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CONTOS DE UM FUTURO DISTANTE Nº 9 — 12/04/2022

Atualizado: 18 de abr. de 2022

Novo colunista, Paulo Brito, estreia com o conto: "Nascimento de Estrelas no Vácuo do Amor". Carlos Palmito retorna com um conto com um final inesperado. O plantão de Alessandra Valle nos traz a história de uma mãe disposta a tudo para recuperar seu filho. Eu, Luiz Primati, trago a primeira parte de um conto de 2018, publicado inicialmente no Facebook em partes e depois entrou para o livro: "Velhas Histórias Urbanas" que foi baseado num fato. O nome do conto é "Bernadete e seus outros 'EUS'". Sidnei Capella traz a parte final do conto: "Festa de Aniversário".


Esse caderno tem a intenção de divertir os nossos leitores que, sempre acabam tirando algum ensinamento para suas vidas.

Leia, Reflita, Comente!


https://biosom.com.br/blog/saude/transtorno-de-personalidade-multipla/


...PERDIDA


por Carlos Palmito

IG: @c.palmito

— Lança, vá, atira essa merda.


Gustavo observava-a pasmo, embora o olhar estivesse turvo, a audição parecia melhorar a cada segundo que passava. Tinha a certeza que em toda a sua vida, jamais tinha ouvido palavrões a surgirem da boca de Catarina.


Ela ria, e contemplava a ria que iria desaguar algures, nem tinha a certeza de ser uma ria, isto é… tinha água, tinha erva nas imediações, poderia ser apenas uma ribeira, um riacho, a saliva de Gaia, mas enfim, hoje ela ria na ria.


— Vá Gustavo, mexe esse cu gordo e atira o calhau, quero ver se consegues tantos ressaltos como eu.


O rapaz, catraio ainda, mirou a água e a pedra que tinha nas mãos, atirou-a ao ar para lhe tomar o peso, sentiu uma pontada na mão esquerda, naquele local exato onde o estúpido do irmão o tinha mordido de manhã, e arremessou-a para trás.


— Esta não, é muito pesada, espera — murmurou, sentindo a garganta seca, áspera, quase sem reconhecer as próprias palavras.


A mão libertava um pus, que tingia a ligadura de amarelo, sobrepondo-se ao vermelho-escuro do sangue seco. Sentia um formigueiro a ascender-lhe o braço, e escutava as asas das libelinhas que pairavam sobre a água a bater claustrofobicamente, como remos de caravelas sem velas.


Vasculhou as margens em busca de um seixo mais leve, liso, algo que flutuasse como uma pena ao vento, ela era a sua namorada desde a primeira classe, e agora, nos seus oito anos mal feitos não queria ficar envergonhado perante a menina de trancinhas negras, a dor estava presentemente na clavícula, sentia dificuldade em respirar.


Finalmente encontrou-a, era perfeita, tinha o tamanho exato do seu carro de polícia que estava junto aos soldados da paz, como os adorava este rapaz, a mão ardia.


Observou Catarina, que estava ao sol a bronzear mais ainda a sua cara sarapintada de sardas, sentiu uma náusea, a bílis a querer subir pela garganta, engoliu-a de volta, sentindo-lhe o sabor ácido.


— Esta é perfeita Catarina, queres ver? — forçou-se a rosnar entre dentes, sentindo um odor nauseabundo vindo da sua boca empestar o ar. — Vou fazer um milhão de ressaltos, vai daqui até à lua.


Ela pulou de alegria, tinha fé no seu amigo, o eterno parceiro de brincadeiras, aquele que lhe mostrou que a vida é uma festa, nem que seja uma que apenas as crianças vejam.


— Atira, Gustavo, atira isso agora, eu conto.


Ele puxou o braço atrás, o mesmo braço com que a empurrava no baloiço que está no jardim das fontes, fechou os olhos e lançou a pedra.


A menina começou a sua contagem.


— Um, dois, três, quatro, olha, um passarinho azul. Sete, oito, nove, — Rodolfo, o cão que levaram com eles latiu, lá atrás, ela desviou o olhar, contando mentalmente o que não via. — Dez, onze. Rodolfo, vai apanhar a bola. — O cão ganiu e fugiu, Gustavo apoiou-se nos joelhos, sentindo contração em todos os músculos, e a pedra já não se via mais. — Oh! Já não vejo os salpicos.


Ele teve mais duas contrações musculares, vomitou uma vez apenas, inundando o cão com os restos do almoço ainda por digerir. Os olhos tornaram-se raiados de sangue, e um ódio imensurável aflorou-lhe à pele.


Saltou na direção da magrela menina de tranças negras, cravando-lhe os dedos no pescoço, como a adorava ele, a sua força e agilidade tinham multiplicado enormemente, sentia-se um deus das profundezas.


Enterrou os dedos até estes lhe rasgarem a traqueia, o sangue espirrou, sentiu-o quente, na sua própria derme, no rosto, nos lábios que lambeu.


Enfiou-lhe a mão vaga dentro do pescoço e pressionou até lhe conseguir separar a cabeça do corpo, que tombou inerte numa poça escarlate fumegante.


Gustavo encolheu então os ombros, piscou o olho, enquanto desviava o cabelo de palha da testa ensanguentada, virando a cabeça de Catarina em direção à ria. Agora já não ris, pois não?


— Esta, Catarina —grunhiu entre uma gargalhada bárbara. — À velocidade que ia, já está de certeza com os golfinhos, no mar.




RESGATE NO INFERNO


por Alessandra Valle

IG: @alessandravalle_escritora

A caminho do trabalho, o pneu do carro furou. Não fazia a menor ideia do que deveria fazer.

