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CONTOS DE UM FUTURO DISTANTE Nº 2 — 22/02/2022

Atualizado: 24 de fev. de 2022

Alessandra Valle conta um pouco sobre o universo das pessoas desaparecidas e a sua busca incessante por vidas. Arléte Creazzo nos traz a segunda e última parte de seu conto de Natal. Diretamente de Portugal, Carlos Palmito arrisca-se no estilo erótico, desejando que não se tornasse ousado demais e conseguiu. Sidnei Capella nos ensina a bondade através de um conto simples, singelo e direto.

Leia, Reflita, Comente!


Imagem: https://www.wallpaperflare.com/


O PLANTÃO SEM FIM


por Alessandra Valle


Aquele dia amanheceu diferente, o céu e o chão da cidade estavam marrons.


Ao olhar mais atento percebi que a tonalidade fora dada pela lama que encobriu a cidade.


A intensidade da chuva fora tão forte no final da tarde do dia anterior que as nascentes dos rios encheram, provocando alagamento de rios, ruas e muita água desceu pelas encostas dos morros.


Por consequência, houve deslizamento de encostas e casas foram soterradas.


Carros, ônibus, vans foram arrastados pela força da enxurrada.


Antes, fossem apenas os bens materiais que perecessem, entretanto, vidas, famílias inteiras se perderam.


O plantão na "Desaparecidos" não seria mais o mesmo depois dessa tragédia.


A expertise e a solidariedade são a base desta delegacia especializada em desaparecimento de pessoas.


Rapidamente, nos mobilizamos e nos oferecemos para organizar o cadastro das vítimas desaparecidas.


Fomos aos abrigos improvisados pela prefeitura da cidade marrom e tivemos contato direto com toda a angústia que o desaparecimento de uma pessoa provoca, contudo, aumentado por quase duzentos por cento, pois esse era o número estimado de desaparecidos.


Parei por um minuto a olhar a encosta que deslizou e sabendo que vidas foram ceifadas e seus corpos ainda estavam ali, com difícil acesso, eu engoli seco e uma dor no peito me tocou.


Pensei que já tinha vivido de tudo nesses mais de 12 anos no enfrentamento e prevenção ao desaparecimento de pessoas, mas nada foi igual.


O sentimento de compaixão e o dever de agir para minimizar a angústia daquelas pessoas são o combustível para seguir e me manter firme na função de policial civil.


Os cadastros nos locais iniciaram, tantas famílias separadas pela dor se amontoaram em volta de nós.


Ali, eu não precisava de arma, nem distintivo, apenas papel, caneta e uma escuta amorosa, porém pontual para conseguirmos o maior número de dados pessoais dos desaparecidos.


Aquele plantão ainda não teve fim e está sem previsão para acabar.



O CONTADOR DE HISTÓRIAS


por Carlos Palmito


Uma da manhã, nos céus uma lua cheia iluminava a vastidão cândida do areal numa praia escondida nos confins da memória, acompanhada por miríadas de pontos luminosos… constelações em constante mutação.

Uma cavidade irradiava um brilho alaranjado, era cálida a areia naquele local, cheirava a pinheiro que ardia lentamente na fogueira, entre os característicos estalos de madeira a abrasar, e se mesclava com o aroma salgado do mar…

Junto à linha dessa imensidão aquosa, naquele exato ponto onde as ondas findam e iniciam o seu retorno para as profundezas do oceano estavam duas pessoas deitadas, a contemplar a magnitude do universo.

— Quantas civilizações achas que estão lá em cima neste momento? — perguntou-lhe ele, com a voz rouca enquanto dava um último bafo no cigarro, e enfiava a beata dentro da garrafa de vinho vazia.

Ela piscou os olhos, como se não tivesse entendido a pergunta, e desviou-os para ele, para a sua face impecavelmente barbeada, “porque o teria feito, ele que sempre andava com ela descurada, hoje decidiu livrar-se dos pelos faciais” sorriu, colocou-lhe o indicador sobre os lábios em pedido de silêncio.

