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CONTOS DE UM FUTURO DISTANTE Nº 5 — 15/03/2022

Atualizado: 21 de mar. de 2022

O plantão de Alessandra Valle cuida do caso de uma adolescente fujona. Carlos Palmito nos brinda com o terceiro e último capítulo de um conto escrito em 2005 e foi re-escrito agora, especialmente para o nosso blog. Eu, Luiz Primati, trago um conto de 2018, publicado inicialmente no Facebook em partes e depois entrou para o livro: "Velhas Histórias Urbanas" que foi baseado num fato. O nome do conto é "O Palhaço do Coqueiro". E por último, Sidnei Capella apresenta mais um capítulo de seu conto sobre a espiritualidade. E temos uma nova colunista: Simone Caetano que estréia nesse caderno.


Esse caderno tem a intenção de divertir os nossos leitores que, sempre acabam tirando algum ensinamento para suas vidas.

Leia, Reflita, Comente!


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APRESSADAMENTE


por Alessandra Valle


Acordei atrasada para o plantão, sem motivo aparente, o despertador do celular não tocou.


Afoita, nem fiz café para tomar, pois, esperaria o cafezinho fresco que a auxiliar de limpeza fazia carinhosamente três vezes ao dia, na "Desaparecidos".


Isso mesmo, a maioria dos policiais civis consomem muito café, como se nossa rotina já não fosse "cafeína na veia".


Ao chegar na delegacia, um casal estava aguardando atendimento. Agitados, falavam ao telefone.


Tão logo me organizei, convidei-os para a sessão de atendimento no plantão.


O casal confirmou que gostariam de registrar o desaparecimento da filha adolescente.


A mãe, repetia insistentemente;


— Ela não me contou estar namorando. Eu já deveria ter desconfiado.


O pai se limitou a dizer que a filha não tinha idade para namorar.


Procurei me inteirar sobre o fato do desaparecimento e eles acabaram por narrar uma fuga do lar.


Era preciso identificar a pessoa com quem a adolescente estava e principalmente, certificarmo-nos de que contra ela não estava sendo praticado nenhum crime.


Sem maiores complicações identificamos o rapaz que fazia companhia à adolescente. Tratava-se de outro adolescente, vizinho e conhecido dos pais da desaparecida fujona.


Ao realizarmos contato com a genitora do rapaz confirmamos que o jovem casal havia passado a noite em sua casa e, logo cedo, haviam saído juntos, afirmando que iriam passar o dia na praia.


Quando indagada a respeito para qual praia os jovens enamorados teriam ido, a mulher não soube responder, dificultando-nos a busca imediata.


— Eles saíram muito cedo, estavam com pressa, queriam aproveitar a praia — disse a mãe do rapaz, tranquilamente.


Ao contrário do que os pais da jovem imaginavam, a polícia não tem como adivinhar o destino das pessoas, nem mesmo percorrer a orla do Rio de Janeiro em busca de duas pessoas que não deram informações sobre suas localizações.


Até o momento, sabíamos que a adolescente não estava sofrendo nenhum crime, nem estava com um desconhecido, mas seus pais exigiam mais, queriam responsabilizar a mãe do rapaz, afirmando que ela teria obrigação de avisá-los quando percebeu que a adolescente iria pernoitar em sua casa.


A mãe do rapaz se surpreendeu com as exigências e incriminações descabidas.


— Já não é a primeira, nem segunda, nem terceira vez que sua filha dorme lá em casa. Pensei que vocês soubessem do namoro — disse a mãe do rapaz, surpresa e indignada diante das acusações.


Enquanto as famílias se conheciam melhor e dirimiam as dúvidas, eu e outros colegas ligamos insistentemente para os celulares do jovem casal.


Até que a adolescente retornou à ligação para um dos números de telefone da delegacia e conversou com uma colega policial que procurou compreender a situação e buscou convencer o casal a aceitar voltarem ao lar.


Uma viatura policial com dois colegas foi até o local indicado pela adolescente, em uma belíssima praia da Zona Sul do Rio de Janeiro, para buscá-los.


Ao retornarem à base policial, o casal de adolescentes entrou de mãos dadas, para perplexidade dos pais da menina.


Eles passaram por seus pais sem cumprimentá-los, foram logo sentando e se acomodando no setor do plantão.


— Eu não disse nada para meus pais porque eles iriam proibir meu namoro — disse a adolescente fujona.


O rapaz aparentava estar nervoso e afoito para declarar:


— Temos pressa para nos casar. A investigadora sabe como podemos fazer isso sem que nossos pais interfiram?


Enquanto eu, só tive pressa para chegar à Delegacia naquele dia.



DE ANJOS E FADAS


por Carlos Palmito


CAPÍTULO 3 — DEPOIS DA ARANHA


— Fiedel é o seu nome, correcto? — indagou a agente da autoridade e da lei quando o anjo noturno entrou e se sentou na única cadeira livre.


O ambiente desta sala não era tão cuidado como o da médica.


Ele assentiu com a cabeça.


— Pode então contar-nos o que sucedeu na noite anterior? Todos os pormenores que se lembrar? — ele começou o relato sobre tudo o que sucedeu, os policias ouviam atentamente, ela apenas escutava, o agente ia retirando notas para um pequeno livro de apontamentos que tinha consigo.


Na outra sala, Amy tinha acabado de ser examinada, o olhar ainda estava fixo nas flores, a médica estava agora sentada na sua frente, no seu lado da secretária, tentava interrogar Amy, mas nada a conseguia fazer falar, nada lhe conseguia extrair uma única reação.

Fiedel saiu da sala acompanhado pelos dois agentes, estes entraram então na sala da médica de óculos de aros grossos, viraram-se para ela e puseram-lhe algumas perguntas, o agente, ia continuando a retirar apontamentos, como se fosse um jornalista, ela, apenas ouvia, e Amy continuava sentada a olhar o vazio... a olhar as flores... a porta fechou-se, deixando Fiedel no corredor.


— Consegue dizer-nos quem fez isso? quem lhe fez estes golpes Amy? — perguntou numa voz amena a mulher policia.


Amy nada respondeu, ficou a olhar o vazio, a contemplar as flores envoltas pelos raios solares e a absorver o éter do ar... a policia insistiu... uma lágrima cristalina e salgada brotou então do olhar de Amy, primeira reação.


— Uma aranha, duas aranhas, duas aranhas que teceram uma teia para a pequena mosca...


— balbuciou, quase num murmúrio...


— Pequena mosca?


— Sim, a pequena mosca, que é o que sou, uma pequena mosca que caiu numa teia...


— Quem eram as aranhas? Como eram as aranhas?


— Não sei, não sei, eram aranhas, cheiravam a morte, eram aranhas que me apanharam numa teia, eram aranhas que riam, eram aranhas... eram aranhas que me apanharam... corre corre pequena mosca...


— Consegue falar-nos dessas aranhas Amy?


— Cheiravam a morte, cheiravam a morte, tinham olhos negros e cheiravam a morte, cheiravam a podre... eu corri, devia ter voado como as moscas fazem, mas corri...

As lágrimas corriam agora a fio pelo rosto de Amy, a policia tentou insistir com mais perguntas, mas Amy nada respondia, apenas falava nas aranhas, nas aranhas que a perseguiam... nas aranhas que cheiravam a morte, enquanto o olhar estava fixo no canto das rosas brancas... as perguntas pararam, a porta foi aberta permitindo assim a Fiedel entrar.