Consegui parar no acostamento, mas contribuí para que o engarrafamento ficasse ainda pior.

Enquanto ligava para a seguradora, percebi que a localidade onde estacionara era acesso a uma comunidade da zona norte do Rio de Janeiro, onde o confronto entre traficantes de drogas e policiais no cumprimento do dever é comum.

Desisti de ligar para a seguradora do veículo e liguei para o serviço telefônico da polícia civil, comuniquei sobre a ocorrência e indiquei minha localização.

Após, voltei a falar com a seguradora, a qual não me deu esperanças para resolver o problema com rapidez, pois o atendimento no local deveria ocorrer em cerca de uma hora.

"Imagina se um tiroteio começar? E se precisar de abrigo para me proteger, onde devo ficar? Se for assaltada e me identificarem como policial? Essa comunidade é dominada pela facção criminosa que costuma matar e ocultar corpos de policiais que adentram por engano. Eles costumam matar, esquartejar e jogar no rio" — pensava, enquanto o nível de ansiedade aumentava.


Em alguns minutos, uma viatura da polícia militar se aproximou e me apresentei aos colegas como policial civil, tendo eles solicitado que eu aguardasse o serviço mecânico em local distante do carro.


Eram oito horas da manhã, o sol me fazia sentir o calor que lhe é peculiar ao meio-dia. Não tinha água para beber e minha comida, que levava na marmita, estava estragando.


Lembrei-me do filme UM DIA DE FÚRIA e um sorriso de deboche, devido à situação que vivenciava, esboçou-se no meu rosto.

Um homem, em situação de rua, aproximou e se ofereceu trocar o pneu. Agradeci, mas dispensei a ajuda dando-lhe o único trocado que havia no bolso.

"Estou sem carro, sem dinheiro, com sede e no inferno" — pensei, com o nível de irritabilidade ao extremo.


Mototaxistas passavam depressa, pessoas a caminho do trabalho, crianças indo para escola e outros moradores transeuntes, sem exceção, me olhavam e em seguida, franziam a testa.


"Vou estuporar esse pneu, mas vou sai daqui antes que eu seja sequestrada" — pensei, decidida a sair do local.


Quando abri a porta do carro, o socorro mecânico enfim chegara e a troca do pneu começou.


Confesso que não consegui me concentrar e prestar atenção no que o mecânico estava fazendo, pois, inúmeras pessoas que se entregaram ao vício de drogas, com aparência de zumbis, se concentraram próximo ao carro e eu só pensava que poderia ser assaltada por eles.


Percebi estarem consumindo droga ilícita do tipo crack, pois improvisaram um cachimbo. Estavam sujos, maltrapilhos, magros, sem vitalidade.

— A esperança pela vida queima com a pedra de crack — refleti ao presenciar tão triste cena.


Tão logo o conserto se deu, religuei o carro e parti para iniciar o plantão.


Ao chegar na "Desaparecidos" percebi que os colegas já haviam iniciado os atendimentos, mas uma senhora ainda aguardava na recepção.

Com o ar-condicionado ligado, o ambiente estava frio e a água do bebedouro gelada matou minha sede.


"Voltei ao céu" — pensei, sentindo-me relaxada e pronta para iniciar o atendimento daquela senhora.


— Acabei de chegar do Estado do Ceará e vim direto para esta delegacia. Cheguei até aqui pedindo informações na rodoviária. Meu filho está desaparecido, ele veio buscar trabalho no Rio de Janeiro, há quatro meses. Estava no período de experiência, trabalhando em uma lanchonete, mas ao término do contrato, não foi admitido. Falava comigo por telefone, duas vezes por semana. Tem um mês que o telefone dele está desligado ou fora da área de cobertura.

— A senhora sabe o endereço de onde seu filho está residindo? — perguntei no sentido de ter um local por onde começar as buscas.


A senhora pegou um caderninho de anotações na bolsa, abriu e me mostrou o endereço. Por coincidência ou destino, o local era no interior da mesma comunidade onde estacionei meu carro para trocar o pneu furado e, por segundos, voltei ao inferno proporcionado por aquela situação.

— Essa comunidade fica bem próxima da delegacia e preciso lhe alertar quanto à presença de criminosos ligados ao tráfico de drogas na localidade, caso a senhora queira ir até lá — preveni a mãe que não conhece a cidade.

As consultas de praxe em nome do desaparecido não retornaram dados que pudessem apontar sua localização, por isso, iniciei a confecção do registro de ocorrência policial. Durante o preenchimento das informações pertinentes, a mãe comunicante informou que seu filho era adicto por isso temia que ele estivesse entre os usuários de drogas.


Tal informação me fez regressar ao inferno e me recordei do grupo de usuários de crack que vira mais cedo.

Ao término da ocorrência confeccionei o cartaz com foto do desaparecido e o enviei aos hospitais e abrigos públicos através de correspondência eletrônica, solicitando informação sobre possível internação hospitalar ou abrigamento do filho desaparecido.


De pé, pronta para sair da “Desaparecidos”, levando em mãos, cópia do cartaz com a foto de seu filho, a senhora me deixou uma bela lição:


— Vou ao inferno se for preciso, para encontrar meu filho.

Algumas horas depois, um colega me transmitiu o recado de que aquela senhora havia ligado para avisar que encontrara seu filho na cracolândia da referida comunidade e cuidaria dele para poder regressar ao Ceará em sua companhia.


Verdade seja dita, eu nunca estive nem perto das portas do inferno.


