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CONTOS DE UM FUTURO DISTANTE Nº 13 — 10/05/2022

Alessandra Valle conta mais um caso de crime hediondo. Eu, Luiz Primati, trago a primeira parte de um conto de 2018, publicado inicialmente no Facebook em partes e depois entrou para o livro: "Velhas Histórias Urbanas" que foi baseado num fato. O nome do conto é "A Emparedada da Rua Nova". Ricardo dos Reis estreia com um conto da famosa Rua Augusta, centro de São Paulo, uma das maiores cidades do mundo e uma das ruas mais conhecidas dos brasileiros.


Esse caderno tem a intenção de divertir os nossos leitores que, sempre acabam tirando algum ensinamento para suas vidas.

Leia, Reflita, Comente!


http://bornalcerebrau.blogspot.com

CONFISSÃO


por Alessandra Valle


Amanhece e a correria para iniciar a rotina doméstica é frenética em meu lar.


Preparar café da manhã, acordar filho, arrumar para escola, organizar bolsa, mochila, preparar marmita, tomar banho, me arrumar, sair de casa sem esquecer nada e levar a criança para escola.

Parece bem normal e costumeira essa rotina na maioria dos lares, contudo, em se tratando de uma mãe policial, o dia não poderia ter sido mais atípico.

Na véspera, apesar de ter tido oportunidade e tempo suficiente para me contar como fora seu dia na escola, meu filho fora sucinto como sempre: “Foi tudo bem”.

Estávamos apressados para sair de casa, entretanto, foi necessária uma pausa. Meu filho iniciou um diálogo:

— Ontem briguei na escola — disse, enquanto eu passava repelente em suas pernas.


— O que houve? Quer conversar? — indaguei, enquanto meus pensamentos desejavam fazer voltar os ponteiros do relógio em vinte minutos.

A conversa prosseguiu e respeitei o tempo que ele precisava para desabafar e compreender que não se resolve nenhum problema com violência.

Na minha concepção, nenhuma forma de violência pode ser usada como argumento para autodefesa. Caso continuemos a praticar pena de talião, a humanidade ficará cega e banguela. É necessário ter discursos de renovação nossos lares e comentarmos sobre a necessidade do amor para resolver nossos problemas.

A rotina então seguiu seu rumo, porém, mais atrasada do que nunca.

Sabia que naquela manhã, um grupo de colegas policiais faria uma operação para cumprir mandado de prisão contra um homicida que desempenhava o papel de esquartejador na organização criminosa da qual fazia parte, e dessa forma, ele ocultava os cadáveres de suas vítimas.

Essa função existe no círculo de facções criminosas, acreditem.

Eu precisava chegar à “Desaparecidos” quanto antes, pois a maioria das testemunhas do fato do desaparecimento investigado foram interrogadas por mim.

Caso fosse exitosa a diligência policial, tinha muito interesse em interrogar o suposto autor do desaparecimento forçado.

A vítima era jovem, estava passando por problemas financeiros e consequentemente estava abalado emocionalmente.


Fora contratado para fazer uma tatuagem em uma pessoa amiga, durante sua festa de aniversário, porém, quando chegou no local da confraternização, os convidados estavam visivelmente drogados.


A aniversariante desistiu dos serviços do rapaz e ainda discutiu quem dentre os integrantes da festa sairia para comprar mais drogas.


O rapaz não estava naquele clima e se enfureceu. Decidiu ir embora, mas já era tarde.


Acreditamos que alguém possa ter misturado algum alucinógeno em sua bebida, com intuito de alegrá-lo e enturmá-lo, mas o resultado fora causa de euforia no pobre rapaz.


Deixou a casa de festas e saiu pelas ruas do bairro completamente insano e descontrolado. Câmeras de vigilância de algumas residências o flagraram andando, falando sozinho e se despindo.

Ninguém o acompanhou e seu fim foi trágico.


Adentrou uma comunidade da zona norte da cidade do Rio de Janeiro a qual vive sob o jugo de traficantes de drogas fortemente armados.


O rapaz foi apanhado, levado até a presença do “tribunal do tráfico” e sentenciado à morte.


Fizemos uma operação policial, um mês antes de o mandado de prisão ser concedido pela justiça, para buscarmos os restos mortais do rapaz, entretanto, não obtivemos êxito. Uma intensa troca tiros foi deflagrada pelos criminosos locais, um policial foi atingido e precisou ser resgatado.


