top of page

CRIATURAS NOTÍVAGA(S) Nº 15 — 22/06/2022

Mais um conto de Carlos Palmito. Hoje o estilo está mais para melancólico do que sombrio. Leiam e comentem. Se não tiver tempo de ler, escute no Spotify.


Leia, Reflita, Comente!



https://m.media-amazon.com/

VIDA SILENCIADA


por Carlos Palmito


Esmagamento da alma, do ser, da essência que nos cria e dá a forma da nossa aparência intelectual, o físico esmoreceu, o cansaço apoderou-se e a apatia é a minha melhor amiga.


Entrada número um:

Querido amigo, faço hoje trinta anos, tenho um bolo e um olho negro, um cálice de vinho a saber a amargo e dores nas pernas.


Sinto saudades de casa, do agricultor argentino de barba farta que me fazia rir noite após noite, senhor meu pai que troquei por um taxista, partindo em busca de sonhos e ilusões.


Agora estou sentada no pórtico de casa com esta caneta azul e o caderno que estreei, a lua encontra-se cheia, já não me recordo dela de outra forma, brindo a mim mesma, sozinha, iluminada por ela e acariciada pelo vento, enquanto a grafonola grita energeticamente ‘blues’ intemporais.


Se me perguntares pelo meu marido, não te sei responder, partiu enquanto preparava o jantar, duvido estar acordada quando ele chegar; mais um aniversário sem ninguém, excetuando tu, e a criança que me pontapeia o útero.


Sei que és o único que consegue ouvir o meu silêncio, mesmo tendo-te conhecido apenas hoje, obrigado por me ouvires, doce amigo.


Agora, vou-te abandonar um pouco, tratar da loiça, e do resto da casa.

Até já!



Entrada número cinco:

Voltei hoje a visitar-te, meu nobre, a caneta desta vez é vermelha, nem sei porque te digo a cor da mesma, visto que a sentes a delinear letras, palavras, parágrafos, sentes-lhe a temperatura cromática.


É noite, estou no sofá contigo ao meu colo como se fosses o amante que não tenho, apesar do taxista acreditar que sim, que algures nesta vida de dona de casa consigo ter um amante, curiosa a palavra amante, não é?


O dinheiro não dá para muito, especialmente desde que a criança nasceu. Sim, nasceu, esqueci-me de te o contar antes, não me leves a mal, sinto a mente a quebrar-se, por vezes a memória dissipa-se e esqueço-me das coisas mais banais, como respirar.


Esta noite chove, o meu esposo encontra-se fora, talvez em busca do meu amante, ou das amantes dele, todas as cervejas e whiskeys, a vodca e batom vermelho, acredito que um dia ele seja de novo um rei, tenho fé nisso, mas nestes tempos que correm, é apenas um carrasco.

Batizaremos a criança para a semana, um menino que em tudo aparenta ser saudável, não fosse o hálito, e seria perfeito, o médico disse para não me preocupar, contudo, não consigo deixar de o fazer, sempre que abre a boca, sinto um mundo em putrefação vir do seu interior.


Serei má mãe por pensar estas coisas? Será isto aquela coisa a que chamam depressão pós-parto?


Enfim, a Aretha Franklin está a cantar harmoniosamente, vou ter que fechar o caderno por agora, tentarei vir visitar-te em breve, meu amigo que em silêncio me escuta.


Poderei dizer que te amo? Tornar-te-ás dessa forma o meu amante?



Entrada número sete:

Olá!


Já passou um mês desde o batizado que te falei, se te contar que a criança vomitou na pia batismal acreditas?


O padre ficou boquiaberto, mas recuperou rápido, eu senti-me envergonhada e o senhor taxista olhou-me como se fosse uma imbecil, de resto, tudo correu bem.


O hálito dele, Pedro, o nome pelo qual o registámos, em honra do sogro que nunca conheci, piorou, o médico que o acompanha não acha uma única razão para aquela fétida nébula que sai da sua boca, contudo, ela é quase visível.