— Não sei, e acho que nem vou querer saber — retorquiu-lhe, ainda com o sorriso na cara, um sorriso de iluminar até o mais vil dos reis de outrora.

Nesse instante ele deu-lhe uma mordiscadela na ponta do dedo, um pouco acima das unhas pintadas a roxo, que ela desviou de imediato, numa falsa indignação, dando um gritinho teatralizado.

— Mas é uma questão de vida ou morte para a humanidade ter o conhecimento sobre estas coisas, não sabias? Podemos ser invadidos por Extraterrestres, como o ET do Spielberg, e depois, como nos conseguimos defender deles?

O riso estridente que dela ecoou na noite, derivado à piada dele, juntou-se à musicalidade notívaga. Algumas gaivotas que tentavam adormecer ali próximas levantaram voo a chilrear revoltadamente; teriam que encontrar outra pensão para descansar, quiçá num dos muitos pinheiros que bem perto se erguiam majestosamente.

— Não sejas parvo! — conseguiu pronunciar ainda entre os soluços do riso.

— Não estou a ser, isto é conversa séria, rapariga! — replicou ele, numa falsa entoação de aborrecimento.

— Porque tens que ser tão parvinho? — voltou ela. Notando o olhar dele desviar-se para a garrafa de vinho, replicou: — Nem penses em fazer uma piada sobre vinho agora.

A rapariga de longos cabelos castanhos, em cachos abundantemente pronunciados devido ao sal do mar, apoiou-se sobre o cotovelo, com os dedos da mão direita percorreu-lhe o peito até ao abdómen, onde a deixou repousar, fixando as avelãs dos seus olhos, na madeira acastanhada dos dele.

Ele deliciou-se com o toque, o calcorrear nas estradas do seu corpo pelos dedos dela, sentiu um calafrio percorrer-lhe a pele, iniciando na ponta dos seus enormes cabelos, da exata cor dos olhos, também estes em canudos, até às unhas dos pés, não de frio, mas de desejo… se existia alguma fantasia que ele tinha, ela era a protagonista principal.

— Tu sabes que eu te adoro, não sabes? — perguntou-lhe ela no fundo dos seus olhos, quase como se perguntando à alma. — Adoro ler as tuas histórias, e desde que te ouvi declamar, adoro ouvir-te contar histórias, mas diz-me, o que vais querer hoje? Vais contar histórias, ou vivê-las?

Ele ia para responder, mas não teve tempo, os aveludados lábios dela uniram-se aos seus, matando nesse gesto qualquer palavra que tentasse vir a pronunciar.

A mão que repousava no seu abdómen subiu o corpo até ao rosto, acariciando-o com uma delicadeza incomensurável.

Deu-lhe uma trinca no carnudo lábio inferior com uma maior pressão, força; ele sentiu dor transformar-se em prazer, e desuniu nesse ato o beijo.

Tentou sentar-se, seguir a boca dela, a qual por tanto tempo vinha a desejar, mas foi empurrado de volta à areia molhada, obrigado a permanecer deitado.

— E então, já sabes o que vais querer? — perguntou-lhe de novo, enquanto removia a parte de cima do bikini verde e o atirava despreocupadamente para o oceano… Poseidon haveria de o levar, e brindar uma das suas amantes com ele. — Vais ser o protagonista, ou o contador?

Ele nada conseguiu enunciar, ficou simplesmente a maravilhar-se com a sua majestosa figura, e como era bela, os cabelos a ondular sob a leve brisa, a pele bronzeada, com exceção dos seios, aí era branca imaculada, de uma pureza inenarrável, os mamilos rosados em conjunto com a aréola, nem nas suas mais enriquecidas descrições conseguiria relatar com perfeição o que os seus olhos contemplavam.

Ela passou a perna sobre ele, e sentou-se no colo do seu contador de histórias, debruçou-se e começou de forma vagarosa e provocadora a percorrer com os seios o caminho que poucos minutos atrás tinham sido palmilhados pelos seus dedos. Sentiu a tesão dele aumentar por baixo dos calções azuis, e a dela própria aumentar, sentia desejo, estava encharcada no vislumbre de querer, de o querer; estava húmida como há muito tempo não ficava.