Felizmente não morreu, mas ficou paralítico após esse triste e violento episódio.


Violência, muita violência contra a polícia foi o que presenciamos naquele lugar.


Ao chegar à delegacia, fui avisada que o homicida fora preso e que a diligência policial fora bem sucedida.


Logo, o assassino estava à minha frente, algemado. Apresentei-me e o indaguei se tinha ciência dos motivos pelos quais fora preso. Tendo sido respondido, afirmativamente.


Perguntei-lhe se algum tipo de violência havia sido praticada durante sua prisão e o mesmo disse que não.

Mostrei a foto do rapaz desaparecido e o homem, que julgava ser um maligno, chorou.

Não entendi absolutamente nada, apenas aproveitei a situação para lhe oferecer água e solicitei que as algemas lhe fossem retiradas.


Alegou ocultar os cadáveres daqueles que eram condenados pelo “tribunal do tráfico”, mas frisou que o cadáver daquele rapaz desaparecido, ele não tinha a menor intenção de ter espostejado.


Continuou afirmando que na noite da morte o rapaz entrou “doidão” na comunidade e causou desconforto entre os criminosos.


Segundo o confessor, após darem uma surra no rapaz e arrumarem roupas para vesti-lo, o liberaram para que saísse da favela.


Entretanto, o rapaz não saiu, continuou perambulando e falando coisas do tipo, “VOU RESSUSCITAR”, conforme a escassez de vocabulário verbalizado pelo homicida.


Em verdade, no decorrer das investigações, testemunhas me informaram que o rapaz costumava buscar RESSIGNIFICAR assuntos dos mais variados temas, buscando dar novos significados a acontecimentos da vida a partir da sua mudança na percepção do mundo, de maneira que suas atitudes contribuíssem para um mundo mais agradável.


Ocorre que o desaparecido continuou a incomodar o “trabalho” dos traficantes e, segundo o criminoso confessor, ele tentou forçar o portão da residência daquele que seria o “gerente” do tráfico local.

Sem piedade, para fazer cessar a algazarra, o criminoso atirou de fuzil contra o peito do rapaz, que veio ao solo e ainda agonizando, o arrastou pelos cabelos até o local onde retalhou seu corpo e ateou fogo nas partes que pôs em tonéis de aço.


— Não sobrou nada para ser enterrado — disse o cruel.


Quanta violência escutei daquela boca que disse estar arrependida pelo crime cometido.


Contou ainda que não se sentiu bem após cometer o crime contra o jovem rapaz e decidiu mudar de vida, transmitindo seu ofício de “açougueiro” do tráfico para outros dois que desejam sua atividade e que atualmente, arrumara um emprego digno.

Relembrou que o filho nascera há poucos dias e demostrou tristeza por saber que não poderia acompanhar seu crescimento. Quis saber quanto tempo de cárcere lhe seria imposto.


Como não poderia prever sua sentença, apenas mostrei que em decorrência da barbárie pelo crime cometido, sua pena poderá ser aplicada no teto máximo de tempo e ainda acrescida de qualificadoras.

Sua confissão foi minuciosamente descrita, lida em voz alta e relida pelo próprio autor, que após assinar o termo de confissão foi encaminhado pelos policiais à exame de corpo de delito e posteriormente encarcerado no presídio.


Nunca mais um episódio como esse se repetiu na minha frente. Não costumamos ouvir confissões, são raras.

Reencontrei-o diante o tribunal do júri, enquanto assistido em audiência por um defensor público. O acusado negou ter confessado o crime em sede policial, disse ser inocente e que a acusação que lhe pesava estava baseada somente em suposições, depoimentos confusos e contraditórios dos policiais que o prenderam.


Após meu depoimento em sede judicial, não acompanhei mais o andamento do processo criminal contra aquele assassino cruel, pois meu dever já havia sido fielmente cumprido.

Acredito que tenha sido condenado, pois, as provas colhidas durante a fase de inquérito policial foram robustas, positivas e fundadas em dados concretos que identificaram tanto a autoria quanto a materialidade, e foram devidamente reunidas para que o Poder Judiciário pudesse ter a convicção de estar correta a solução condenatória.

Pensando dessa forma, ressignifico a cada dia meu trabalho como policial, a fim encontrar nas adversidades força e motivação para continuar.


Só não consigo ressignificar a feiura da violência que vi e ouvi durante a confissão desse crime hediondo.