BERNADETE E SEUS OUTROS "EUS"

por Luiz Primati
IG: @luizprimati


CAPÍTULO I MÚLTIPLAS VERSÕES


Karen era formada em psiquiatria pela Universidade Ludwig-Maximilian em Munique, a maioria de seus pacientes eram soldados da guerra com estresse pós-traumáticos. Pouco para suas ambições. O seu consultório ficava na Rua Cornelius, no centro de Munique e o aluguel era demais para seus ganhos. Seu pai sempre a ajudava quando a grana estava curta e tentava convencê-la a ir para uma região mais condizente com seus ganhos. Porém, seu sonho era publicar um grande artigo numa revista científica. Ali era o centro de tudo. Sabia que cedo ou tarde conseguiria vencer na vida. Mesmo sendo respeitada na sociedade, passava dos 40 anos e o fato de ainda não ter se casado a assustava um pouco.


Karen estava ansiosa naquela manhã. Era o dia de sessão psiquiátrica de Bernadete Troisman. Desde que se formou na universidade, Karen nunca vivenciou um caso tão excitante e desafiador. Na universidade se estuda diversos casos, contudo, na vida real, no dia-a-dia, isso não acontece. Sempre são casos corriqueiros: transtorno obsessivo-compulsivo, transtorno bipolar, transtorno de ansiedade social, anorexia, depressão clínica, esquizofrenia e outros mais. Em seus quase 20 anos de profissão, Karen jamais imaginou que um caso como esse poderia cair em suas mãos. Era um caso de múltiplas personalidades. Comum esse termo, raro de se estudar na sociedade.


Já passava das 10 horas da manhã quando Karen recebeu uma ligação. Do outro lado uma voz desesperada. Dizia se chamar Helen e precisava de uma sessão urgente. Karen, com sua agenda praticamente vazia, fez um charme. Disse precisar consultar se tinha algum horário. Para parecer mais confiável, disse estar lotada e que abriria uma exceção na próxima semana. Helen aceitou o dia e horário sem discutir. Karen soube quem a recomendara e qual o seu problema, porém Helen apenas disse ser complicado falar por telefone. Parecia realmente desesperada do outro lado da linha.


Depois que Helen desligou, Karen comemorou. Estava cansada de atender casos da assistência social. Pelo tom de Helen do outro lado da linha, vislumbrou a possibilidade de abordar outras áreas, colocar em prática o que estudara há 20 anos. Mesmo com pós-doutorado em psiquiatria, jamais experimentou na prática o que se vê nos filmes e seriados. Karen pode se aprofundar nas questões humanas do adoecer psíquico. Adquiriu conhecimentos dos tratamentos de psicofarmacológico, psicossocial e psicoterápico. Mas Helen parecia ser o caso que sempre sonhou e não se enganou com sua intuição.


A consulta era apenas as 9:00h. Karen chegou logos as 6:30h no seu consultório. Passou antes numa cafeteria e pediu um descafeinado para viagem. Sobre sua mesa comia um donuts e um gole de café enquanto relia as anotações das últimas sessões. Apostava que hoje quem viria seria a Mirtes, mas precisava aguardar. Era a quinta sessão e até agora Helen, a pessoa que a contatou, já teria mostrado 4 personalidades diferentes e não dera as caras. Como tinha tempo, colocou a gravação da primeira sessão para relembrar os fatos. Tudo veio à sua mente, detalhe por detalhe. E foi assim que aconteceu…

Dia 9 de outubro, 9:00h horas da manhã. Paciente: Helen.


Quando Karen ouvia as batidas na porta, imediatamente ligou seu gravador. Não queria perder nenhum detalhe. Helen chegou com seu cão guia. Desnecessário dizer que ela era cega.


— Olá Helen. Seja bem-vinda — disse a Dra. Karen apertando a mão da paciente.


— Não sou Helen. Meu nome é Mirtes. Helen não pode vir e me enviou em seu lugar — disse a mulher com voz contrariada. Karen apertou a mão sem entender direito o que acontecia.


— Sinto muito Mirtes. Vamos entrar e nos sentar. — Karen agia nervosamente. Queria causar uma boa impressão na primeira vez. — Aceita um chá, um café? Venha até o divã. Vou te guiar.


Karen acomodou a mulher cega no divã e deixou seu cão guia ao seu lado, deitado no tapete.


— Agradeço a gentileza, Dra.….


— Karen! Chamo-me Karen.


— Isso. Dra. Karen. Helen me falou. Desculpe a confusão — sentou-se no divã. Não se deitou como Karen imaginava.


— Em que posso ajudá-la, senhora Mirtes? — Karen se ajeitou na cadeira.


— Senhorita, por favor! — corrigiu-a.


— Desculpe, senhorita.


— ...


— Helen parecia desesperada pela sessão. O que fez com que ela não viesse?


— Quero que perdoe minha irmã. Ela é sempre assim, desesperada, vê problemas onde as outras pessoas não enxergam. Nem eu! — riu da própria piada por sua situação.


— Compreendo. Mas já que está aqui, me fale um pouco mais de sua irmã. — Karen não queria perder o valor daquela consulta. A frustração era grande. Quem sabe poderia compensar a frustração de um bom caso com o valor daquela sessão? Daria para ir a uma doceria e se afundar nos doces.


— Não tenho muito o que falar de minha irmã. Ela está sempre preocupada. Fica me controlando. Quer saber onde fui, com quem fiquei, se tenho namorado ou não. Ela, para mim, parece um soldado me vigiando. Não gosto disso — falou Mirtes sem desmanchar a pose. Nem se mexeu no divã. Manteve a postura e o chapéu enfeitado na cabeça. Tinha roupas deveras comportada. Vestido longo que cobria desde a sua garganta até as meias. Mangas longas, com botões de madrepérola. A estampa era discreta, florida.