Beijou-lhe o pescoço prolongadamente, não resistindo a um lamber de pele, deliciando-se com o sabor do sal marinho, e da pele do seu companheiro… subiu em direção ao ouvido, trincou-lhe o lóbulo e murmurou, com um ardor e desejo ferventes na voz:

— Quem és tu hoje? Um lobo ou um cordeiro?


Gemeu ele, foi intenso o que sentiu no sussurro, na temperatura das palavras e do ar que as transportou, sabia o que queria, desejava-a, desejava-a mais que alguma vez tinha desejado alguém, mais do que se desejava a si próprio.

Rebolou na areia, invertendo as posições, ela soltou um gritinho surpresa, vendo-se ficar por baixo dele, mas não em desagrado.

Ficou então agora ele em cima; olhava-a com anseio, tinha sede do seu corpo, e fome da sua alma, poderia nesse momento responder à pergunta dela com um uivar à nobreza da lua, mas não o fez, simplesmente sorriu, e ficou a vê-la ali, um quadro perfeito que queria guardar na memória, iluminado pelo prateado do luar.

Ela abraçou-o, e puxou-o para mais perto, as línguas uniram-se num novo beijo, as salivas que se misturavam como num casamento real, entre desejo e tesão, ele passou-lhe uma mão pela nuca, envolvendo o cabelo dela entre os dedos, e puxando-a mais para si, enquanto ela cravava as unhas nas costas dele, isso num delongado beijo humedecido pelos aveludados lábios.

Libertou-lhe a nuca, e começou a percorrer de forma suave, quase impercetível, o corpo dela, cada montanha e vale daquele mundo, beijando também partes dele, não todo, queria dar surpresa ao momento; beijou-lhe o pescoço enquanto os dedos desciam os contornos das costelas, e ela estava deitada ao luar… dois semideuses nas praias da eternidade… beijou-lhe a base dos seios, e os dedos passaram pelo umbigo, sentiu-lhe a pele arrepiada, ouvia os pequenos gemidos, quase inaudíveis, e contemplava o peito subir e descer com a respiração ofegante.

As mãos dele pararam nas ancas, junto ao início da parte de baixo do bikini que ela ainda tinha vestido, percorreu com a língua o caminho desde a base dos seios até à fronteira delimitada pela tanga, e voltou a subir, os dedos sempre tenuemente, como se fossem apenas brisa, fantasmas que nos arrepiam ao passar por nós, e os lábios a perseguirem-nos… desta feita beijou-lhe as costelas, e desviou caminho até ao mamilo esquerdo, deu-lhe uma trinca suave… sentiu-o endurecer-se ante os seus lábios e saliva, e sentiu no mesmo instante o estremecer do corpo dela, o gemido agora bem mais audível… prazer, não dor. Subiu até ao pescoço, que lambeu e sugou, um chupão que esperava não ficar marcado.

Levantou os olhos e contemplou-a de novo, tinha os olhos fechados, e deslumbramento na expressão facial, iniciou de novo a percurso até ao bikini, mais ousadamente desta vez… uma das mãos foi mais alem, passou sobre o bikini, tocando-a e massajando-a aí, enquanto a língua envolvia e brincava com os mamilos à vez, ora o esquerdo, ora o direito, sentindo a humidade do desejo dela escondida ainda para lá daquele pedaço de tecido entre as pernas.


E então desistiu dos cândidos seios, foi para baixo calcorreando o percurso com a língua, puxou-lhe a tanga e atirou-a para trás, mais uma oferenda ao deus dos oceanos; ela abriu as pernas em aceitação, e o que antes ele massajava com os dedos, agora fazia-o com a língua, dando pequenos chupões de quando a quando ao clitóris, inebriando-se com o sabor e odor dos fluídos que dela transbordavam. As mãos, essas subiram, uma focou-se no seio esquerdo, beliscando e acariciando o mamilo, junto ao coração da rapariga que tinha mais mil, enquanto a outra foi em direção à face dela, que acarinhou… ela ia-lhe mordiscando o polegar entre gemidos, enquanto ele a pouco e pouco aumentava o ritmo da língua habituada a contar histórias.