A EMPAREDADA DA RUA NOVA

por Luiz Primati

CAPÍTULO I — PAIXÃO ARREBATADORA


Pedro Paulo nasceu em Recife mesmo. Foi num bairro da periferia e quando ainda se amarrava o cachorro com linguiça. Sua família era de comerciantes e desde criança se iniciou no ramo vendendo chup-chup na praia. Sabe aqueles saquinhos compridos com ki-suco dentro? Era isso que fazia. Com o calor que o cabra enfrentava na areia da praia e após várias cervejas, algo gelado e doce era uma boa pedida. Pedro vendia tudo em questão de meia hora. Passava o resto do dia vagando pela praia, pegando uma onda e cantando as gatinhas “estrangeiras”. Para ele, estrangeira era toda garota que não fosse de Recife. Valia até de cidade vizinha e bairro distante. Sempre galanteador dizia para as garotas que nunca tinha visto uma alemã tão bela, ou uma americana, suíça às vezes. Falava do país conforme as características físicas da garota. Quando diziam ser brasileiras, falava que não parecia e que tamanha beleza só devia pertencer a alguém que não era desse planeta. As garotas adoravam. Gostava mesmo de ir até à praia de Boa Viagem, lá tinha mais turistas, mas era muito longe. Ficava ali pelo cais e algumas vezes ia até o “Buraco da Véia”.


Dessa forma Pedro Paulo fazia muitas garotas se apaixonarem por ele e no final das contas só tirava uma casquinha. Quando perguntado sobre o que fazia, dizia estar estudando para ser empresário. Quando questionado se existia curso para isso, dizia que sim e que se formaria em breve. As garotas riam e aceitavam serem beijadas porque achavam ele “bonitinho”.

Nessa idade Pedro Paulo não pensava em outra coisa. Apenas namorar. Pele queimada do sol, corpo magro, olhos claros, cabelo parafinado. Típico surfista. Os estudos ele já abandonara fazia 2 anos. Não aguentava ficar trancafiado numa sala escura e fétida. Dizia se sentir prisioneiro na escola. Queria ganhar o mundo e para isso abandonou os estudos. Seu pai o obrigou a trabalhar vendendo os tais chup-chups. Para ele era diversão e fácil demais. Só que não contava para seu José, seu pai, senão ele aumentaria a quantidade de chup-chup que deveria vender.


Isabela foi a garota que ganhou seu coração. A mais bela que conhecera, disse-lhe. Ela não acreditou, pois, sabia de sua fama e que dizia isso para todas elas. Porém, dessa vez era verdade. Isabela era a garota mais linda que Pedro Paulo conhecera. Foi difícil de roubar um beijo. Dizia ser muito séria. Só para namorar. Pedro Paulo ficou tão encantado que aceitou ir à casa dela e pedi-la em namoro. Já tinha 16. Completava 17 mês que vem. Disse ao pai de Isabela, o senhor Herculano, que gostaria muito de namorar sua filha. Ele permitiu o namoro, mas primeiro quis conhecer seus pais: Ana Maria e José Trindade. E após saber que a família era de boa reputação, teria que namorar na sua casa. Aos sábados de noite e domingos de tarde. Ali na sala, no sofá, entre ele e sua mulher. Pedro Paulo aceitou tamanha era sua paixão. Marieta, mãe de Isabela concordava com tudo que o marido dizia. Não tinha voz ativa. Seu José se aproveitou da situação e fez Pedro Paulo voltar a estudar. Caso contrário não poderia namorar. Nem é preciso dizer que ele aceitou sem reclamar. Estava mesmo apaixonado.


Naquela época não se tinha TV. À noite, iluminada pela luz de uma vela num castiçal, podiam pegar na mão um do outro, sem apertar demais. Beijo, só no rosto: um ao chegar e outro ao partir. As 10 da noite já era tarde demais para ir embora. Pedro Paulo chegava as 19:30h no sábado e as 21:30h estava indo embora. No domingo tudo começava as 16h. As 17:30h iam à missa e na volta cada um seguia para sua casa. Pedro Paulo não aguentava esse ritual.