— A senhorita não gostaria de ficar mais à vontade? — falou Karen nervosamente.


— Já estou à vontade.


— Digo, não quer tirar o chapéu, os sapatos, se deitar? — falou Karen ainda tentando deixar a paciente confortável. Poderia ser a última vez que a veria.


— Deitar? Não sei se isso é recomendável… — falou Mirtes constrangida.


— Como quiser. Tire ao menos o chapéu — disse Karen timidamente.


— OK! Vou tirar o chapéu — entregou o mesmo para Karen que o colocou na poltrona ao lado. — Mas meu tempo é curto. Vim aqui apenas para não a deixar esperando. Foi vontade de minha irmã, como já disse. Eu, por mim, nem teria saído de casa.


— Mas já que está aqui, vamos aproveitar para conversarmos… — tentava Karen ganhar o seu suado dinheirinho.


— Não tenho muito mais a dizer. Sou uma pessoa recatada. Não gosto de expor minha intimidade. Como já disse, foi vontade de minha irmã Helen.


— Eu sei. Diga algo sobre você então. Tem namorado? No que trabalha? Sua cegueira é de nascença? — Karen, nervosamente fazia perguntas que não devia. Em sua profissão deveria apenas ouvir. Estava quebrando as regras.


— Não tenho namorado. Escolhi ser solteira. Também não trabalho. Vivo da pensão que nosso pai nos deixou. Todas nós vivemos assim. Além do mais, minha situação atual, sem poder enxergar, como poderia fazer essas coisas todas? Sobre minha cegueira, não quero falar — sentenciou Mirtes já procurando pelo chapéu, e assim que o achou, o colocou novamente na cabeça. Bateu a poeira imaginável das roupas e se colocou em pé. Seu cão guia, um pastor alemão, se colocou de prontidão.


— Mas a senhorita já vai? Temos uma hora de sessão. Apenas 15 minutos se passaram… — falou Karen preocupada. Já que não tinha um grande caso, pelo menos valesse a pena pelo valor da consulta.


— Minha cara, tenho que ir. Mas não se preocupe! Vou pagar pelos 60 minutos que me reservou — falou Mirtes com voz firme.


— Não é isso…


— Aqui está — entregou-lhe o valor de 50 euros. — Helen jamais me perdoaria se não a pagasse. Apenas confira se peguei a nota correta. — Karen aceitou, com ressalvas, e confirmou estar certo o valor.


— A senhorita quer um recibo? — ofereceu Karen.


— Não precisa, Dra. Karen. Guarde o valor dos impostos. Talvez precise dele um dia. — Karen não entendeu o que Mirtes quis dizer e resolveu nem perguntar.


— Você não quer deixar reservado o horário da semana que vem para… digo, para sua irmã? Se ela resolver vir já terá um horário — falou Karen ainda perdida.


— Não acho necessário. Helen marcou esse horário para mim, dizendo ser para ela. Conheço minha irmã. Não preciso de terapia e nem de um psicólogo. Não se chateie comigo, por favor — desculpou-se Mirtes. — Ajude-me a chegar até a porta. Meu cão não consegue me guiar corretamente com todos os objetos que devem ter por aqui.


— Claro, Mirtes — pegou em sua mão e a conduziu até a porta.


Mirtes se foi com seu cão guia. Karen ficou ali, olhando sua paciente ir embora. Seu caso estava acabado. Mas quem sabe surgisse algum outro nos próximos dias? Karen era confiante. Era questão de tempo.

* * *

Depois que Mirtes se foi, Karen ficou bem decepcionada. Pensou em pegar os 50 euros daquela consulta e ir até o café ali próximo e se satisfazer com doces de todos os tipos. Conseguiu manter a calma e se controlar. Ainda era terça-feira e tinha mais alguns pacientes durante a semana. Se concentrou neles.


A sexta-feira chegou rápido. Karen já estava na porta do consultório, pronta para sair quando o telefone tocou. Pensou em ignorar e ir embora. Afinal, os amigos a esperavam para um happy-hour. Voltou e atendeu.


— Dra. Karen? Aqui é a Helen. Peço que me perdoe por não ter ido à consulta combinada.

— Está tudo bem. Imprevistos acontecem.


— Não foi um imprevisto. Minha irmã não me deixou ir e foi no meu lugar. Espero que ela não tenha lhe causado nenhum problema — falou Helen.


— Claro que não causou. Sua irmã é muito educada. Gostei dela — falou Karen com voz doce.


— Não se engane Dra. Karen. Minha irmã estava fingindo. Não sabe que ela é capaz — falou Helen nervosamente. Karen ficou sem entender.


— Helen, eu já estava de saída. Poderia lhe ajudar de alguma forma?


— Me desculpe o incomodo. Nem percebi o horário… Eu queria ver se pode me atender na semana que vem, mesmo dia, mesmo horário.


— Eu acho que não posso… — Karen fez charme novamente.


— Eu lhe imploro. É importante…


— Deixe-me olhar a minha agenda… — Mesmo sabendo que não tinha quase nenhum paciente, Karen fazia essa encenação. — Terça não terei horário. Apenas na segunda, as 8:30h. Pode ser?


— Claro que sim. Estarei aí. Muito obrigado Dra. Karen.


Desligaram. Karen ficou empolgada novamente. Poderia ter seu caso de volta. Será? Isso não importava. Agora era hora de beber com as amigas.