Um gemido mais alto que os outros, ecoou na noite, apertou-lhe a cabeça com as coxas, e colocou as mãos sobre ela, puxando-o para cima; sorria deleitada, arquejava e suspirava, toda a sua expressividade corporal era prazer puro, um orgasmo tinha nascido e morrido em honra à deusa Afrodite, os olhos castanhos brilhavam mais intensamente que as estrelas que ele tanto amava.

Ela puxou-o de novo para si, mais um cálido beijo nas brumas de uma noite de verão, as línguas já se conheciam, e sabiam de cor o que fazer, abraçavam-se, tal como os corpos… envolveu-lhe então ela os cabelos, e rebolou na areia; voltara à posição inicial, ela por cima… contemplou-o apreciando cada detalhe do seu corpo, e com as unhas pintadas a roxo começou a percorrer o corpo dele, até aos calções, que tirou e atirou para os confins do universo, ou pelo menos para trás de si… beijou-lhe o torço e desceu, foi descendo, até ao abdómen inferior… as mãos dela massajavam-lhe o membro, que neste momento parecia rocha criada em tesão, beijou-o lá, acariciou e sorveu, neste momento os gemidos eram os dele, as persianas da alma fechadas eram as dele…


Parou ela então, subiu com novos beijos em locais ocultos da totalidade do ser do seu contador de histórias, colaram-se uma vez mais os lábios, e ela sentou-se nele, friccionando a sua vulva sobre o falo daquele ser que ela em segredo sempre desejara, nesta noite não se contavam histórias… fazia-se história.

O desejo e tesão nele aumentavam, tal como nela, sentia-o na humidade entre as suas coxas, mas ainda não era o ato final, antes ela queria levá-lo ao exponente máximo da loucura, marcar-lhe o nome na memória, e obriga-lo a gritar por ela, neste momento friccionava, balançando os seios junto ao rosto dele, roçando-o de leve com eles.

Gemeu mais alto então o contador, mal se conseguia segurar, se ela aumentasse o ritmo não sabia se conseguiria controlar-se.


Mas ela abrandou, sabia que tinha que o fazer, o exponente estava alcançado, via-o na fisionomia dele, abrandou até quase estagnar, e então, permitiu que ele entrasse em si, sentiu o seu membro adentrar por ela, sem dificuldade alguma, de tão húmida que estava, e tão ereto que ele estava.


Nesse instante ele sentia-se no paraíso, sentiu o quente e húmido do desejo dela quando a penetrou, deixou-a controlar a velocidade, era ela a dominadora, rainha e deusa nesta noite de desejos e tesões, abriu os olhos e vislumbrou a sua vasta cabeleira iluminada a prata pelo luar, qual divindade de eras remotas, viu-lhe os seios que beijou e acariciou com a língua, apoiando-se com uma mão no tronco dela, e a outra nas nádegas, enquanto ela controlava o compasso com as ancas, o vai vem que ia aumentando velocidade ao ritmo dos gemidos… até que o orgasmo veio, ambos quase no mesmo instante, nenhum falso ou falseado.


Ela sentiu o quente da ejaculação do seu contador de histórias… hoje a história foi outra, contada numa língua universal… invadir as suas próprias profundezas, sentindo no mesmo momento o seu corpo como que sendo atravessado por uma corrente elétrica, retesou todos os músculos em gozo.

Deixou-se cair sobre ele, ofegante do esforço e prazer, se o plano existencial em que o planeta vive se esmoronasse naquele instante, não lhe faria diferença, tudo o que lhe interessava estava debaixo dela.

Ficou ali, com ele ainda dentro de si, a sentir o vento acariciar-lhe a derme, e as mãos dele afagarem-lhe o cabelo, sentia-se a pairar sobre nuvens.

Quase uma hora após, ela saiu do abraço, levantou-se e pediu-lhe a mão, ajudando-o a levantar-se.

— Anda, meu contista — apontou para o mar. — Vamos dar um mergulho, a água parece deliciosa.