— Bem, vou ser direta," — começou a médica enquanto ajustava os óculos na face, — Amy vai precisar de acompanhamento psiquiátrico, não está em condições mentais para aguentar sozinha, vou-lhe passar o contacto de um psiquiatra para que ele a atenda o mais breve possível. Não deve em caso algum deixá-la só, ela está em bastante dor, pode voltar a tentar o suicido, embora a apatia que eu vejo nela me faça prever que não o fará, pelo menos para já.


Fiedel aceitou a folha em que se encontrava escrita, em letra clínica, o nome e telefone do psiquiatra.


Saíram do hospital acompanhados pelos dois policias... já no exterior, enquanto eram acariciados pelo vento e pelo sol, Fiedel foi avisado que seria contactado em breve para prestar mais declarações, e para que assim que Amy recuperasse, fosse ouvida também.

Um táxi chegou, Fiedel dirigiu-se para ele, apoiando Amy pelo seu abraço, abriu a porta e tentou entrar com ela.


— Não, não, não quero! — fez força para não entrar.


O anjo pediu desculpa ao taxista, e começou a caminhar pelas ruas com Amy no seu abraço, era ainda uma distancia razoável até ao apartamento dela, mas percorreram-no rápido.

As pessoas passavam alheias a ambos, como se fossem invisíveis, o trânsito estava em hora de ponta, carros que passavam, buzinavam…


Amy estremecia com o som de cada apitadela, no ar predominava o aroma de castanhas assadas, o vento estava gelado e o sol do meio dia mal conseguia aquecer as pessoas... era o gelo que continuava, o gelo que não se conseguia quebrar.


Finalmente a rua do apartamento, entraram... Amy livrou-se do abraço de seu protetor e foi para a sala, sentou-se no sofá a observar os raios solares entrarem por entre os cortinados.

Fiedel dirigiu-se à cozinha, começou a preparar algo para ela comer, para ele mesmo comer também, sentia-se esgotado, há mais de vinte e quatro horas que não dormia, mas não podia adormecer agora.


Preparou uma refeição suave que levou para a sala, colocou um prato em frente a Amy, e outro para ele próprio, comeu.


Ela brincou um pouco com a refeição, mas mal lhe tocou, estava somente ali, quase como que um invólucro vazio, como se tivesse ficado presa na noite anterior e apenas tivesse sobrado o corpo.


A Amy que Fiedel sempre vira e amara no bar encontrava-se adormecida, no seu lugar estava este corpo desabitado.


Os pratos foram levados para a cozinha, ouvia-se o som de água a correr enquanto eram lavados...


Subitamente gritos, Amy berrava aterrorizada, Fiedel deixou cair um copo ao chão, que se estilhaçou por completo e correu para a sala, Amy encontrava-se em cima do sofá, encolhida e bramia aterrorizada, apontando para um dos cantos.


— Aranha, aranha, aranha!


Ele olhou para a direção indicada, uma pequena aranha estava lá, quase invisível, se não fosse Amy a apontar ele nem a viria, dirigiu-se célere para lá.


— Não, não, ela corta-te ela tem uma teia muito forte, afasta-te. — ele ignorou-a, esmagando a aranha debaixo da sola da sua bota.


— Todas as aranhas morrerão Amy, esta e todas, não existe mais aranha aqui, a teia não é assim tão forte.


Dito isto foi buscar uma pá e meteu a aranha no lixo.


— Lixo Amy, lixo é o que todas elas são.

Sentou-se então ao lado de Amy, ela repousou a cabeça no seu colo, e ele acariciou-a, afagou-lhe a face e a nuca, o cabelo, olhando sempre docemente para o rosto da sua amada.


Sobre uma mesa viu o que julgou ser um álbum de fotos, levantou-se e foi buscá-lo, em conjunto com o comando da aparelhagem.

Meteu uma musica bem baixa, dando apenas melodia à casa de uma fada, fada essa que agora soltava novas lágrimas.


Bach era o som que provinha das colunas... começou a folhear o álbum, apontando fotos para Amy, perguntando coisas sobre elas, mas ela não respondia, nada, nenhum som, apenas as lágrimas e o olhar vazio... o tremer quando algum som mais forte chegava do exterior.


Amy estava em todas as fotos, nalgumas com outras pessoas que Fiedel desconhecia… a família dela, quem sabe.


Ele foi vendo, observando, mostrando e perguntando, enquanto a tarde se transformava em noite, enquanto o sol se escondia para lá do monte Olimpo e as estrelas começavam a piscar uma a uma, a cintilar no horizonte.


O transito acalmou, agora dois, três carros apenas a passarem muito pausadamente... Fiedel foi confecionar nova refeição, Amy não saiu do seu refugio no sofá, recusava-se...


Um repasto, também este leve, foi feito, mas Amy mal comeu novamente, olhava apenas, vazio o olhar... quem sabe como estaria a mente dela... "pequena mosca corre corre para a teia que tecemos para ti… "!


Neste momento Fiedel encontrava-se já extremamente cansado, mas não se permitia adormecer... foi lavar a cara com água gelada, água que ele mesmo tinha metido no frigorifico para esse propósito, e voltou para o sofá.


Amy recostou a cabeça no seu colo, ele pegou-lhe, levou-a para a cama, deitou-se a seu lado, sentia-se um intruso na casa de uma fada, porém tinha que ali estar.


Uma luz suave entrava no quarto, Amy vestiu o pijama e deitou-se... Fiedel sentou-se na beira da cama, segurando a mão trémula da sua amada, beijou essa mesma mão... como queria ele beijar os lábios, não podia, não podia…


Começou a contar-lhe uma história, um conto de embalar que se lembrava, de fadas e unicórnios, princesas e príncipes, onde não existem nem aranhas nem moscas, tentando nisso transportar a mente dela para um outro mundo, um mundo sem teias.


Ela adormeceu, esgotada pelo sofrimento, extenuada pelo turbilhão de pensamentos!


Fiedel fechou os olhos por um segundo, abriu-os ao perceber um som, um pequeno som, olhou para os números a vermelho num relógio, eram cinco da manhã, olhou para o lado, Amy ainda ali se encontrava, mas agora acordada, olhos abertos focados no teto.


Levantou-se, foi lavar o rosto, não podia adormecer mais... voltou, segurou e acariciou a mão de Amy, enquanto a noite se metamorfoseava para dia, enquanto ela olhava um ponto vazio no teto com aranhas a percorrerem-lhe a mente, aranhas que corriam atrás dela, aranhas que teciam teias para todas as pequenas moscas.


Amanheceu, o sol raiou, Fiedel foi preparar o pequeno-almoço.


Amy levantou-se, vestiu a roupa que ele lhe tinha escolhido na manhã anterior, e dirigiu-se para a casa de banho.


O pequeno almoço estava pronto, Fiedel temeu o pior quando ela entrou na casa de banho, mas dois minutos depois ouviu-se o som do autoclismo e ela saiu.


Comeu mais nessa manhã, ficaram ainda na sala, até que ele se decidiu a levá-la num passeio... teria que ser fora do jardim... divagaram pelas ruas, de novo o trânsito, as bancas de castanhas assadas, de jornais, as pessoas que vão e vêm e não reparam nos invisíveis.


Passearam, mão dada desta vez... Fiedel sempre meigo para com ela... algo lhe despertou a atenção... rosas, rosas brancas, ele relembrou-se dela a olhar para rosas da mesma cor no consultório médico, dirigiram-se para lá, largou-lhe a mão um segundo, retirou dinheiro da sua carteira e escolheu um ramo de rosas.


Amy mirou o outro lado da rua, fixou o olhar em alguém... "como eram essas aranhas?" ecoava agora a pergunta na sua mente, e ela começou a dirigir-se ao estranho de fato cinza e óculos de sol... em passo lento e olhar cravado.