Isabela, durante a semana escapava da aula para ir até à praia e ali via seu amado. Pedro Paulo cabulava as aulas diariamente. Seus pais o matariam se soubessem. Cada vez que estava junto de Isabela tentava arrancar uns beijos e ela sempre negava, pois, o pai poderia estar por perto. Numa tarde conseguiu a barraca de um amigo emprestada e levou Isabela para dentro dela. Ali pode sentir todo o sabor dos doces lábios de Isabela. Arriscou passar a mão pelo seu corpo sendo barrado. Disse que só casando permitiria ser tocada daquela maneira. Pedro Paulo, com sua cara-de-pau característica sempre perguntava: tocada de que maneira? Só faço carinho…


Muitos meses se passaram e os encontros às escondidas foram aumentando. Uma bela tarde Isabela cedeu aos desejos da carne e permitiu que Pedro Paulo avançasse um pouco mais. Ali mesmo na barraca, sob o calor escaldante, transaram pela primeira vez. Foi uma felicidade sem fim para os dois. Algo inexplicável.


Namorar na casa de seu Herculano se tornou uma tarefa difícil. Pegar nas mãos de Isabela já não era o suficiente. Pedro Paulo, cheio de testosterona, se excitava ao lembrar da tarde que passou com Bela, apelido que os pais lhe deram e caia bem com sua beleza. Nas semanas seguintes se encontraram mais vezes na praia e o sexo se repetiu. Era tudo que os dois queriam.


No domingo que antecedia a festa de Nossa Senhora do Carmo, padroeira da cidade, seu Herculano chamou Pedro Paulo e seus pais. Pedro quis saber do que se tratava. Herculano disse querer conversar, algo sobre a festa de Nossa Senhora.


No caminho para o encontro, seu José, homem vivido, questionou Pedro.


— Pedro Paulo, o que você aprontou?

— Eu? Nada meu pai. Seu Herculano disse que é sobre a festa da semana que vem.

— Fale a verdade menino… — dizia Ana Maria com voz firme.

— Já disse minha mãe. Não fiz nada. Deve ser por causa do papai ter um comércio. Acho que seu Herculano pedirá uma ajuda para a festa da igreja. José ficou pensando sobre o assunto. Poderia ser isso mesmo. As pessoas viviam pedindo que colaborasse com isso ou aquilo. Pelo simples fato de ter um comércio as pessoas pensavam terem muito dinheiro. Não sabiam como a vida era dura. — Boa noite! Como vai Sr. Herculano? — saudou José. — Boa noite! Como estão José e Ana Maria? Sejam bem-vindos à minha humilde residência — falou Herculano galanteando. — Eu é que me sinto lisonjeada de ser convidada para a sua casa… — falou Ana Maria com timidez na voz. Pedro Paulo olhou rápido para o senhor Herculano, desviando o olhar logo que pode. Viu Isabela de relance. Ela parecia assustada. O pressentimento não era bom. Depois que todos se sentaram na sala de estar, Ana Maria, José, Pedro Paulo, Marieta, Herculano e Isabela, a empregada serviu um refresco a todos e o dono da casa começou a falar. — Como é sabido, meu caro José, sou um homem de poucas posses. O senhor, comerciante, também não deve ter guardado muito dinheiro, visto que, mora numa casa simples. Mas por favor, não se ofenda. Apenas estou pontuando algumas coisas que acho importante. José teve a sensação de que Herculano pediria algo para a festa, como havia desconfiado. Herculano continuou.

— Nossos filhos já namoram há alguns meses. Somos praticamente uma família, não é mesmo? — disse Herculano em tom irônico e, ao mesmo tempo, ríspido.

— Senhor Herculano…

— Não, não, não. Me chame apenas de Herculano. Temos a mesma idade. Me chamando de senhor parece que sou bem mais velho — riu.

— Está bem, Herculano… não temos muito mesmo. O dinheirinho que sobra no final do mês eu guardo para a faculdade do Pedro Paulo. Já temos quase que o valor todo dos 4 anos, garantido. Estudar é importante. Apesar de Pedro Paulo ter abandonado os estudos por um tempo, voltou a estudar e logo concluirá o ensino secundário — falou José humildemente.

— Que bom! Isso é sinal de que são gente honesta, trabalhadora e poupadores — riu. — Mas temo que Pedro Paulo não frequentara uma faculdade. E bem possível que nem conclua o ensino secundário.

Imediatamente veio à mente de José que Herculano pediria uma doação bem volumosa para a festa. Isso já começou a aborrecê-lo.

— Herculano, sei que vocês são devotos de Nossa Senhora do Carmo e que na semana que vem teremos as comemorações na igreja, mas não posso dispor dessa poupança. Posso ver algo que eu possa contribuir… — falou José meio sem jeito.