Ele anuiu com a cabeça, sorriu, e ambos correram em direção a Poseidon; um mergulho notívago num oceano magicamente iluminado pelo luar.


O fundo cintilava, como diamantes expostos em montras sobre panos de veludo negros, e as sombras tornavam aquele pedaço de mundo transcendente.

Abraçaram-se, beijaram-se, tocaram-se, riram e nadaram, tornaram-se unos nos reinos de um Deus esquecido, foram felizes naquele mundo que no momento apenas a eles pertencia.

Se contos de fadas existiam eles estavam a viver um.

Ao saírem ela saltou-lhe para as cavalitas, passou de contador de histórias para potro da realeza.


Transportou-a a trote até junto da fogueira, deitando-a na toalha; hoje os sonhos foram reais, e a imaginação jamais superaria o momento.

Deitou-se a seu lado, ambos aquecidos pelas chamas com aroma a pinheiro, fitaram-se um ao outro nos olhos… o abismo de entrada para as almas… poderiam professar palavras e juras de amor eterno, mas optaram por nada dizer, contemplaram-se simplesmente, enquanto nos céus uma estrela morria, deixando atrás de si uma lágrima esboçada a ouro na escuridão do firmamento.

Era tarde e eles sabiam-no, mas não se importavam, não existia um querer voltar para casa. Esta noite dormiriam ali, nus na maré dos tempos, sob um manto de estrelas, acompanhados pelo olhar atento de uma rainha prateada, embalados na melodia harmoniosa das vagas a se desenrolarem no areal branco… perdidos no êxtase do corpo um do outro, e não debaixo dos lençóis.


— Conta-me uma história de embalar.


Debruçou-se sobre ela, beijou-a na testa, olhou para cima em reflexão e sorriu.


— Quantas civilizações achas que estão lá em cima? — perguntou-lhe.


Ela riu com prazer.

— Parvo.




UM NATAL ABENÇOADO

Parte 2

por Arléte Creazzo

Então foi levado a uma sala para retirar tudo o que havia com ele, inclusive roupas. Nada poderia ser levado para a sala de internação.


A sacola, com todos os seus pertences, foi entregue a Dona Carolina, que recebeu a informação de que, enquanto ele estivesse internado, ninguém da família poderia vê-lo.


— Mas como receberei informações sobre ele? – indagou Dona Carolina, que se sentiu sem chão naquele momento.


— O hospital ligará diariamente para dar-lhe informações, e ele estando bem, poderemos fazer uma chamada de vídeo.


Sem ter mais o que fazer Dona Carolina foi para casa dar a notícia à família.

Ninguém conseguia esconder a preocupação.


Como a insuficiência respiratória não era aguda, todos pensaram que sairia em dois ou três dias.


Passaram-se quatro dias e ele permanecia no hospital. Diariamente a família recebia um telefonema explicando que ele estava bem, reagindo ao tratamento, mas ainda com falta de ar.


No quarto dia receberam a vídeo chamada e puderam vê-lo.


Tinha dificuldade em falar, pois estava com o respiradouro, mas parecia bem. Ele dizia que a saudade era grande.


Camila saiu do alcance do vídeo, pois começou a chorar e não queria que seu pai a visse.


Alice não entendia bem o que acontecia, mas morria de saudades de seu avô. Dona Carolina se mantinha otimista, pois a fé a sustentava.


Mais dois dias se passaram, e o Sr. Paulo ainda no hospital.


No sétimo dia, outra ligação de vídeo. Ele ainda estava com o aparelho, tinha muita dificuldade em falar, parecendo estar extremamente cansado.


A família começava a se afligir, pois, haviam acreditado que ele sairia em dois ou três dias, o que não aconteceu.


No dia 23 de dezembro, ligaram para Dona Carolina pedindo que ela fosse até o hospital.


Camila a acompanhou.


Receosas, chegaram ao hospital sendo encaminhadas ao setor responsável para orientação da família.


Foi dito que o Sr. Paulo sairia do hospital em alguns dias, mas precisaria ainda do aparelho, pois sua respiração era instável.