Fiedel encontrava-se ainda a escolher as rosas, o estranho de óculos de sol ouviu uma buzina, olhou para o outro lado da estrada viu Amy a começar a entrar, ela contemplou-o na totalidade.


— Senhor-teia-de-aranha! — balbuciou e continuou em passo lento... a atravessar a estrada.

Ele virou costas e fugiu, correu, virou na primeira esquina e desapareceu nela.


Amy ficou ali, no meio da estrada, sem reação, a olhar para a esquina que protegeu a aranha… um carro vermelho vinha ao longe, Fiedel pagou as rosas e tentou entregar a Amy, mas ela não estava a seu lado.


Viu-a parada no meio do transito, viu a morte escarlate aproximar-se em alta velocidade, deixou as rosas tombarem no chão da cidade e correu para Amy... saltou e empurrou-a, caíram ambos no chão do outro lado... longe da morte de rubra, o carro passou, mesma velocidade, nem sequer travou "seremos assim tão invisíveis?".


Amy abraçou-o, abriu os olhos.


— Anjo, bem que me dissestes que estarias ainda aqui quando eu acordasse!


Abraçou-o mais intensamente e chorou, lágrimas a percorrerem-lhe a face, beijou-lhe o rosto enquanto ele a ajudava a levantar-se num abraço, beijou-lhe os lábios enquanto estavam de pé já...abraçou-o ainda mais forte, e sentiu a retribuição do abraço, meigo, carinhoso... amor contido nele, um amor que até então esteve silenciado no canto escuro de um bar!


Saíram do passeio, passaram junto à banca das rosas brancas... Fiedel olhou tristemente para as rosas mortas no chão, espezinhadas por aqueles que não observam os invisíveis.


Do outro lado, a dona das flores escolheu um ramo e entregou-o a Fiedel.


— Tome, merece estas... não precisa pagar, mereceu-as — ele aceitou.


Caminharam então juntos até ao jardim, sendo ela protegida pelo abraço dele... abraço quente, meigo, cheio de ternura e carinho, ternura e amor.


Sentaram-se num banco absorvendo o ar matinal, fresco, com odor a castanhas assadas e rosas-brancas, ele acariciando suavemente o rosto dela... ela acarinhando a mão dele.


— Que aconteceu Amy? porque saíste de perto de mim? porque foste para o meio da estrada?


— Eu vi, eu vi uma aranha, eu vi o homem do jardim... ele fugiu meu anjo, o senhor-teia-de-aranha, eu vi-o, ele fugiu! — chorou... raiva por não o ter apanhado.


Levantaram-se, Amy notou a fraqueza dele, faz muito que não dormia, esteve sempre de vigia quando ela precisou, notou o sangue seco no braço esquerdo da camisola cinza.


— Deve ter doído.


— Doía muito mais se eles te tivessem realmente feito mal... se eles tivessem conseguido o que pretendiam.


A voz dele era agora mais arrastada, ele tentava fazê-la transparecer forte, como se nenhum cansaço o atingisse, contudo ela era arrastada, demasiado cansaço, esgotado, poder-se-ia dizer.


Caminharam em passos vagarosos para o apartamento dela, alheados a todo o mundo que também estava alienado a eles estava.


O click do trinco da porta, entraram, um ar fresco com fragrância a flores percorria toda a casa, algumas janelas tinham ficado abertas para permitir que o ar entrasse, sentaram-se no sofá um pouco, e daí foram até ao quarto onde trocaram carícias, mimos. Amy fechou-lhe os olhos.


— Chiu meu anjo, agora dormirás tu, ficarei eu a cuidar de ti. — Despiu-lhe a camisola, e tapou-o com um dos lençóis. — Dorme guardião da noite... dorme, hoje os anjos cantarão para ti, hoje proteger-te-ei, tal como tu a mim fizeste.


Fiedel adormeceu quase de imediato, com Amy sentada na ponta da cama, acariciando-lhe o rosto, de expressão suave, recordando todas as noites que em silêncio tinha estado a olhar para ele num dos cantos escuros do bar.


Conhecia cada traço do seu corpo, sabia como ele ria, sabia a entoação da voz... todas as noites amara-o em silêncio, sem nunca se ter apercebido que também ele a amava.


Tinha um anjo deitado agora na sua cama, um anjo que a protegeu, se o amava antes, agora amava-o muito mais... uma lágrima... sal... percorreu-lhe meigamente o rosto e tombou no do seu amado, não uma lágrima de dor ou raiva como as anteriores, mas sim uma de amor.


O ar fresco percorria as divisões, as rosas brancas estavam colocadas numa mesinha perto da janela, "precisam de água, necessitam de sol" — levantou-se deixando o sereno Fiedel adormecido entre sonhos.


Foi buscar uma jarra que encheu com água, retornou passado pouco tempo, colocou-a sobre a mesinha com as rosas brancas lá dentro e voltou então para a beira de Fiedel, deitou-se a seu lado, acariciando-o suave e meigamente, enquanto ele percorria o imaginário dos sonhos.


Na mente dele, estava o bar, ela a entrar e ele a dirigir-se a ela, a segurar-lhe pela cintura e a beijá-la "esperei-te esta noite, esperar-te-ei todas as noites!" — e sentaram-se na mesma mesa onde ele a costumava observar solitário, escondido pela penumbra, ela passou-lhe um braço em volta do peito, acariciando então a face dele do outro lado... deitou a cabeça no ombro dele, e fechou os olhos por um segundo.


— Não, Amy, não, cuidado, não vás por aí.


Amy despertou de imediato, beijou a testa de Fiedel.


— Chiu… — poisou-lhe um dedo nos lábios, — contigo por perto ninguém me fará mal, eu sei disso, sempre soube... dorme meu anjo, dorme, recupera as tuas forças.


Quase que num impulso ele acalmou, entrou de novo no bar, na mesa ao lado dela, sentiu-lhe os lábios colados aos seus, o entrechocar de línguas... o veludo das mesmas enquanto se uniam, ouviu o riso de Amy, sua fada, sua amada... a voz, acariciou-lhe a face.


Uma hora passou então, desde o pesadelo de Fiedel, acordou.


Amy estava com a cabeça a repousar no seu ombro, acordada, a olhar doce e meigamente para ele, enquanto os dedos lhe percorriam os contornos do rosto.


— Estás imundo meu anjo, espera um minuto, vou preparar um banho para ti. — e saiu.


Fiedel ouviu a água da banheira a correr, lembrou-se do banho de Amy, dos fragmentos de vida espalhados pelo chão, do fragmento na mão dela, e lembrou-se do primeiro banho, do banho que lhe deu quando a trouxe para casa.


Levantou-se da cama, olhou para a ligadura no braço, já não doía, já não doía como no dia anterior, sentiu o ar a tocar-lhe o rosto, o tronco desnudo, sentiu um leve arrepio percorrer-lhe todos os poros da pele.


A água parou, ouviu um estilhaço, que fez gelar o seu sangue, correu para a casa de banho esperando o pior, contudo, qual não foi o seu espanto quando quase arrombou a porta e encontrou Amy com o gargalo de um frasco na mão e o resto espatifado no chão, olhando para ele de uma maneira que o fez desatar a rir da cara de preocupação dela devido aquela invasão, que parecia saída de um filme de Acão.


— Partiu o frasco. — dizia ela quase a escangalhar-se a rir.


De a ver chorar com tanto riso, riu ainda mais, temia o pior, contudo riu pelo hilariante da cena, pelo medo que teve, mas principalmente por ver Amy rir... temia não a ver mais rir desde a noite do jardim.


Ela limpou os cacos do chão, colocando tudo no lixo.