* * *

Logo pela manhã de segunda, Karen estava à espera da nova paciente. Arrumou o consultório, regou as plantas e esperou por Helen. Logo ela chegaria e, pensando financeiramente, eram mais 50 euros na conta.

Dia 15 de outubro, 8:30h da manhã. Paciente: Helen.


Quando Helen bateu na porta, Karen ainda estava passando um pano sobre os enfeites para tirar o pó. Tratou de esconder o pano, limpou as mãos no jaleco branco e se dirigiu à porta.

Logo que abriu a porta lá estava Mirtes novamente à sua porta com seu cão guia. Karen ficou boquiaberta. Seria mais uma vez uma sessão chata, tensa.


— Não vai me convidar para entrar? — disse Mirtes com voz descolada. Karen levou um susto.


— Claro. Vamos entrando senhorita Mirtes.


— Mirtes o caralho! Meu nome é Sharon, mas pode me chamar de Shari, meu apelido, sabe — falou Mirtes mascando chicletes. Karen ficou sem entender. A conduziu até o sofá.


— Desculpe Mirtes, não entendi…


— A Dra. é surda? Já não me ouviu falar que sou a Shari? Aquela chata da Mirtes ficou lá em casa.


Lentamente Karen começou a perceber que ali estava um autêntico caso de múltiplas personalidades. Ficou animada. Porém, era preciso conter seu entusiasmo.


— A Dra. teria por aí uma dose de uísque? Preciso molhar a garganta…


Mirtes estava assumindo a personalidade de uma garota de 20 e poucos anos. Estilo hippie, roupas extravagantes e coloridas, óculos escuros redondos e enormes, bandana segurando os cabelos cacheados. Só pode reconhecer ser Mirtes por estar com o seu cão guia e por ser cega. Se não fosse por isso não a teria reconhecido.

* * *

— Sinto muito. Aqui não temos bebidas alcoólicas. Mas posso preparar um chá se você quiser — ofereceu Karen para sua nova amiga.


— Deve estar me zoando, né dra.… — disse Sharon para Karen. — Posso fumar um cigarrinho do capeta ao menos? — riu alto.


Karen ficou muda com a atitude de Sharon. Essa personalidade de Mirtes parecia mais interessante. Começou a prestar atenção em tudo. Em seus jeitos, roupas, palavreado. Era tudo que ela desejava, porém, tinha muito a descobrir ainda sobre as múltiplas personalidades. Quantas seriam? Essa já era a segunda, fora a Helen que só conhecera pelo telefone.


— Shari, quantos anos você tem?


— Completei 24 semana passada. Por que quer saber? — falou com desconfiança.


— Apenas para nos conhecermos…


— E a Dra. quantos anos tem?


— Não estamos aqui para falar de mim. É sobre você, Sharon.


— Xiiii, a coroa não quer falar a idade… — gozou da cara de Karen e se esparramou no divã. Pelo menos alguém usaria o móvel da maneira correta.


— Não é isso. Apenas precisamos ter foco. Mas se quer saber, tenho 43 anos.


Karen não gostava de lembrar a idade que tinha. Ainda sem um casamento, muito menos um pretendente. E não era por ela não ser atraente. Loira, olhos azuis, corpo esbelto e bem torneado. Boca bem desenhada. Autêntica leonina. O que mais ela prezava era sua independência. Os namorados diziam ser dominadora e queria controlar tudo à sua volta. Talvez por isso ainda não tenha se casado. Os homens tinham medo dela. Mas o foco era Sharon, certo?


— Você tem a mesma idade da Helen. Só que você é mais bonita…


— Obrigado pelo elogio. Mas como pode saber se é cega? — falou Karen desconfiada.


— Sou cega, mas não sou burra. Tenho outros sentidos aguçados. O seu perfume, por exemplo. Se não me engano é o J’adore da Dior. Acertei?


— Espantoso! É esse mesmo. Como conhece?


— Relaxa! Minha irmã mais velha o usa. Por isso eu sei. É perfume de velha — riu folgadamente.


— Nossa! Você deve ter muitas irmãs… — falou Karen esperando que Sharon lhe dissesse em quantas elas eram. Ela não respondeu.


— Vem cá Dra. Karen… Será que já posso ir embora? Tô meio cansada hoje — disse isso e se sentou com as mãos no queixo e cotovelos apoiados nas pernas.


— Nem começamos a nos conhecer e já quer ir? Nosso tempo é de uma hora…


— Não tô afim não. Só vim porque a Helen me mandou. Na verdade, aquela vaca me chantageou.


— Chantageou? Como assim? Pode me explicar melhor?


— Ela escondeu os meus cigarros e disse que só devolveria se eu viesse na consulta no lugar dela.


— Estranho isso… Já é a segunda vez que ela manda outra irmã em seu lugar. Sabe me dizer o por quê?


— Sei lá. Deve ser por falta de tempo. Helen está sempre ocupada com as suas coisas e fica fazendo com que a gente a ajude.


— A gente quem?


— A gente, porra! Nós, suas irmãs. Tá prestando atenção no que eu tô falando ou tô aqui de besta? — falou Sharon embravecida.


— Estou prestando sim, Shari. Pode continuar.


— Então vou nessa. Se Helen ligar diga que fiz tudo direitinho, senão ela vai me punir.


Sharon se levantou. Seu cão guia se pôs em posição. Karen a ajudou a chegar até a porta.


— Até nunca mais Dra. Karen — deu um largo sorriso e virou as costas para sair dali. — Ah! Ia me esquecendo. Pega aí o seu dinheiro — entregou-lhe a nota de 50 euros.