— Relaxa homem. Não é nada disso. A festa já está toda paga faz meses — falou Herculano.

Ana Maria e Marieta apenas ouviam a conversa. Entre uma fala e outro se refrescavam com um gole de suco ou água. Pedro Paulo olhava para Isabela sem entender o rumo daquela conversa. Isabela, por sua vez, esfregava as mãos nervosamente. A mãe, Marieta, segurava o braço da filha.

— Então eu não entendi… Por que Pedro Paulo não poderá ir para a faculdade e nem terminar o ensino secundário? — questionou José.

— Simples meu amigo. Nossos filhos vão se casar — falou Herculano em tom duro.

— Não, não, Herculano. Pedro Paulo tem que terminar os estudos. É muito novo ainda para se casar… — falou José contrariado. Ana Maria olhava para Pedro Paulo já adivinhando o que acontecia por ali.

— Bem, se ele queria ir para uma faculdade, deveria ter pensado duas vezes antes de embuchar a minha filha.

— O que o senhor está dizendo? — falou Ana Maria entre a alegria e o desespero.

— Vocês vão ser avós! — falou Marieta já não se contendo de alegria.


Pedro Paulo ficou tão nervoso que desmaiou. Isabela pegou um leque e começou a ventilar seu rosto suado. Ana Maria e Marieta estavam radiantes. José e Herculano um bocado contrariados.

* * *

Herculano continuou com seu discurso duro.


— Pedro Paulo terá que arrumar um emprego para sustentar minha filha e esse neto a caminho. Creio que a faculdade passou a ser um sonho distante.


José tinha na expressão toda a decepção que o mundo poderia lhe dar. Para ele, Pedro Paulo jogara a vida no lixo. Só lhe restaria ser um comerciante. Não foi a vida que sonhou para o filho. O comércio é ingrato, cheio de altos e baixos. Enfim, cada um escolhe o seu destino — pensou José. Não poderia ser responsável pelo destino do filho.


— Concordo Herculano. Cuidaremos do futuro de nossos filhos — respondeu José em tom de tristeza. Marieta e Ana Maria ainda estavam em êxtase pelo neto ou neta. Pedro Paulo finalmente acordou.


— Ah! Até que enfim o frouxo acordou — comentou Herculano. José pensou em retrucar e se calou. Sabia que nessa discussão só tinha a perder.


— E o casamento? Podemos fazer uma cerimônia religiosa? — questionou Ana Maria.


— Claro que sim! Minha filha não pode sofrer a humilhação de ser uma amasiada. Como ainda está de 2 meses, podemos casá-los com calma e ninguém notará a barriga. O que acha Marieta? — induziu Herculano.


— Acho uma ótima ideia. Podemos anunciar o noivado agora na festa de Nossa Senhora e marcar o casamento para daqui a 30 dias. Podemos dizer que foi uma paixão arrebatadora. — Marieta falava com romance nas palavras. Era uma sonhadora. Queria um casamento de contos de fadas para a filha, coisa que não teve.


— A festa é por minha conta! — disse Herculano. — E como tradição, o pai da noiva cuida para que o noivo possa sustentar a vida a dois.


— Claro, claro. Estive pensando e posso pegar o dinheiro da poupança — que estava destinado aos seus estudos — e montar um comércio para ele lá perto do meu, na Rua Nova mesmo. Não dará para ficar rico com isso, mas conseguirão ter uma vida digna — enfatizou José.


— Ótima ideia. Comece a procurar um local amanhã mesmo. O tempo corre muito rápido — disse Herculano.


— E nós? Não temos direito a opinar sobre essa situação? — disse Pedro Paulo em tom de revolta.


— Ah! Você está por aí, Pedro Paulo? — zombou Herculano. — Não ouvi sua voz por toda a noite. Podia jurar que não estava presente.


— Calma aí Herculano. Sem zombarias. — José defendeu seu filho.


— Acalmemos os ânimos, pai. Eu também estou assustada. Estão decidindo nossas vidas como se não existíssemos — reclamou Isabela.


— Minha filha, seu pai quer o melhor para vocês. Não é hora de bancar a rebelde.


— Sei mamãe, mas pelo menos poderiam perguntar o que pensamos?


— E o que você pensa, Isabela? — questionou o pai em tom desafiador.