— Entra na banheira, não deixes a água ficar fria. — e saiu da casa de banho.


Fiedel despiu a parte de baixo da roupa após a porta ter sido fechada, e entrou na banheira, a água quente e a espuma revitalizaram o resto das suas forças, deitou-se e fechou os olhos por um instante, absorvendo o momento, sorvendo o vapor da água quente, tendo dado conta mais tarde que estava a ser observado, tal como antes era observado no seu canto do bar.


Amy estava junto à porta com uma t-shirt branca nas suas mãos, olhava para ele, para a beleza dele, do seu anjo, sem reação, sem palavra... amava-o desde sempre, poderia mesmo dizer que o amava ainda antes de amar.


Ela notou ele ter aberto os olhos, corou, desviou o olhar dele.


— Esqueci-me de deixar aqui isto para ti, a tua está toda suja. — colocou a t-shirt junto à toalha que estava pronta para quando ele saísse.


Virou as costas e ia para sair, sentiu uma mão a segurar-lhe o braço, não uma mão como a de Pedro no jardim, mas sim uma mão cheia de ternura e carinho, embora a segurasse, era o que sentia nessa mesma mão.


Virou-se, e deparou com Fiedel, no chão da casa de banho. a pingar e escorrer água, desviou de novo o olhar dele.


Foi puxada para junto dele, sentiu a sua pele húmida, mas quente, acariciou-lhe o peito amenamente, tantas vezes que se tinha imaginado a fazer tal, mas sempre pensou nunca o vir a concretizar.


Sentiu o beijo delicado dele nos seus lábios, uma trinca bem suave, ardente, de amor e carinho, amor e paixão... fechou os olhos e deixou-se levar pela alma do seu anjo.


Escondidos pelo vapor de água quente, trocaram carícias suaves e toques ousados e ardentes, explorando cada recanto do corpo um do outro... ele limpou-se, saíram para irem almoçar, seria a primeira refeição decente de Amy desde a noite da aranha, entraram no elevador, e marcaram o rés de chão.




O PALHAÇO DO COQUEIRO

por Luiz Primati


CAPÍTULO 1 — O CIRCO CHEGOU

GILMAR COMEÇOU SUA vida no interior de Recife, mais precisamente na cidade de Paulista, a uma distância de 18 km da capital. No início pegava qualquer trabalho: pedreiro, servente, pintor, serviços gerais. No meio de pessoas diversas, Gilmar fazia uma piada ou outra. Algumas brincadeiras com os amigos para melhor aguentarem a dureza do trabalho. Os amigos riam. Sempre o chamavam de palhaço quando terminava uma piada ou brincadeira. Certo dia, Hildo, seu melhor amigo, sugeriu que ele pensasse sério na carreira de animador de circo.


— Hildo, você está querendo que eu me torne um palhaço. É isso? — questionou Gilmar.


— Isso mesmo. Você tem jeito para isso.


— Não sei não. Eu apenas gosto de fazer meus amigos rirem.


— Você tem talento. Penso que deveria ir lá no circo e pedir uma chance.


— Tá maluco? E perco meu emprego? Todo mundo sabe que essa vida de circo é dura, que ganham mal. Não quero isso para a minha vida — falou Gilmar com angústia.


— O circo só funciona à noite durante a semana. Nos finais de semanas tem alguns espetáculos à tarde. Poderia fazer as duas coisas — Hildo tentava convencer Gilmar.


— Pode ser… Sinto-me velho para isso. Já cheguei nos 30.


— Vai lá. A maioria dos palhaços tem carreira até seus 80 anos. O circo está lá na entrada da cidade, perto do Hospital Central. O que você tem a perder?


— Tempo! — resmungou Gilmar.


— Que nada. Você não tem o que fazer à noite. Dá um pulo lá…


— Vou pensar na sua sugestão.


E Gilmar ficou com as palavras de Hildo na cabeça. Não tinha o que fazer de noite. Isso era verdade. E além do mais, tinha curiosidade em saber como funcionava um circo por dentro.

Não se passou uma semana e lá estava Gilmar na frente do circo. Enorme, com uma lona listrada em amarelo e vermelho, tinha uma circunferência de aproximadamente 70 metros. Na entrada uma espécie de portal com o nome do circo em letras garrafais: Eslakovich Cirkus. Dois pilares laterais, vermelho com estrelas azuis e douradas sustentavam o portal. Uma pequena cerca amarela bloqueava a entrada. Ali ficavam as recepcionistas do circo pegando os ingressos das pessoas. Ao lado dos pilares, duas caras de palhaço esculpidas em lã de vidro. As bilheterias ficavam do lado direito do circo.


Gilmar estava maravilhado com a grandiosidade daquele circo. Ali tudo parecia mágico. As pessoas chegavam aos montes, compravam seus ingressos e iam se acomodando sob a lona. Gilmar se aproximou das recepcionistas. Uma delas estava vestida de bailarina. A outra como uma índia americana. Gilmar parou diante da bailarina.


— Boa noite! senhorita. Eu gostaria de falar com o dono do circo… — falou Gilmar timidamente.


— Ele está ocupado — respondeu a bailarina secamente.


— E que horário ele estaria desocupado? — insistiu Gilmar.


— Eu não sei. Pode ser que depois do espetáculo.


— E demora para terminar?


— A duração é de 1:30h. O primeiro começa agora as 19:30h. E o segundo as 21:15h. Se quiser esperar…


Gilmar achou um pouco tarde. Iria apenas assistir o primeiro espetáculo e depois iria embora. Na manhã seguinte pegava cedo no batente. Comprou seu ingresso e se acomodou junto às pessoas. Ali não tinha lugar numerado. Cada um sentava onde estivesse vago. Um pipoqueiro ofereceu refrigerante e pipoca. Gilmar aceitou. Não tinha jantado. Ajudaria a matar a fome.


O espetáculo começou no horário. Assim que as luzes se apagaram, o apresentador iniciou o show com a famosa frase: “Respeitável público. O Eslakovich Cirkus tem a honra de trazer para a cidade de Paulista, o maior espetáculo da terra. Mágicos Incríveis, trapezistas desafiando a morte, Chicotes Encantados dos índios da tribo Cherokee, globo da morte com 3 motos num espaço minúsculo e muito mais. E durante todo o espetáculo o palhaço Zarolho.”.


À medida que o apresentador ia falando de tudo que o circo oferecia, Gilmar tinha os olhos iluminados e o sorriso largo. A parte que ele mais esperava era a dos palhaços e não tardou para eles aparecerem em cena. O palhaço, escrachado, fazia improvisos entre uma apresentação e outra, sempre distraindo a plateia enquanto montavam as próximas atrações. O público adorava e ria junto das piadas e cenas hilárias que Zarolho fazia.


A noite foi inesquecível. Gilmar assistiu tudo prestando a máxima atenção. Zarolho o cativou. O tempo passou rápido demais. Gilmar ficou com um gostinho de quero mais. Infelizmente acabara e Gilmar foi saindo junto da multidão. A bailarina o viu e chamou por ele.


— Rapaz, ei rapaz — gritou a bailarina


— É comigo que a senhorita fala? — perguntou Gilmar espantado.


— Com quem mais seria? Não era você que queria falar com o dono do circo?


— Sim, era eu. Mas estou cansado. Tenho que trabalhar amanhã cedo. Não aguentarei esperar.


— Falei com o senhor José e ele pode lhe receber agora, antes do próximo espetáculo.


— Que ótimo senhorita.


— Me chamo Daniela. Como é o seu nome?


— Me chamo Gilmar, Daniela.


— Por favor, siga-me.