Teriam que aguardar a entrega do tubo de oxigênio e só depois Paulo seria liberado. Isso poderia levar alguns dias, até mesmo semanas, já que a demanda para os aparelhos era grande.


Foram embora para casa, felizes por ele poder sair do hospital, mas provavelmente seria só no próximo ano, já que estavam no final de dezembro.

A casa toda enfeitada não condizia com o espírito natalino da família, mas Dona Carolina, uma mulher cheia de fé, tratou logo de animá-los; afinal Paulo estaria com eles em breve.


Também mantiveram a ideia das comemorações, por conta da pequena Alice.

Chegou a véspera do Natal.


Logo cedo Dona Carolina saiu para comprar algo para preparar o jantar. Seria simples, mas com comidas que provavelmente o Sr. Paulo organizaria para a ceia, afinal ele sempre era o chef dos eventos.


Para a família era muito estranho ele não estar ali, mas como a previsão da saída era para alguns dias, já estavam mais aliviados, mesmo sabendo que teriam que ter cuidado com ele, pois teria que continuar utilizando o oxigênio e isso os preocupava.


Todos compraram presentes para Alice, e alguns outros foram comprados para troca de presentes na família. Inclusive um chinelo novo para Paulo, já que teria que ficar bem confortável em casa.


Chegou a noite, comidas prontas, presentes embaixo da árvore. A pequena Alice olhando cada pacote, tentando adivinhar quais seriam os seus.


Como não havia muito ânimo para jogos e brincadeiras – que faziam para aguardar a meia-noite para abertura dos presentes - resolveram abrir os pacotes antes do horário.


A pequena Alice se deliciava a cada pacote aberto, até que viu um pacote todo decorado com papais-noéis – esse é dele, esse é dele – gritou ela se enfiando embaixo da árvore. No pacote um bilhete que dizia: “Como você se comportou, deixo aqui meu presente para você, assinado Noel”.


Nisso, todos já estavam com seus pacotes abertos, mas um havia ficado embaixo da árvore.


— Todos pudemos abrir nossos presentes – disse Alice olhando para o pacote. — Mas o vovô não está aqui para receber o dele. Como podemos dar um presente a ele nesta noite?


— Podemos rezar por ele – disse Dona Carolina. — A oração é o melhor presente que se pode dar a alguém. Você reza comigo?


Já havia um tempo que Carolina havia desistido de chamar os filhos a rezarem, já que não tinham a mesma convicção que seus pais.


Ajoelhando-se diante do presépio com Alice, Dona Carolina ao iniciar a oração, viu seus filhos e Raquel ajoelharem-se ao seu lado.


A alegria invadiu seu coração, e pensou que não poderia ter tido presente melhor neste Natal.


Então rezaram agradecendo o bom ano que tiveram, pois, apesar de o pai ter ficado hospitalizado, sabiam que voltaria para casa, mesmo tendo algumas restrições.


Todos se sentiam abençoados naquele momento.


O som de fogos de artifícios anunciava a meia-noite. Todos se desejaram um Feliz Natal e foram dormir.


Na manhã seguinte, Pedro, Raquel e Alice ainda dormiam. Camila e Dona Carolina organizavam a desordem do dia anterior.


De repente o telefone tocou. As duas se olharam com indignação.


Camila atendeu e era do hospital. Ela mal conseguiu falar.


Dona Carolina percebendo o mal-estar da filha, pegou o telefone de suas mãos.


— Pronto, aqui é Carolina, esposa de Paulo – disse com a voz levemente embargada, sem entender o que acontecia.


— Dona Carolina, a senhora pode vir buscar seu marido hoje. Ele já está em alta.


— Mas o oxigênio não chegou! Como farei? – respondeu Carolina em um misto de alegria e dúvida.


— Ele não precisará – respondeu a voz do outro lado da chamada.


— Já estou indo – disse Carolina desligando apressadamente o telefone.


— Avise seu irmão, seu pai está voltando para casa.


