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CONTOS DE UM FUTURO DISTANTE Nº 22 — 12/07/2022

Eu, Luiz Primati, trago a última parte de um conto de 2018, publicado inicialmente no Facebook em partes e depois entrou para o livro: "Velhas Histórias Urbanas" que foi baseado num fato. O nome do conto é "Sombra e Escuridão".


Esse caderno tem a intenção de divertir os nossos leitores que, sempre acabam tirando algum ensinamento para suas vidas.

Leia, Reflita, Comente!

Fotos reais de Sombra ao ser abatido. (fonte: internet)




SOMBRA E ESCURIDÃO


por Luiz Primati

IG: @luizprimati

CAPÍTULO III FINAL


No dia seguinte muitos trabalhadores estavam com medo e pensavam em ir embora, mas John os convenceu a ficarem. Reforçariam a segurança. Fariam mais armadilhas. Ganhariam até um extra no salário ao término da obra; mesmo assim alguns partiram com medo de serem devorados. A maioria aceitou continuar.


Porém, de nada adiantou. Os trabalhadores continuaram sendo devorados dia após dia. Em seis meses eram mais de uma centena de trabalhadores dilacerados pelos dois leões e nada os fazia parar.


— George, Tenente John se apresentando.


— Sem formalidades Tenente. Precisamos de uma solução definitiva — disse George em tom de desespero. Elisabeth, sentada numa das pontas da mesa cumprimentou John com a cabeça.


— Eu entendo a situação George. Estou fazendo o que posso…


— Então faça mais — falou Elisabeth em tom de irritação.


John limitou-se a abaixar a cabeça e ouvir. Sabia vir um longo sermão pela frente.


— Quando você chegou aqui com sua fama de disciplinador, pensamos que não teríamos com o que nos preocupar. Mero engano. Foi aí que nossas preocupações começaram — disse George.


— Desculpe contestá-lo senhor, mas não fui contratado para proteger os homens dos predadores — defendeu-se John.


— Correto! Mas foi contratado para que a ponte fosse construída no tempo esperado e isso não está acontecendo. — John ameaçou falar, mas George o interrompeu.


— Se para manter o projeto no prazo você precisar passar noites em claro, vai ter que passar. Se tiver que caçar esses leões, vá atrás e mate-os. A ponte deve ser terminada no prazo correto. Dessa maneira não conseguiremos cumprir o cronograma.


— Mas George, sei que estamos tendo baixas e os homens sempre estão sendo substituídos. Conseguiremos cumprir.


— Mas a que custo? As indenizações para as famílias estão levando a companhia à falência. Essa ponte já está completamente fora do orçamento — elucidou Elisabeth.


— E tem mais… A partir de amanhã estamos com a obra paralisada — disse George num misto de tristeza e agonia.


— Mas por quê? Podemos continuar.


— Por quê? Porque não temos mais mão de obra. Os homens se foram. Babu me comunicou essa tarde que houve uma debandada geral. Sobraram pouco mais de 20 homens. O que acha que vai construir com apenas 20 homens? — falou George em tom irônico.


— E o que quer que eu faça? Estou sendo dispensado? — perguntou John confuso.


— Não está sendo dispensado. Queremos que mate esses leões. Concentre seus esforços nessa missão. Somente depois disso é que contrataremos mais trabalhadores para terminar o projeto.


— Entendido George. Planejarei agora mesmo com os homens que sobraram os nossos próximos passos. Vou trazer a cabeça desses animais a qualquer custo — falou John em tom heroico.


— Assim esperamos — disse Elisabeth friamente.


John pediu licença e saiu da tenda. Reuniu os homens e planejou a captura de Sombra e Escuridão. Sua reputação estava em jogo e esses leões não se safariam dessa vez.


* * *


John começou o dia com os trabalhadores que sobraram fazendo várias armadilhas em torno do acampamento. Como sobraram poucos homens, John resolveu reuni-los no meio do acampamento, porém, manteve as outras tendas e barracas armadas como se tivessem homens dormindo nelas. Em algumas fizeram armadilhas. John imaginou que os leões iriam atacar primeiramente as barracas mais próximas a cerca. No centro eles ficariam armados à espreita, esperando pelos leões.


Foi realizada uma expedição em torno do acampamento. Foram andando em círculos, aumentando o perímetro aos poucos. John queria achar o esconderijo de Sombra e Escuridão.