Gilmar ficou radiante. O senhor José estava num trailer, nos fundos do circo. Daniela abriu a porta do trailer e ordenou que Gilmar entrasse e anunciou seu nome.


— Por favor, Gilmar, sente-se.


O dono do circo era daquelas figuras caricatas. Alto, barriga enorme saltando fora das calças, suspensórios para segurá-las, bigode estilo Salvador Dali, uma cartola preta. Gilmar sentou e agradeceu. O senhor José lhe falou.


— Meu rapaz, Gilmar, não sou de receber vendedores em meu circo. Estou cansado deles e com pouca paciência.


— Não sou vendedor, senhor…


— Eu sei. Fiquei observando seu comportamento durante o espetáculo e logo percebi que não tem jeito de ser um ambulante — fez uma pausa enquanto andava em frente de Gilmar. — Vi pelas suas feições que gosta muito dos palhaços. A cada piada ou cena engraçada o senhor fazia caras e bocas, como se estivesse incorporando o personagem do Zarolho.


— Realmente eu gosto muito deles.


— Pois bem! Se o que você quer é um emprego de palhaço, o que acredito que quer, já lhe aviso que estamos satisfeitos com o Zarolho. — Gilmar desmanchou o sorriso de pronto. Ficou com o semblante soturno. — No entanto, Zarolho está necessitando de alguém que sirva de escada para ele.


— Servir de escada? Zarolho quer subir em cima de uma pessoa? Isso é muito humilhante! — falou Gilmar revoltado.


— Não, não é isso! — riu José. — Servir de escada é o termo para alguém que, participa da cena, mas quem brilha é outra pessoa. Como se você ajudasse as pessoas a rirem da piada de Zarolho.


— Já entendi. É aquela pessoa que o palhaço fica mangando e todos riem dele.


— Mais ou menos isso. Está interessado?


— Senhor José, eu gosto realmente de fazer piadas, fazer as pessoas rirem. Mas nunca trabalhei num circo. Pelo nome do circo pensei que fosse internacional…


— Isso é jogada de marketing. Aqui somos todos brasileiros. Claro que recebemos às vezes pessoas de outros circos: paraguaios, argentinos, mexicanos e, raros casos, algum cigano fugido da Iugoslávia. Hoje, nem o país existe mais. O senhor se interessa pelo emprego?


— E o que eu teria que fazer? Já disse que não tenho experiência.


— O trabalho é simples. Você entra nas cenas junto com o Zarolho e faz o que ele mandar. Mesmo sem experiência, Zarolho comandaria o espetáculo e logo você pega o jeito. A profissão de palhaço é a única que se você errar ninguém vai perceber e te aplaudirão. E esse é o objetivo: fazer a plateia rir. — José fez uma pausa. Olhou para Gilmar enquanto afinava os longos bigodes. Depois falou. — Posso considerá-lo como parte da trupe?


— Eu, eu… não sei. Não queria me mudar daqui…


— E quem disse que mudaremos daqui? Quando chegamos numa cidade costumamos ficar alguns anos. Terá tempo para pensar. No momento Zarolho precisa de um ajudante.


— Estou com um pouco de receio…


— Vamos fazer o seguinte meu rapaz. Assista o segundo espetáculo e preste bastante atenção no Zarolho. Tente se imaginar na cena com ele. Você começa amanhã de noite.


— Senhor José, é pouco tempo…


— É nada. Sei reconhecer um talento só de conversar com a pessoa. Enxergo a alma dela.

Gilmar ainda estava inquieto.


— Tome! — José entregou a Gilmar um caderno e uma caneta. — Anote o que for preciso. Espero você amanhã as 18:00h. A roupa nós temos. Você precisará ser maquiado e repassar as cenas com Zarolho.


Gilmar não garantiu nada. Disse que assistiria ao espetáculo e, se necessário, anotaria. Se estivesse se sentindo seguro apareceria. Caso contrário José saberia que deveria procurar outra pessoa.


— Última recomendação, o espetáculo já vai começar, pense num nome para seu personagem. Gilmar, nem em sonho. Zarolho se chama Antônio Carlos na vida real. Vamos em frente que o show deve continuar.


O senhor José saiu do trailer antes mesmo que Gilmar saísse. Quase teve que correr para não perder o início do show. Sentou na primeira fileira. Assistiu tudo com atenção. Anotou muita coisa. Dessa vez foi mais divertido, pois já se via no picadeiro ao lado de Zarolho. Saiu com um sorriso no rosto. Daniela acenou para Gilmar quando ele passou pela cerca amarela na saída. Pensou ter ouvido ela dizer que o esperava amanhã as 18:00h. Poderia ser sua imaginação.


Durante o dia seguinte Gilmar ficou revisando as cenas e falando sozinho, como se ensaiasse o espetáculo. Só contou para Hildo que imediatamente o apoiou. Mandou que o amigo ficasse tranquilo que dava conta do serviço pelos dois. Ficava feliz por ele. E assim foi o dia todo. Uma felicidade inexplicável no rosto de Gilmar deixava o amigo feliz também. Às 17 horas Gilmar falou ao amigo.


— Estou indo para o circo. Senão chegou atrasado.


— Ah! Então aceitou o emprego? — falou Hildo satisfeito com o que ouvira.


— Não sei ainda. Resolverei no caminho…


— Deixa de frescura. Aceita logo. Você tem talento.


— Vamos ver…


Gilmar se foi. Pegou o ônibus em direção ao circo. Lá decidiria seu futuro. Seu coração estava disparado pela adrenalina só de pensar em entrar no picadeiro. Se estivesse lá então, poderia enfartar.


— Senhor José, eu vim aqui agradecer a oportunidade. Não consigo atuar no picadeiro.

José olhou para Gilmar com espanto.


— Claro que vai conseguir. Venha até o trailer do Antônio Carlos que vamos te preparar… — José fez sinal para que Gilmar o seguisse.


— Acho que o senhor não me entendeu…


— Claro que entendi, meu rapaz. Se você não quisesse trabalhar aqui, nem teria vindo. Você quer, apenas está sentindo medo do picadeiro. Isso é muito comum. Acredite.


— O senhor não faz ideia de como me sinto…


— Eu não faço ideia? Então vou descrever o que está sentindo. Se eu acertar, pare de negar sua vontade e entra para a trupe, OK? — Gilmar meneou com a cabeça. — Pois bem! Você deve estar sentindo: coração disparado no peito, frio na barriga, fraqueza, mãos trêmulas, mente acelerada, mãos úmidas e frias, problemas de concentração, medos pipocando em sua cabeça. Quais desses sintomas você tem agora?


— Todos! — falou Gilmar apavorado.


— Perfeito! Todos nós sentimos isso antes de entrar no picadeiro.


Gilmar pareceu se sentir mais aliviado. Ele realmente queria entrar para o circo. Sua mente queria, seu corpo negava. Acabou seguindo José até o trailer de Antônio Carlos.


— Antônio Carlos? Esse é o Gilmar. Será seu assistente daqui para frente. — Falou José.


— Eu vou experimentar. Não sei se posso dar conta — falou Gilmar com a voz trêmula.


— Seja bem-vindo, Gilmar — cumprimentou Antônio. — Você vai conseguir. Tenha pensamento positivo.


— Estou tentando…


— Bem, meus nobres palhaços, tenho que verificar o resto do pessoal. Se aprontem que começamos e espetáculo em 1 hora. — José saiu do trailer. Ali ficaram Gilmar e Antônio. Agora já não tinha como recuar.


— Tome essas roupas. Veja a que te serve. Depois venha aqui em frente ao espelho para se maquiar. — Falou Antônio agitado.