Carolina chegou no hospital e ficou aguardando na antessala do setor onde Paulo se encontrava. Ao abrir a porta, quando os dois se olharam, imediatamente se abraçaram e puseram-se a chorar compulsivamente. Um misto de ansiedade e alívio os invadiu.


— Vamos para casa – disse Carolina.


Ao chegarem, mais choro, agora com mais envolvidos.


A volta do Sr. Paulo ao lar no dia de Natal, era o milagre da família. Nunca haviam comemorado o Natal separados, e não seria este ano.


Alice correu para a árvore-de-natal, pegou o pacote destinado a seu avô e o entregou.


Olhando para sua avó disse:


— Podíamos comemora o Natal hoje, assim como foi ontem.


Seu pai, que estava próximo, olhou para ela respondendo – mas já abrimos todos os presentes ontem Alice.


— Não papai, não é isso, nós poderíamos rezar juntos como ontem, e hoje seria realmente todos juntos, com vovô aqui.


A pequena Alice entendia perfeitamente o que era o verdadeiro Espírito do Natal e Dona Carolina, que na noite anterior pensou que não teria presente melhor, percebeu estar errada.



SER BOM SIM, BOBO NÃO!


por Sidnei Capella


Na rotina diária de José e João, dois amigos, no trajeto para o trabalho, José sempre está pronto para saudar as pessoas que encontra pelo caminho e ao embarcar no ônibus, deixa todos subirem na frente e depois embarca na condução.


João em um dia fala para o José:


— José tenho um assunto a dizer:


— Ser bom sim, bobo não! Você é bom com as pessoas, tem gente que nem te agradece, então José não seja Bobo.


José se, pôs, a pensar:


— Ser bom sim, bobo não! O que João quis dizer?


José chega a uma conclusão e fala para o João:


— João, todos que são bons são vistos como bobos nos olhares maldosos, então João eu te aconselho em ser bom e se precisar passar por bobo para fazer o bem, então passe, tenho certeza que você será feliz e de bem com a vida.


João escutando o seu amigo se pôs a pensar:


— José tem razão, ele vive de bem com a vida.


João assimila muito bem os ensinamentos do seu amigo José e fala:


— José, vou prestar mais atenção nas minhas atitudes e pensamentos e tentarei ser uma pessoa melhor com o mundo e com todos, se alguém me chamar de bobo, não darei importância, seguirei o seu conselho, obrigado José.


A realidade é que as pessoas invejam a bondade alheia.




NOSSOS COLUNISTAS


Carlos Palmito, Alessandra Valle, Sidnei Capella e Arléte Creazzo.

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24 Comments


Joana Cruz
Joana Cruz
Mar 01, 2022

Que contos maravilhosos, estava bastante receosa do fim do conto de Natal mas foi perfeito, desafiante mas feliz e cheio de fé. Adorei as reflexões, o romance a dose de realidade de cada texto❤️

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jusejuca.ps1502
jusejuca.ps1502
Feb 25, 2022

Parabéns a Valletbooks por sua disponibilidade em oferecer espaço para que possamos fazer ótimas reflexões.


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jusejuca.ps1502
jusejuca.ps1502
Feb 25, 2022

Sidnei Capella!

Uma narrativa curtíssima! Mas a refletir conflitos cotidianos, importantes... Nos fazendo, muitas vezes, pensar nas relações mais próximas... Que em muitos momentos nos passam desapercebidos. Parabéns!

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jusejuca.ps1502
jusejuca.ps1502
Feb 25, 2022

Arlete

Arlete trabalha tão bem com a expectativa em sua narrativa, num texto universal, uma história vivida por tantos nos últimos tempos... Relatada com mestria, que nos prende do inicio ao fim. Uma história que nos prende a reflexões sem fim... E o questionar, o que será do seu personagem. Quantos vivenciaram isso? Parabéns!

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jusejuca.ps1502
jusejuca.ps1502
Feb 25, 2022

Carlos Palmito

Esse consegue com seu conto um trabalho fino, de linguagem elegante, metáforas inteligentes, bem como, uma sutileza que leva beleza, só conferida aos escritores com dom nato. Um belo artístico em cada parágrafo escrito. Parabéns!

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