Nos 3 primeiros dias varreram uma área bem grande e nada dos leões. Nenhum rastro. Também não houve ataques nesses dias. Até que no quarto dia, durante a madrugada, John percebeu algum movimento próximo a uma das barracas. Não pensou duas vezes e disparou seu rifle em direção dos leões. Não os acertou, mas isso os afugentou. Já era uma vitória. Conseguiu perceber a presença dos leões.


No dia seguinte foi olhar o local onde atirara nos leões e nada de sangue. Isso era sinal de que não os acertara. Continuaram o plano. Aumentaram as armadilhas e tudo se repetia. Os leões entravam no acampamento durante a noite, se esgueirando das armadilhas. Os trabalhadores atiravam ao menor barulho percebido. E lá se iam os leões fugindo.


Para aguentarem o turno de vigília noturno, dormiam durante o dia. Sabiam que os leões só apareciam durante a noite. E foi no dia 9 de dezembro de 1898 que Sombra ou Escuridão, surgiram do nada, pulando sobre um dos homens. John logo atirou no leão. Um urro congelante foi ouvido e o animal ainda teve tempo de fugir. John saiu atrás no animal atirando. Saiu do perímetro seguro atrás do leão e a poucos metros da cerca, finalmente matou um dos leões atirando em sua cabeça. Para ele era o início do fim das barbáries causadas por Sombra e Escuridão.


— Homens, venham me ajudar aqui — gritou John.


Escuridão devia ter fugido. Por mais valente que fosse não se arriscaria a tentar algo depois que Sombra fora morto.


John ficou espantado com o tamanho do leão. Era muito grande. Pediu para que seus homens carregassem o leão para o acampamento. Apesar de a tentativa de levantarem o animal, parecia que Sombra não saia um centímetro do chão. Foi preciso de 8 homens para carregá-lo. Chegando no acampamento John mediu o animal e cravou incríveis 2,95 m. Jamais imaginara que pudesse existir um leão com aquela dimensão. Pessoalmente era assustador demais.


— Amanhã será o seu dia, Escuridão. Você não perde por esperar — falou John consigo mesmo enquanto apoiava sua bota na cabeça de Sombra.


O homem atacado ficou ferido, mas iria sobreviver.


* * *


Os nativos ficaram sabendo do feito de John. Cogitavam voltar. A maioria tinha medo. Escuridão ainda estava à solta. John tinha certeza de que seria mais fácil matar Escuridão. Estava enfraquecido sem o seu companheiro. Animais são como seres-humanos: melhor em bando do que sozinhos.


Na manhã seguinte, sob a luz do sol, os homens puderam ter a dimensão de Sombra. Entenderam que não era um espírito maligno, era a própria encarnação do demônio. Não poderia ser obra de Deus criar um animal tão assustador.


John reuniu 10 de seus melhores homens. Sairiam à caça de Escuridão. Os outros cuidariam do homem ferido e vigiariam o acampamento. Sentia-se confiante para encontrar o leão e acabar com sua vida. Era questão de honra.


Incansavelmente vasculharam cada centímetro ao redor do acampamento. Nada encontravam. Parecia que aquele leão desaparecia como que por encanto. John se frustrava a cada dia. Um dos homens chegou a cogitar que Escuridão devia ter fugido de medo.


— O que acha Babu? É possível que Escuridão tenha fugido? — questionou John.


— Tenente, esses animais não temem os humanos. Ele pode ter sido atingido também naquela noite e está ferido por aí, se recuperando. Aparecerá a qualquer momento.


— Tem razão Babu. Se eu fosse esse leão e tivesse um companheiro morto, iria querer vingança.


John e os homens não desistiam. Diariamente saiam em busca do leão. Os dias foram se passando, chegou o natal e nada. John pensava em passar o natal com a família. Desistiu. Ficou, em solidariedade aos homens. Pensava que se fosse embora para o natal, poderia haver uma dispersão. Ficou para unir forças com seus homens. Comemoraram a data ali mesmo no acampamento. Os nativos, que não tinham esse costume de comemorar o natal, para agradar a John, fizeram várias comidas típicas. Tiveram um banquete e tanto. John sempre alerta. Sabia que o cheiro do banquete poderia atrair Escuridão para o acampamento. Vigilância constante. Essa era a ordem.