Gilmar pegou as roupas coloridas e de tamanho exagerado e começou a experimentá-las. Qualquer uma daquelas serviria. Palhaços usam sempre roupas enormes e largas. Precisava apenas escolher uma cor alegre e vibrante e assim o fez. Estava pronto para a maquiagem. Sentou-se ao lado de Antônio. Gilmar olhou para o espelho, olhou para Antônio e depois para a caixa de maquiagens. Não se parecia nem um pouco com um palhaço.


— Vamos meu rapaz. Comece a se maquiar. Não temos tempo a perder.


— Eu, eu… não sei fazer isso.


— Não acredito. Meu Deus! Que tragédia! — resmungava Antônio. Levantou-se, abriu a porta do trailer e gritou. — Pessoal, preciso de alguém aqui para maquiar um novato. Alguém pode ajudar? Daniela, Jurema, alguém…


Logo chegou Daniela, a bailarina. Entrou resmungando ter muito trabalho ainda por fazer. Mas quando viu ser Gilmar, suas preocupações desapareceram. Abriu um grande sorriso e só conseguiu dizer:


— É você? Você veio mesmo…


— Pois é. Nem acredito que estou aqui — falou Gilmar timidamente.


— Fica tranquilo que vou te ajudar a se maquiar. Você verá que é fácil. Amanhã você mesmo conseguirá fazer sem ajuda — tranquilizou-o.


Daniela era hábil. Começou com um lápis preto definindo as áreas dos olhos e bocas. Em seguida, com uma tinta branca, preencheu na área delimitada. Após, contornou a boca, olhos e sobrancelha com um pincel de tinta preta. Com o ruge fez as marcas vermelhas na bochecha e nariz. Por último retirou o excesso de maquiagem. E estava pronto.


— Ficou ótimo! — elogiou Gilmar.


Daniela deixou Gilmar e Antônio ensaiando a cena e se foi. Ainda tinha muita coisa para preparar.


— Qual o seu nome? — perguntou Antônio.


— Gilmar. Pensei que soubesse…


— Não, não. Qual seu nome artístico.


— Ainda não resolvi.


— Hum! Não temos muito tempo. Precisamos de um nome.


Antônio pensou, pensou e sugeriu.


— Que tal Piolim? Combinaríamos bem. Zarolho e Piolim.


— Não sei… Talvez soe legal…


— Bem, depois você muda o nome se achar um mais interessante. Esta noite você é o Piolim.

Piolim foi um sucesso. Todos riram com ele. Zarolho tinha novamente a atenção desejada. No final do espetáculo todos deram parabéns a Gilmar, inclusive Daniela.


— Você esteve ótimo esta noite. Meus parabéns! — sorriu Daniela para ele.


— Obrigado Daniela. Apesar de ter dado tudo certo, me sinto nervoso ainda.


— Bem-vindo ao mundo do circo. É assim com todos nós, todas as noites.


— O senhor José me falou…


— Então relaxe que esse medo nunca passará. Aprenderá a controlá-lo. Sempre estará dentro de você.


Os dois ficaram se olhando sem falar. Havia um clima de romance entre eles. Gilmar resolveu quebrar o silêncio.


— Preciso ir. Está tarde. Amanhã começo a trabalhar logo cedinho. — Disse Gilmar.


— Eu entendo. Espero que em breve você largue seu emprego e venha morar aqui conosco. A vida é dura por aqui, mas divertida.


— Ainda preciso me acostumar com tudo isso.


— Vai tranquilo. — Daniela se aproximou e beijou Gilmar nos lábios, sem rodeios, rápido e saiu. Gilmar ficou extasiado olhando Daniela sumir entre os trailers. Esse ato fechou a noite com chave de ouro.


Gilmar estava em sua cama. Já passava da meia-noite. Estava cansado, mas feliz. Dormiu o sonho dos justos. Logo estaria acordando para o trabalho de servente.


A semana foi corrida. Do trabalho para o circo, depois para casa, trabalho, circo. Gilmar se cansava muito. Era um cansaço compensador. Passado 15 dias nessa correria maluca Gilmar resolveu abandonar o emprego e ficar somente com o circo. Daniela tinha seu próprio trailer e o convidou para morar com ela. Já iniciaram um namoro na primeira semana dele, no circo. Agora era unir o útil ao agradável. O dinheiro do circo dependia do público. Ganhavam parte da bilheteria. Tinham que torcer para as pessoas aparecerem. Para isso faziam propaganda, durante o dia, nos semáforos, distribuindo panfletos. Parecia que o casal vivia um sonho.


Não tinha se passado um mês que conhecera Daniela e ela anunciou que em breve seriam 3. Gilmar não conseguiu conter a alegria. Seria pai. Era um sonho se realizando. Após fazer graça, ter um filho era o mais importante na vida. A alegria vinha acompanhada de preocupações com o futuro. Ganharia o suficiente para sustentar a família? Daniela teria que parar de trabalhar. Teria que ganhar por três.


Os dias foram passando. Piolim ganhava fama. Aos poucos começou a ter sua própria luz. Vez ou outra, Zarolho se sentia cansado e deixava Piolim comandar o show. Nem percebeu que o dia chegara. Daniela pariu no meio da tarde. Deu à luz a um menino: Pedro.

Foram anos incríveis. Criar um filho no meio circense foi um desafio. Pedro era esquisito. Até os 5 anos acharam que era timidez. Quando chegou aos dez começaram as preocupações. Zarolho estava bem cansado e com bastante idade. Parou de atuar. A responsabilidade de alegrar o público caiu nas mãos de Piolim. Era ele, oficialmente, o palhaço do circo. E precisava de uma escada. Sugeriu o filho de 10 anos que tinha verdadeira loucura pelo picadeiro. Mas sua esquisitice preocupava.


Não era necessário fazer nada. Pedro só precisava entrar com o pai e ajudar na encenação. Pedro, porém, tentava fazer algumas piadas que eram bem sem graça. O público se esforçava para rir e sempre Piolim acabava consertando a cena.


Pedro cresceu e o tempo passou. Com 20 anos já tinha a mesma vontade que Gilmar quando começou: ter luz própria. Era isso que queria. Preparou varias piadas e pediu aos pais para atuar, um dia, sozinho. Gilmar pediu para ele mostrar as piadas.


— Pai, veja o que acha.


Gilmar e Daniela estavam sentados no sofá esperando as piadas, ansiosos.


— Você conhece a piada do fotógrafo? "Ainda não foi revelada!".


Pedro riu gostoso. Daniela e Gilmar apenas se entreolharam. Deveriam ser apenas o começo. Outras piadas viriam. Era só aguardarem.


— Por que a mulher do Hulk se divorciou dele? "Porque ela queria um homem mais maduro".

Mais uma vez os pais não riram.


— Tem mais uma. Essa é a melhor. Por que na Argentina as Vacas vivem olhando para o céu? "Para ver se tem Boi nos ares".


Pedro se matou de rir. Os pais resolveram falar.


— Filho, suas piadas são boas, mas…


— Mas você não gostou? Nem você mamãe?


— Eu não disse que não gostamos. Ia dizer que nosso público é gente simples. Precisam de piadas mais fáceis de entender.


— Eu sabia. Não gostaram.


— Não é isso meu filho — disse Daniela acariciando Pedro. — Seu pai tem razão. As pessoas aqui precisam rir sem ter que pensar.


— Pois eu já penso diferente. Vocês estão velhos. O público jovem vai rir bastante.


— Talvez você tenha razão. Ensaie mais e quando estiver pronto você se apresenta. — Disse Gilmar com cautela.


— Está bem. — Falou Pedro cabisbaixo e saiu da sala.


