, não preciso de mais nada. Bem, se ficar falando aqui acabarei lembrando de mais algo.


Ai meu Deus! Acabou a minha caminhada e já ouço a Paçoca latindo lá do sexto andar.




AUTOR

Luiz Primati

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