— Obrigado Shari. Até a próxima.


— Próxima? Até nunca mais.


Sharon saiu pela rua puxada pelo cão guia. Karen voltou ao seu consultório. Precisava fazer anotações sobre o caso enquanto os fatos estavam frescos em sua memória. Já deixou uma manhã de cada semana reservado para Helen. Como agora sabia das múltiplas personalidades de Helen, sabia que ela ligaria toda semana. Bastava apenas saber quem viria no próximo encontro.


* * *


A semana se passou e nada de Helen ligar marcando um horário. Lembrou que da última vez ligara na sexta-feira quase no final do expediente. Já era sexta novamente e já passava das 18h. Esperaria até as 19h para ver. Helen não ligou. Karen foi embora. Não podia esperar mais. Tinha um jantar com seu pai, o Sr. Adam, como ela o chamava. Ele marcara no Olympiaturm, o restaurante giratório. Na altura de 300 metros, é possível ter uma vista panorâmica da cidade. O pai estava com saudades. Karen o amava e fazia questão de tomar uma cerveja com ele. Todo alemão que se preze gosta de uma cerveja. Dessa vez tomaram uma de trigo. Conversaram sobre banalidades. Adam contou como estava seu relacionamento com a nova namorada. A mãe de Karen falecera há 5 anos. Câncer de mama. Adam não perdeu tempo. Dizia não ter nascido para viver só. Karen compreendia. Só tinha uma condição: jantar ou almoço com ele teria que ser só com ele. Frisava. Depois de 2 horas se despediram e cada um tomou a direção de sua casa.


O sábado e domingo foi como os anteriores. Munique tinha sua parte cultural ativa. Mas uma fugida para um dos lagos nos arredores da cidade também era uma boa pedida. Mas nesse final de semana Karen quis ficar em seu apartamento estudando mais sobre múltiplas personalidades. O caso de Helen despertava a sua curiosidade.


A semana começou e os dias foram passando. Segunda, terça, quarta e nada de Helen ligar. Mas no final da quinta-feira o telefone tocou e era ela. Dessa vez Karen nem fez charme e marcou para o dia seguinte. Disse apenas que abriria uma exceção.


Continua...




FESTA DE ANIVERSÁRIO


por Sidnei Capella

IG: @capsidnei

CAPÍTULO II — AMIGOS SINCEROS


Chegou o dia que antecedia a festa a fantasia, em comemoração aos dezessete anos de vida do jovem Diego. O rapaz mostrava-se muito ansioso.


Izabel, Nilton e a estupenda decoradora e organizadora Karen já haviam preparado tudo, só faltavam os detalhes para serem feitos no dia da festa.


Diego se comportava em um alto grau de empolgação, que era normal para idade, o jovem "cabaço" só pensava na festa. A ansiedade era imensa, que, nos dias anteriores a festa, o rapazola nem engravidou o ralo do banheiro.


“O dia da minha festa chegou! Nem dormi direito… tomarei café e ajudarei meus pais nos preparativos do meu aniversário.” ─ pensou Diego, deitado na cama.


Diego levantou, escovou os dentes e desceu as escadas, seguindo em direção à cozinha. Quando chegou no cômodo da casa, deparou-se com uma cesta de café da manhã. O que mais chamou a atenção do moçoilo, foi o pote de 500g de Nutella, personalizada com o nome do aniversariante e com dois corações.


O rapaz rapidamente abriu o cartão que estava na parte de cima da cesta de café. Ao ler a mensagem de felicitações, constatou que o seu primeiro presente foi dado pela apaixonada de olhos azuis, Júlia.


O faminto e ansioso Diego saboreou todas as guloseimas e comeu meio pote de Nutella. Assim que terminou de tomar o café matinal, pegou o Smartfone que estava carregando a bateria e, fez uma ligação de chamada de vídeo para agradecer a garota. A jovem de olhos azuis, estava sobre a cama, preparando-se para levantar.


─ Obrigado Júlia! Muito maneiro a cesta que você me deu ─ falou Diego, agradecendo o belo presente da pequena musa. ─ Desculpe por te acordar!


─ Não tem o que agradecer e nem pedir desculpas! Você merece mais do que uma cesta, eu gosto muito de você ─ Júlia replicou ao agradecimento do amigo e, aproveitou o momento para dar uma cantada no aniversariante.


Os dois amigos conversaram durante algum tempo, falaram sobre a festa e ao final da conversa, antes de encerrarem a chamada de vídeo, Júlia mencionou para o Diego que a fantasia que ela usaria seria surpresa, e, que, o Diego gostaria muito.


“Qual será a fantasia que Júlia usará? A minha será do Batman!” ─ pensou Diego.


Ao desligar a chamada de vídeo, Diego, verificou se a fantasia do Batman estava em ordem. Caminhou até o "quarto da bagunça", que, de desordem não tinha nada, pois, Izabel gostava de tudo organizado, constatando que a fantasia do morcego estava arrumada e dobrada. Reparou, que, em cabides estavam as roupas dos seus pais que eram as fantasias do Fred Flintstone e da Wilma, personagens de um desenho animado.


Diego olhou de perto as fantasias de Izabel e Nilton e começou a rir, imaginando a cena dos pais vestidos naquelas roupas esquisitas. Diego não demorou muito no "quarto da bagunça". Saiu do cômodo e se dirigiu, em passos largos, ao local da casa em que estava sendo feito os últimos detalhes para a festa.


Para alegria do jovem rapaz, ao entrar bruscamente com a cabeça baixa na porta de acesso à garagem da casa, que era usada para festas quando necessário, topou com a estupenda Karen que mostrou para o atrapalhado e ansioso um lindo sorriso e beijo-o a face desejando-lhe parabéns.