Gilmar e Daniela se olharam tristes. Estava na cara de que Pedro não tinha o menor talento.

Os meses se passaram e Pedro continuava buscando por novas piadas e tentando convencer os pais o deixarem se apresentar. Mas eles driblavam Pedro como podiam. Só que a sorte resolveu sorrir para Pedro. Gilmar pegou uma gripe muito forte. Não conseguia parar em pé por causa da febre. José, dono do circo queria suspender o espetáculo naquela noite. Pedro o convenceu poder dar conta sozinho. E José topou.


Quando os pais souberam tentaram impedir, mas já era tarde. O espetáculo estava começando. Depois das formalidades iniciais, Pedro, recém nomeado de Palhaço Sorriso, entrava no picadeiro para contar suas piadas. A entrada foi engraçada. Veio tropeçando nos próprios pés com os enormes sapatos. Deu algumas cambalhotas e parou no meio do picadeiro e ali começou.


— Qual a dança que o bebê faz na barriga da mãe? "Dança do Ventre".


Algumas pessoas riram. Outras não. Não desanimou.


— O que a banana suicida falou? "Macacos me mordam!".


Mais risadas amarelas. Pedro insistiu.


— O que diz um pato para outro pato? Estamos empatados.


Dessa vez ninguém riu. Uma das pessoas na plateia começou a vaiar. Outras seguiram engrossando o coro. Pedro tentou contar mais uma e atiraram pipocas nele. José percebendo a encrenca que se metera, entrou para acalmar o público.


— E esse foi o nosso Palhaço Sorriso. Vamos prosseguir com o nosso atirador de facas.


O espetáculo prosseguiu. José proibiu Pedro de contar piadas. Era somente para fazer algumas graças, sem dizer nada. Tristemente Pedro obedeceu. Os pais se entristeceram em saber do ocorrido. No dia seguinte ele virou a piada do circo. Riam dele e não “com ele” como ele desejava. Se afastou de tudo. Não queria mais atuar. Não naquele circo.


O tempo foi passando e Pedro foi se tornando uma pessoa soturna, problemática. Sumia quase que o dia todo. Os pais se preocupavam. Ele sempre retornava bem e nunca dizia por onde andava. Até que Gilmar o seguiu numa noite de folga e ficou assustado com Pedro.

Continua...




SONO PROFUNDO


por Sidnei Capella


CAPÍTULO II — CONFIANÇA

Osvaldo foi resgatado das ferragens, ainda com vida e, conforme informações do paramédico para a equipe hospitalar a caminho do hospital, foi relatado que o estado de saúde da vítima é bem delicado.


Lídia, ainda na residência, sem saber do acidente que envolveu o marido, lavando a louça do café da manhã com a filha Amanda, sentiu uma ligeira dor de cabeça e mal-estar.


─ Amanda, minha filha! Pega a cadeira, não estou me sentindo bem!


Amanda rapidamente, levou a cadeira até próximo de Lídia.


─ Mãe o que a senhora está sentindo? ─ Amanda, preocupada, perguntou para Lídia.


─ Filha não estou bem! Bateu-me uma angústia no coração, idêntica à de quando a tua avó faleceu.


Amanda preparou um chá de erva-cidreira e deu para a mãe beber, mas mesmo após ter tomado o chá, continuou extremamente ansiosa e, com toda certeza que algo estava prestes a acontecer.


“O que estão querendo me dizer? Aconteceu algo! Não é bom o que estou sentindo!” ─ pensou Lídia, olhando para filha.


─ Mãe a senhora está me deixando assustada! ─ falou Amanda.


─ Filha lembra da lição que lemos a semana passada em nosso evangelho no lar?


─ Sim! A lição mostrou, que somos amparados a todos os momentos pela espiritualidade e que conforme nossas sensibilidades somos tocados e sentimos a presença de nossos amigos espirituais.


─ Amanda é isto mesmo! Ultimamente, venho sentindo a presença dos nossos amigos espirituais. Quando estou sentindo uma paz, é que está tudo bem, mas quando sinto este frio na barriga misturado com ansiedade e angustiada, não é nada bom ─ comentou Lídia com a filha.


Lídia, percebendo a demora de Osvaldo, lembrou da percepção do marido naquela manhã, comparou com o que ela estava sentindo, pegando depressa o smartphone e fazendo uma ligação para Osvaldo.


Lídia aguardou sem sucesso até o último toque da chamada, angustiada, falou para Amanda juntar-se a ela em oração.


Enquanto Lídia e Amanda oravam, tocou o telefone fixo; Joel o filho mais novo do casal, atendeu a ligação e foi solicitado para chamar Lídia.


Joel interrompeu a oração e, informou Lídia, que era uma ligação do hospital. Alguém querendo falar com a esposa do Osvaldo.


O coração de Lídia, naquele momento, disparou, e ela correu para atender o telefone, sendo informada, que o seu marido sofreu um acidente e, estava em um estado delicado, internado, desacordado, no CTI, (Centro de Terapia Intensiva).


Lídia ao receber a notícia referente ao acidente do marido, apesar da gravidade do problema, terminou a oração com a filha, avisou amigos e parentes. Logo após seguiu com Amanda para o Hospital, solicitando ao filho Joel, permanecer na residência, atendendo os telefonemas e passando as devidas informações.


Ao chegar no hospital Lídia foi informada que Osvaldo sofreu uma forte pancada na cabeça e, encontrava-se na mesa de cirurgia em um procedimento delicado.


Lídia se pôs a chorar, sem forças e, abalada abraçou a filha que, apesar da gravidade do estado de saúde do pai, mostrou-se forte e preparada.


─ Mãe, calma! Sempre a senhora ensinou-me que, nos piores momentos, devemos manter o equilíbrio e, procurar a melhor solução para a situação ─ Amanda aparentemente tranquila falou para Lídia.


Lídia escutou a filha, lentamente foi se acalmando, entrando em um estado de leveza e de confiança, mostrando muita fé.


Passados longo tempo, o médico responsável pela cirurgia de Osvaldo, entrou na sala de espera e comunicou mãe e filha que a cirurgia correu bem, mas que o estado do paciente era grave e o melhor para aquele momento era orar e esperar.


─ Senhora Lídia, pode retornar para casa e voltar amanhã no horário de visitas, daremos mais informações ─ comunicou o médico pacientemente.


Lídia, agora em um estado de profunda paz, falou para Amanda:


─ Filha o seu pai sairá do coma! Seguiremos o conselho do médico, iremos para casa e oraremos. Está nas mãos do nosso bom Deus e, aqui na terra, nas mãos dos profissionais da medicina.


Lídia chegou em sua residência e, passou as informações, para o filho Joel, familiares e amigos.


Joel, apesar da pouca idade, demonstrou um equilíbrio muito grande diante da situação, pediu calma para a mãe, falou que bem antes do acidente, já vem realizando orações para o pai.


Ainda no mesmo assunto Joel revelou para Lídia, que algumas semanas atrás iniciaram sonhos frequentes com o pai e que em um dos sonhos, constatou Osvaldo, envolvido em um acidente muito grave.


─ Mãe, continuarei orando! ─ falou Joel, encorajando Lídia.


Lídia, escutou o filho atentamente e admirada com a forma que, Joel se comportou diante de tal situação, ficou extremamente confiante e feliz pela evolução moral do filho.


“Graças a Deus! Tenho meus filhos perto de mim, Amanda com uma paz inacreditável e Joel com palavras encorajadoras, os dois me mostraram que enfrentaremos esta situação com orações e fé. Valeu muito a pena eu levar Amanda e Joel para a escola Bíblica; são dois jovens esclarecidos e iluminados.” ─ pensou Lídia.