Após uma breve discussão com o meu marido, sendo sincera não existiu discussão, tenho medo de discutir com ele, nem que sejam breves segundos de argumentação, o seu punho é pesado, onde está o meu rei?


A decisão, unânime pelo magnificente e miraculoso mete-nojo do taxista, com a abstenção da rainha que pretendia iniciar emprego num café com um nome curioso, “arco-íris grelhado”, foi, e isto pelas palavras dele:


— Continuas em casa, que eu ainda sou homem suficiente para sustentar a família.


O que é certo é que o dinheiro falta, talvez mais para a frente volte a falar no assunto, posso talvez convencê-lo com um suborno a álcool.


Lá fora continua de chuva, uma torrente de mijo angelical e raios noturnos, tenho uma tigela de sopa para comer, sinto-lhe o aroma.


Gostava de ver a Lua, meu silencioso amigo, se a vires, dá-lhe um beijo por mim.


Boa noite, vou indo, necessito de comer e ver como está o Pedro.



Entrada número onze:

Olá amor!


Sei que passou muito tempo desde o nosso último encontro, desde o beijo entre o bico desta caneta e as tuas folhas sedosas.


Faz hoje exatamente quinze anos depois que troquei a casa do meu pai pela cidade, em busca de sonhos de grandeza, fortuna, glória e amor, que hoje vejo terem sido apenas ilusões na cabeça de uma adolescente apaixonada.


Tenho saudades da simplicidade do campo, do aroma das plantações a seguir às chuvadas, do uivar dos lobos na floresta, do brilho da lua e o vento a dançar com as árvores na penumbra noturna.


Estou sentada na mesa da cozinha, iniciarei amanhã o turno na tal lanchonete, o meu marido acedeu finalmente, penso que compreendeu que o dinheiro falhava, e sem ele, não existe licor de Baco nas suas refeições.


Sinto-me corroída por tristeza, a lua brilha euforicamente no alto, gostava de ser uma estrela.

Melhores noites virão, mas hoje, mesmo com a antecipação do emprego, e de com isso conseguir escapar desta prisão que se tornou a vida de uma adolescente agora com quarenta anos, não as consigo ver.


Que mais consigo contar-te, meu amigo do silêncio noturno?

O Pedro fez dez anos ontem, convidou a escola toda para vir festejar, ninguém apareceu, nem sequer o filho do vizinho.


Não derramou uma lágrima sequer, mas vi ódio no seu olhar. Preferia ver lágrimas.

São horas de te dar um beijo de boa noite, vou desligar a luz e ficar na escuridão a ouvir um violoncelo no gira-discos.


Entrada número dezanove:

Sou uma desgraça para ti, amas-me com todo o teu silêncio, e eu em silêncio, apenas recorro a ti quando me sinto em baixo.


Faz agora cerca de cinco anos desde o meu início como garçonete num arco-íris estrambólico, era grelhado, assim diziam, sempre pensei que tivesse aromas de carnes e sucos das mesmas, mas ali, só cheira a suor, tabaco, tesão, gente frustrada que vem atirar as suas dores para nós.


Hoje tive dois arrogantes mais a sua prole de putos mal-educados, um passou o tempo todo a tentar olhar por entre as minhas pernas, o outro, um bebé de colo chorou a noite inteira, e a terceira atirava bocados de comida contra nós, as invisíveis garçonetes, para apontar e servir.

Tentei chamar a atenção aos pais, mas estes berraram comigo como se lhes tivesse arremessado a mais vil das ofensas. O patrão riu-se, e eu, bem, eu fugi para a casa-de-banho, acendi um cigarro e fiquei a contemplar o ser execrável em que me tornei no espelho.

Tive vontade de o partir e com os seus arruinados fragmentos rasgar todas as veias do meu braço. Atirei o cigarro para a sanita, não me recordo quando comecei a fumar, e voltei para a sala.


Neste momento derramo lágrimas sobre o teu silêncio, a desbotar-te a tinta que me dá voz.