Ao presenciar a cena do atrapalhado e sem noção, Diego, Izabel pediu calma para o filho. Falou que já estava tudo arrumado e pediu cuidado, informando que acontecendo acidentes, poderia quebrar os enfeites da decoração feitos em neon.


No fim da tarde, já com todos os preparativos prontos, Diego ainda se comportava extremamente ansioso, andando de um lado para o outro e repetindo diversas vezes as mesmas tarefas.


“Será que a minha festa será legal?” ─ preocupado pensou o Diego.


Izabel notou que o filho estava cheio de TOC. Preparou um chá de melissa e deu para o Diego tomar com a intenção de tranquilizar Diego.


─ Diego toma o chá, vai te fazer bem!


─ Caraca! Este chá é muito ruim ─ Diego tomou e reclamou. ─ Minha festa será ‘show’, está tudo da hora! ─ Mais tranquilo, Diego elogiou o empenho e a dedicação dos pais na organização da festa.


Izabel, cansada e feliz, sentou-se no sofá da sala ao lado de Nilton, agradeceu ao marido por ser um pai bondoso e prestativo para a família. Nilton, escutando os elogios, abraçou a esposa, encostou suavemente os lábios nos carnudos lábios da amada mulher e o casal selou a conversa com um longo beijo. Permaneceram aos toques e carinhos, até o retorno de Diego, que percebendo o namoro dos pais, fez um barulho de tosse, mostrando que quem manda na sala da casa era ele.


“Logo agora que estava bom…” ─ pensou Nilton, ao ver o filho entrar na sala.


─ Diego, vai tomar banho! ─ gritou Izabel. ─ Logo os convidados vão chegar ─ complementou Izabel.


Diego tomou banho, vestiu a fantasia de Batman e desceu para o andar térreo da casa, locomovendo-se para a garagem arrumada e organizada para a festa.


A equipe do Bufê se encontrava uniformizada com fantasias diversificadas, os colaboradores estavam no local, prontos para desempenhar as tarefas perante os convidados. O DJ Bebeto estava fantasiado de Robin, manipulava as músicas em sua mesa de som e controlava a iluminação de neon. A linda Karen estava fantasiada de Mulher Gato e administrava as equipes andando pelo salão, rebolando o belo traseiro destacado nas calças de couro preta, os olhares de Diego não saiam da mulher gato. Os convidados chegavam fantasiados e sorridentes.


“Coincidência doida! Eu de Batman e a Karen de Mulher Gato” ─ Diego imaginou um relacionamento do homem morcego com a gata Mulher Gato.

Os convidados, na maioria, amigos de Diego, entraram direto para a garagem transformada em um salão de festa. No canto direito da garagem uma colaboradora da equipe da Karen recebia os presentes e depositava em uma caixa toda desenhada. Algumas fantasias eram repetidas, mas todas as pessoas estavam caracterizadas, até os avós de Diego estavam fantasiados.


Por último chegou o Rafael, melhor amigo de Diego vestido de Peter Pan e, na sequência chegou Júlia a garota de olhos azuis, com a fantasia de Chapeuzinho Vermelho que, arrancou suspiros de todos os amigos. Só Diego que não percebia a bela garota que era a Júlia.


Os jovens dançavam com as músicas que o DJ Bebeto controlava da mesa de som, os convidados eram servidos pelos funcionários do Bufê. A linda Júlia ficou todo tempo ao lado de Diego, tentando arrancar um beijo do desligado jovem que só tinha olhares para a Mulher Gato, mas mesmo assim Diego, Rafael e Júlia amigos inseparáveis dançavam, conversavam e se divertiam.


─ A festa está maneira! ─ comentou Rafael com Júlia e Diego.


─ Estou me divertindo muito! ─ afirmou Júlia dançando, com os dois amigos.


Assim que acabou a música Júlia piscou o olho direito para o Rafael e foi até o banheiro. Era um sinal combinado, pedindo para o amigo ajudá-la a conquistar Diego.


─ A Júlia está muito gata fantasiada de Chapeuzinho Vermelho! ­─ elogiou Rafael, a amiga, tentando abrir os olhos de Diego em prestar atenção na garota. ─ A Júlia não está linda? ─ perguntou Rafael.


─ Sim, muito linda! ─ respondeu Diego. ─ Prefiro a Mulher Gato!


─ Diego, você viaja nas ideias! ­─ falou Rafael, esbravejando com Diego. ─ A mulher Gato é namorada do DJ Bebeto e além de tudo ela é muito areia para o seu caminhãozinho ─ gargalhando, Rafael contou para o amigo.


─ Sério? ─ desanimado com a notícia, Diego duvidou e perguntou para o Rafael.


─ Está na hora, brother, de você prestar atenção na Júlia! ─ expressou Rafael.


“A Júlia é minha melhor amiga, não a vejo com outros olhos… só como uma grande amiga. Mas ela está gata!” ­─ pensou Diego.


Júlia voltou do banheiro com segundas intenções, chamou o Diego para dar uma volta no jardim da casa, que, é um belo jardim, repleto de plantas e flores. Chegando no local, sentaram-se em um banco a frente de um pequeno chafariz que, ficava no centro do jardim e, sem falar muito, Júlia tomou a decisão de surpreender Diego aproximando os seus lábios dos lábios de Diego que, foi correspondida com um ardente beijo.