─ Que orgulho! Filhos ─ falou Lídia em voz alta.


Lídia, familiares e amigos estão vibrando positivamente para a recuperação de Osvaldo.

Naquela mesma noite do dia do acidente, antes de dormir, Lídia ajoelhou-se e pediu em voz alta:


─ Tragam meu marido de volta!


No dia seguinte, pela manhã, Lídia levantou da cama e foi até a cozinha, onde Amanda preparava o café.

─ Filha estou muito otimista! ─ falou Lídia para a Amanda.

─ Que bom! ─ respondeu Amanda.

Lídia, contou para Amanda que teve um sonho com Osvaldo.

Falou para a filha que viu Osvaldo em um hospital espiritual, relatou que o tratamento era realizado com água fluidificada e luzes de várias cores.


─ Por isso que colocamos garrafas e copos de água em nossos evangelhos no lar! Água é um ótimo condutor de energia, o ambiente estando em um estado de grande elevação espiritual a tendência é, fluidificar o líquido, fazendo bem ao nosso organismo, remédio natural, agindo contra todos os males do corpo físico e espiritual ─ explicou Amanda com muita sabedoria para Lídia, mostrando um entendimento elevado.


─ Exatamente! ─ concordou Lídia, orgulhosa com a explicação da filha.


Olhando seriamente para a mãe, Amanda sorriu e falou com muita convicção: "Na noite passada, estava com dificuldades para dormir, quando percebi uma paz e senti a aproximação de alguém.".


Contou que teve a sensação que era a avó colocando a mão sobre a sua cabeça. Foi adormecendo lentamente e viu uma senhora toda de branco, com um invólucro iluminado que, falou que tudo ficaria bem!


No hospital material, em observação após a cirurgia, sobre efeitos de medicamentos e ajuda de aparelhos, Osvaldo vivia um sono profundo há mais de 24 horas.


No decorrer do coma, Osvaldo, despertou com alucinações e, chamou por nomes de pessoas desconhecidas.

Continua...



REVERSO DA TRISTEZA


por Simone Caetano


Seguimos com coragem, determinação e leveza a caminhada, e caminhamos com vontade de chegar ao destino. Estávamos preparadas com roupas confortáveis e calçados antiderrapantes e impermeáveis, para realizar uma trilha de média dificuldade entre montanhas, vegetação diversa e riachos que entrecortavam o caminho. Levamos pouco material nas mochilas, só o básico: água e alimentos práticos, banana, maçã e barra de fibra. Fomos adiante, cada uma ciente do seu objetivo.


No caminho ladeado pela mata Atlântica, com árvores frutíferas e flores silvestres, predominavam as cores amarela, laranja e vermelha, em meio ao verde da vegetação. Esse colorido emoldurava nossa trilha até a montanha, meta da nossa jornada. A paisagem embelezava e tornava mais alegre tudo ao redor. Além das árvores e flores, havia pássaros voando alto ou buscando sementes na vegetação e néctar das flores. Do horizonte que limita o céu azul-turquesa semelhante à vastidão do mar em dia de sol, surgia uma amplidão límpida e quase sem nuvens, contornando morros e montanhas de diversos tamanhos, com tons marrom e verde da baixa vegetação que lhes vestia. A do nosso destino era de médio tamanho, cerca de 600 m de altura.


E assim, como se o tempo não tivesse passado, caminhávamos mais em silêncio com nossos pensamentos, quase sem palavras diante de tanta beleza e liberdade, pois observar a natureza faz parar o tempo cronológico. Chegamos ao pé da montanha, eu e ela, suadas, cansadas, porém felizes; nesse momento, olhamo-nos, cúmplices do feito que estava prestes a ser realizado.


Subimos devagar, concentradas no objetivo que traçamos, e também para evitar qualquer acidente. Ao chegarmos mais ou menos no meio da montanha, onde havia uma abertura que formava uma gruta, observamos ao lado, num patamar um tanto extenso e seguro, um lago formado numa cratera em forma de caldeirão a partir dessa saliência da gruta. Era uma formação rochosa e natural da montanha contendo água cristalina e morna, aquecida pelos raios de sol do final da tarde, própria para uma imersão relaxante que nós desejávamos fazer com certa ansiedade infantil para sentir na pele a água pura e revigorante. Nossos corpos e mentes necessitavam por esse banho natural.


Eu, submissa à água gostosa e confortável, mergulhava já sem o peso das roupas suadas e molhava lentamente minha cabeça e cabelos. Lavava e dessedentava minha alma, permanecia letárgica, sem nenhum pensamento na mente, sem medo nem ansiedade, simplesmente fluida como a água que me banhava com o gosto da doce felicidade. Dentro de mim, só sentimento de gratidão pela natureza e por Vânia, que me levara a este local inusitado na montanha que só ela sabia onde ficava. A brisa do entardecer era amiga e não esfriava em demasia, fazia um clima fresco e ameno. Agradeci muito a Criação por esse banho sublime, e novamente à minha companheira de trilha pela feliz ideia de me levar nessa aventura revigorante na qual purificamos corpos e almas, e eu fiquei preenchida de vida.


No retorno da jornada, na descida da montanha, meu sentimento era de alívio e bem-estar. Vânia estava feliz por ter me proporcionado momentos de pura felicidade, por ter me ajudado a esquecer das preocupações no trabalho que poluíam minha mente, não me ajudavam em nada e nem traziam soluções, só me faziam doer à cabeça. Voltava dessa experiência sem dor, nem receios inúteis e disposta a tudo encarar com coragem e dignidade, tornando a vida mais fácil, com maior compreensão a cada momento do dia, quer seja no trabalho, no relacionamento familiar ou na minha própria essência, e assim cada dia sua alegria sem sofrimento.


Descemos em silêncio, com energia renovada, plenas, sem cansaço, fome ou sede. Ao chegar à base da montanha do lado contrário à subida, havia uma praça na vila ainda desconhecida por nós. Era toda gramada, pintada de flores, com cercas brancas e borboletas coloridas dançando ao vento. Eu e ela sentamos num banco de cor branca, ali bebemos água e nos alimentamos devagar. Vânia havia trazido uma pequena caixa de papelão amarelo com desenhos geométricos dourados, e a abrindo falou: “Você já viu essas fotos? São antigas, eram de nossa mãe”. A maioria das fotografias era em preto e branco, só algumas poucas tinham aquele colorido desbotado das fotos antigas.


“Não, onde as encontrou?”, respondi e, então, abri a caixa que ela me oferecia.

Ela respondeu: “Foi tia Celina que me entregou as fotos da última vez que foi me visitar. Estava com ela há tanto tempo que nem lembrava mais”. Uma foto em especial me chamou atenção. A imagem em preto e branco ilustrava uma praça semelhante à que a gente estava, num banco que parecia branco, onde duas moças estavam sentadas, com fisionomias alegres e despreocupadas, imagem que parecia muito com aquele momento que vivenciávamos.


No verso da fotografia, havia uma mensagem manuscrita “Pela sua bondade, a loja, e assim a sua vida, está bem administrada. Estou feliz por você”. Não havia assinatura, entreolhamo-nos surpresas e curiosas devido ao anonimato, e compreendemos, ao mesmo tempo, que se tratava de um déjà-vu reverso, ou melhor, a imagem da foto era semelhante à cena que acabávamos de experienciar. Contudo, diante de um dia excepcional, nossas almas repletas de prazer e gratidão, só conseguíamos rir muito e alto, desassossegando o silêncio ao redor.




NOSSOS COLUNISTAS


Alessandra Valle, Carlos Palmito e Luiz Primati. Depois Sidnei Capella e Simone Caetano.

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