O natal se foi, os dias se passaram e nada ainda. Os homens tinham cada vez mais certeza de que Escuridão fugira. John insistia na busca. E foi no vigésimo dia após a morte de Sombra que se deparariam com Escuridão.


* * *


Quando John saiu com seus homens naquele dia, sentiu o medo esmagando suas vísceras. Nunca sentira aquilo. Sabia que seria um dia terrível e por um instante o medo tomou conta de seu ser. Pensou em ficar em sua tenda e não ir atrás de Escuridão. Mas isso tudo passou em alguns minutos. Respirou fundo, pegou seus rifles e saiu com seus homens. Já fazia 20 dias desde que tinha alvejado e eliminado Sombra. Essa sensação de medo iminente só podia significar uma coisa: Escuridão estava por perto.


Já passava das 2 da tarde quando os homens perceberam algo estranho num arbusto. Os homens engatilharam seus rifles e ficaram à espreita. Num segundo Escuridão estava em cima de um dos homens. Ninguém sabe de onde ele surgira. O homem gritou enquanto o leão estraçalhava seu corpo. John, mesmo apavorado, disparou no leão. Escuridão se esqueceu do homem que dilacerava e voltou seus olhos para John. Escuridão o fitava com ódio. John jamais sentira um olhar tão intimidador. Era um ódio penetrante que fazia seu coração acelerar. A adrenalina corria em suas veias. Escuridão pareceu nem sentir aquele tiro. Caminhou em direção à John. Os outros homens fugiram covardemente. John engatilhou seu rifle novamente e atirou. Isso fez com que Escuridão fraquejasse. Em segundos se colocou em forma e continuou avançando. John tentava se proteger e caminhava de costas com o rifle apontado para Escuridão. Sabia que se desse as costas e tentasse correr seria abatido impiedosamente. O leão fitava John nos olhos e caminhava pacientemente em sua direção. Parecia ter a certeza de que John não escaparia. John nunca viu tanta determinação num animal. John disparou pela terceira vez, quarta e quinta. Parecia que Escuridão apenas sentia cócegas. John abandonou aquele rifle e pegou outro. Nesse ponto já chegara na base de uma árvore. Ali talvez pudesse se refugiar. Escuridão ainda se recuperava dos 5 tiros recebidos. John aproveitou e subiu na árvore. Ali se sentiria seguro. Ainda tinha 2 rifles. Escuridão, lentamente se levantou e caminhou firme em direção de John. Ao pé da árvore o leão tentava subir para capturar John. Parecia ensandecido. John engatilhou o rifle e atirou de novo. Isso parece ter enfurecido Escuridão um pouco mais. Foi aí que John atirou pela sétima e oitava vez. Escuridão caiu. John ficou aliviado. Não entendia como Escuridão resistira com oito tiros. Finalmente John colocara fim naquela história. Ainda se recuperava do estresse quando Escuridão começou a se levantar. Olhou para John com mais ódio do que nunca e resolveu subir na árvore novamente. John atirou o rifle em Escuridão que não se abalou. Foi nesse momento que John pegou Matilda. Era sua última esperança. Escuridão começou a subir nos primeiros galhos. John teve paciência. Esperou um pouco mais e finalmente disparou na cabeça de Escuridão. Fechou os olhos esperando seu fim. Era o último rifle e a última bala. Silêncio se fez. Apenas o eco do tiro percorria a mata. Algumas aves podiam ser ouvidas ao longe. John, lentamente foi se acalmando e olhou em direção de Escuridão. Parecia que o leão estava finalmente morto. Ficou em cima da árvore por mais de 10 minutos para ter certeza de que Escuridão não estava fingindo para atacá-lo traiçoeiramente.


Um silêncio ensurdecedor se fez em toda a mata. Os nativos que fugiram do leão, pouco a pouco foram se aproximando. John ainda estava no topo da árvore abraçado a Matilda. Babu surgiu entre os homens e disse para John que já era seguro para descer. John, com as pernas trêmulas, desceu. Não demonstrou isso aos seus homens. Precisava ser forte. Ao descer cutucou Escuridão com seu rifle. Se o leão ainda estivesse vivo, teria que alvejá-lo com o rifle, pois as balas acabaram.


— Viva John! — gritou Babu. Todos os homens gritavam alegres em êxtase pela morte dos leões. Primeiro foi Sombra e agora, Escuridão. Os homens ficaram tão eufóricos que queriam carregar John nos ombros, mas ele não permitiu. Era seu dever garantir a segurança de seus homens e finalmente conseguira.