Charlie Patton toca, a lua esconde-se por entre densas nuvens, tenho saudades de mim.


Até já, companheiro.



Entrada número vinte e oito:

O taxista morreu!


Cirrose, julgo eu, ou outra porcaria qualquer, uma germinação do seu caráter.


O Pedro assumiu o emprego, seguiu as passadas do pai que o adorava, ao menos adorava qualquer coisa, lembro-me dele o chamar de príncipe, a mim, apelidava-me de rameira entre um murro e outro.


Preocupa-me a forma como vejo o meu filho a olhar para as crianças de terna idade, acredito que criei um monstro.


O funeral foi debaixo de água, uma intempérie como se Deus chorasse por aquele aborto que me roubou a vida.


Não fosse pela aparência nem ia, ficava em casa a festejar, longe da vista de todas as criaturas que me observam atrás das cortinas das suas casas iluminadas por velas em honra a uma desfiguração celestial qualquer.


Não me interessam, nada interessa, ele morreu, até que enfim, adeus besta.


Quanto a ti, meu silencioso cúmplice, jamais esqueças que só a ti amo.



Entrada número trinta e sete:

Olá!


Estou alcoolizada demais para conseguir escrever muita coisa.


No trabalho senti a mão do meu seboso patrão no rabo, meteu-me nojo, não sinto um homem em mim faz tempo, mas aquele repugna-me.


Meu amigo de páginas sedosas, podes porventura tornar-te um homem e vires partilhar a cama comigo?


Son House é o ritmo desta noite, está estrelada e gelada, necessito do calor das tuas páginas na minha pele.


Mas apenas me dás silêncio.


Entrada número quarenta:

Entrou no arco-íris grelhado hoje um homem bastante estranho, tinha uma rosa-branca tatuada numa mão.


Nem sei porque te falo dele, não tenho mais para te contar, exceto que me causou desejo.

Estou carente.


De resto, foi tudo a mesma merda dia diferente.


Estou cansada, vou dormir.


Entrada número quarenta e seis:

Não sei do meu filho, desapareceu, talvez o pai de alguma das crianças desaparecidas o tenha encontrado.


Nem me darei ao trabalho de fazer pesquisa sobre o que poderá ter acontecido.

Espero que não volte.


O amigo dele esteve à porta hoje, outro asqueroso, a cidade da noite eterna está cheia destas coisas.


Ela grita comigo, mas eu grito-lhe de volta, puta escarlate arrogante cheia de cintilo e falsa aparência.


Tu és o meu único amigo, a quem em silêncio me confesso.


Tenho ali uma corda, cada vez mais a contemplo… seria talvez a forma de interromper todas as vozes que tenho na cabeça.


Apontar, servir, sorrir.


Sentir o patrão a roçar e o hálito do gaiato que desapareceu.


Entrada número cinquenta:

Vi um totem na noite, no topo dança um lobo, as laterais são pintadas por rosas negras e brancas, na parte traseira existe uma ravina e os olhos gigantes de um Deus.

Sinto-me esgotada.


Necessito de silêncio para conseguir ver o argentino.


Amo-te, caderno de uma vida miserável.



Entrada número cinquenta e quatro:

A corda continua lá, a vida está numa sintonia com o “mesma merda dia diferente” mesmo sendo apenas noite, será que pode existir dia na noite? Eu queria.



Entrada número MMDD:

Tudo igual, tanto faz a cidade como o seu material.


Vou servir mesas para sempre, desisto aqui.


Foste o amante silencioso que nunca tive, mas a quem tudo contei.




AUTOR

Carlos Palmito

38 visualizações1 comentário

Posts recentes

Ver tudo

1 Comment


Carlos Palmito
Carlos Palmito
Jun 22, 2022

Aqui estamos, apresento-vos o diário de uma personagem que inicialmente seria apenas um ser secundário, talvez até mesmo simplesmente uma figurante, mas após vários pedidos, falei um pouco mais dela. Espero que gostem.

Um abraço

Like
bottom of page