Diego e Júlia finalizaram o beijo, voltando de mãos dadas para o salão de festa e, continuaram a dançar, como se nada tivesse acontecido. O beijo acendeu o jovem Diego que ficou mais arisco do que nunca, os hormônios do jovem Batman estavam pulando para fora do seu corpo, ele estava se sentindo o perfeito garanhão. Júlia, feliz da vida por conseguir arrancar um beijo do seu príncipe, mal sabia que, nos pensamentos do amigo Diego, foi simplesmente um beijo, não era intenção do iludido Diego namorar.


A festa chegou ao final e tudo correu bem, os convidados foram saindo gradativamente cansados e empanturrados. Iniciou a arrumação pela equipe da Karen que foi finalizada no mesmo dia.


Diego agradeceu todos os amigos e por último se despediu de Júlia, dando um beijo no rosto da garota, como se nada tivesse acontecido. A linda Júlia, estava esperando outro beijo na boca, mas apenas retribuiu com outro beijo no rosto. Diego retornou pensativo para a garagem.


“Amo, meus, amigos! Eles combinaram não repetir os meus presentes, e eu, idiota, fazendo mau juízo deles.” ─ refletiu Diego, mostrando ter aprendido em não tomar decisões precipitadas.


Karen e os colaboradores da empresa de decoração e organização de festas, terminaram de arrumar o salão e, para a alegria de Izabel e Nilton, deixaram tudo impecável.


Mesmo sabendo que Karen era namorada do Robin, Diego não tirou os olhos da Mulher Gato que terminou o serviço e dispensou a equipe do trabalho, e logo partiu no mesmo carro com o DJ. Bebeto.


“Este cara tem sorte, está pegando este mulherão!” ─ imaginou Diego morrendo de inveja do DJ Bebeto.


Com a casa arrumada, Fred Flintstone e Wilma, pais de Diego, foram dormir no seu ninho de amor e antes acabaram com o que haviam começado na sala, antes da festa começar. Robin partiu no Batmóvel com a exuberante Mulher Gato, com destino a bat-caverna do love.


“Como pode? O correto é o Batman pegar a mulher gato!” ─ pensou Diego, indignado e com a ideia fixa em Karen.


Diego tirou a fantasia do Batman, voltando a versão Diego "cabaço". Entrou no banheiro e travou uma batalha de super-herói contra bandidos, duelando em desvantagem entre cinco contra um.

Mensagem: “Cultivar boas amizades e conservá-las! Os nossos amigos podem nos surpreender.”

FIM



NASCIMENTO DE ESTRELAS NO VÁCUO DO AMOR


por Paulo Brito

IG: @paulodebrito_

Passava das 11 horas da manhã de sábado e precisava escrever um artigo para a revista Locks e Mod, uma revista de pouca tiragem e muita juventude crítica. Mesmo me pagando pouco, ainda era algo no bolso e, na minha situação, o pouco é muito. Giovana terminará comigo na tarde anterior num encontro repentino após umas duas ligações insistentes para que nos encontrássemos, fomos a um barzinho próximo ao apartamento que ela dividia com amigas da faculdade de arquitetura. Numa mesa de madeira vagabunda, que se diga de passagem mais rangia do que se sustentava em pé e havia tantos rabiscos nela que parecia uma obra de arte de uma criança de 6 anos, mas isso não importa, ali, naquele bar, naquela mesa, ela me disse:


— Acho que é hora de darmos um tempo.


Ouvir aquilo bebendo uma cerveja barata deixou um gosto mais amargo do que eu esperava. A verdade é que já imaginava que o tema seria nossa relação, ela já estava fria e distante, dizia que a origem dessa mudança de temperatura era eu, porém sabíamos que não era apenas eu, mas ambos. Busquei ar para encher os pulmões para tentar pronunciar qualquer sentença, qualquer uma que ao menos demonstrasse um espírito de luta ou esperança ante aquela situação. E consegui. Disse miseravelmente e quase sem forças:


— Tudo Bem.


Olhei nos olhos dela por uns segundos antes de virar a lata da cerveja como se morresse de sede, depois apenas olhei para baixo por mais um tempo até que ela quebra o silêncio, com uma frase que definiu para sempre qual caminho seguiríamos:


— É tudo que você tem a dizer?


Respirei fundo, e agora com os pulmões descomprimidos de nervosismo, soltei um belo, sonoro e indiferente “É”. Depois disso apenas levantei e fui embora, nem sequer prestei atenção em como cheguei em casa, qual tipo de condução peguei. Apenas estava lá, em minha cama, olhando para o teto e me fazendo perguntas que algumas pessoas, creio eu, não teriam em minha situação:


— Por que não estou triste?


— Por que me sinto aliviado?


— Por que não sinto falta dela?


— Por que me sinto vazio?


Apesar de passar umas horas pensando nisso, não encontrei resposta, só sono e tédio. Claro, isso me fez dormir depois de um tempo e ainda bem, pois precisava escrever um artigo no dia seguinte. E aqui estou eu, pensando um pouco sobre aquela situação com pitadas de covardia, frieza e vergonha da noite anterior. Dei uma golada no café quente e uma tragada demorada no cigarro. Tinha parado, por conta dela, mas ela se foi, então… tanto faz. Depois de um tempo pensando sobre o que escrever, decidi sobre o que gostaria de falar. Algo que trouxe alivio, mas trouxe incômodo. Algo que trouxe ordem, mas trouxe vazio. Algo que trouxe satisfação, mas saudades.


20 de agosto de 1983, Rio Grande do Sul



NOSSOS COLUNISTAS


Luiz Primati, Alessandra Valle, Sidnei Capella, Paulo Brito e Carlos Palmito.

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