Os homens arrastaram Escuridão para o acampamento. George comemorou junto a todos dando vivas a John por conseguir eliminar o leão que faltava.


No dia seguinte George contratou novos trabalhadores. A construção da ferrovia finalmente retornaria ao seu curso. O ano novo realmente foi um ano diferente: sem o medo de ataques surpresas de leões assassinos.


Em fevereiro de 1899 a ferrovia, naquele trecho, foi concluída. John foi elogiado por todos os seus superiores por eliminar Sombra e Escuridão e por conseguir concluir o projeto. Mas na sua cabeça ainda faltava algo.


— John, queremos parabenizá-lo pelo sucesso alcançado. Estamos muito felizes — agradeceu George.


— Meu amigo, eu é que agradeço pela oportunidade de provar o meu valor. Sei que decepcionei de início e com perseverança venci esses predadores.


— Os responsáveis pelo empreendimento mandaram que eu te entregasse isso. — Elisabeth deu a John uma adaga de prata.


— Estou lisonjeado. Não merecia tanto… — agradeceu John timidamente.


— Essa adaga simboliza a transformação, o poder sobre a vida e a morte. Você transformou a mente desses nativos, lutando por suas vidas e colocando um fim àqueles leões. Estamos honrados de termos te conhecido — falou George.


— Amanhã estamos indo embora. O seu salário desse mês será enviado para sua casa, na Inglaterra. Estamos gratos de verdade — finalizou Elisabeth.


— Obrigado meus amigos. Vou ficar mais alguns dias por aqui e depois retorno ao meu país. Foi um prazer trabalhar com vocês.


Todos se abraçaram e se cumprimentaram. John se recolheu para sua tenda. Dormiu como há muitos meses não fazia. Nenhuma preocupação na mente. Até conseguiu sonhar. Fato raro.


No dia seguinte John saiu em busca do esconderijo de Sombra e Escuridão. Apesar de tê-los eliminados, uma questão ainda o incomodava: onde esses leões se escondiam? Quebrou a cabeça e relembrou todos os lugares vasculhados. Apenas uma região não havia visitado: as margens do Rio Tsavo do lado oposto. E foi para lá que foi.


John não achou nada no primeiro dia. No segundo dia insistiu e finalmente achou uma caverna às margens do rio. Com cautela e com Matilda engatilhada, adentrou à caverna. Ficou pasmo ao ver tamanha cena. Tinha certeza, mais que absoluta de que ali era o esconderijo de Sombra e Escuridão. Postados, lado a lado, crânios humanos. Contou 135. Estavam ali como troféus. Sombra e Escuridão, como deduzira logo de início, matavam por puro prazer.


Depois dessa busca, John se deu por satisfeito e retornou para seu país. Ainda intrigado com os leões de Tsavo, continuou suas pesquisas. John partia do princípio que aqueles leões eram exageradamente grandes. Uma anomalia da natureza. O ataque sistemático dos leões aos seres-humanos era intrigante. Eles se sentiam destemidos, pois nem se davam ao trabalho de levarem suas vítimas até a caverna ou arbusto para devorá-los. Faziam isso à poucos metros de onde capturavam suas presas. Em outras vezes apenas matavam as pessoas nem chegando a devorá-las.


Indo um pouco mais fundo nos estudos, John descobriu que a região de Tsavo era rota de navios negreiros. Muitos homens morriam por ali e os leões começaram a se alimentar desses corpos. Dizem até que uma doença deixou os dentes dos leões enfraquecidos e, com isso, não conseguiam mais caçar. Após comerem pessoas mortas, o foco principal de sua alimentação passou a ser de seres-humanos.


John escreveu um livro sobre esses acontecimentos. Depois serviu em algumas guerras pelo exército britânico e lá escreveu mais livros. Depois de 35 anos servindo o exército britânico finalmente se aposentou. Ele e a esposa Frances se mudaram para a Califórnia. Aos 80 anos, John não mais acordou. Seis semanas depois foi a vez de Frances partir.


Apesar de tantos anos após o incidente com os leões, John nunca mais teve paz. Tinha pesadelos constantes com os leões. Os vencera em combate, mas sua mente estava tomada para sempre pelo terror causado por Sombra e Escuridão. Que descanse em paz!



FIM





O AUTOR

Luiz Primati

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