— Quero me casar com Pedro Paulo. Eu o amo, mas não sei se ele quer o mesmo…


— Claro que quero minha amada. Quero você e esse filho. Não importa o quão dura seja a nossa vida no início de casados, juntos superaremos todos os obstáculos — discursou Pedro Paulo.


Herculano bateu palmas para Pedro Paulo e falou: — Belas palavras meu jovem. Então está tudo acertado. Cuidaremos do casamento.

Continua...




O CRUZAMENTO DA RUA AUGUSTA

COM A RUA LUÍS COELHO

por Dos Reis

Uma noite dessas, após sair do trabalho e sem que me desse conta, vaguei pela Avenida Paulista com um pequeno livro na mão, lendo e andando, de repente o sono me arrebatou de um jeito que ficou mesmo difícil de controlá-lo. Pensei que fosse culpa da leitura, então coloquei o livro na mochila e pensei em voltar para casa. Mas para fazer o quê? Sem pensar muito entrei na Rua Augusta em sentido ao centro, quem sabe ali encontrasse algo interessante que afugentasse o meu sono, parei em uma pequena banca de filmes alternativos e escolhi um título para levar para casa.


― Não compre filmes piratas. Não incentive esse crime ― disse um transeunte que não me parecia nem mulher, nem homem.


Mas nem mesmo o valor de um ingresso de cinema havia em meu bolso. Quis justificar a falta.


― Eu sinto muito, mas...


― Você não sente nada. Idiota!


Arrependido, me voltei para o rapaz da banca.


― Moço, eu quero cancelar a compra.


― Me desculpe, mas eu não posso devolver seu dinheiro. Você pode trocar por outro filme, se quiser.


― Tudo bem. Tudo bem...


Pensei em jogar o filme no bueiro, mas não o fiz. Ser alternativo naquele instante era ter a oportunidade de alcançar algo que talvez eu jamais pudesse se frequentasse o cinema diariamente. Agora era só voltar para casa e conferir aquela preciosidade que estava em minhas mãos e foi então que aconteceu a coisa mais absurda que já vi em toda minha vida. E vi com meus próprios olhos. Eram homens que viravam mulheres e mulheres que viravam homens. Pensei que estivesse louco ou que o sono tivesse afetado minha vista, mas não. Receoso, subi alguns passos na rua no sentido contrário e pude perceber o instante em que aquele fenômeno acontecia. Era exatamente no cruzamento com a Rua Luís Coelho, as pessoas mudavam de sexo ali. Por algum motivo, que até mesmo a ciência desconhece, as pessoas, ao atravessarem a rua, se convertiam em outra, de sexo oposto.


― Senhor... quero dizer... senhora. Você sabe me dizer o que está acontecendo?


― Do que estamos falando?


― Você era um homem do outro lado da rua e agora é uma mulher.


― Eu sei.


― Isso não lhe parece estranho?


― O grande barato desse lugar é esse, querida.


Foi quando me dei conta.


― Oh, meu Deus!


Meus peitos estavam maiores. Um tanto murcho, admito. Afinal, não eram os peitos de uma moça de 15 anos. Naquele momento fiquei em pânico.


― Isso não pode estar acontecendo.


Apressadamente fui até o rapaz da banca.


― Eu sou homem ou mulher?


― Ô minha querida, atualmente a gente pode ser o que quiser. Não sei se tá me entendendo!?


― Não! Não estou entendendo.


― A questão não é mais ser ou não ser.


― É o que, então?


― É querer ou não querer. Entendeu agora?!


― Agora fiquei mais confuso do que quando assisto às merdas dos seus filmes.


― Você está muito abatida, precisa relaxar. Daqui a pouco isso passa.


― Você já me viu outras vezes por aqui?


― Não força a barra. Por aqui passa muita gente.


― Eu imaginei...


― Mas de você eu lembro um pouco. Você é cliente ativa.


― O que significa isso?


― Significa que você aparece de vez em quando.


― Como homem ou como mulher?


― Lá vem você com essa história.


― Eu preciso saber com quem eu me pareço! ― gritei.


― Com você, poxa. Lembra um pouco a Fernanda Torres.


― Mas eu sou uma mulher!


― Eu sei...


Desesperadamente tentei explicar.


― Quero dizer, eu estou como uma mulher depois que eu atravessei a porra daquela rua.


E, calmamente, o rapaz me respondeu com ar incrédulo.


― Acontece.


― Espera um pouco.


Rapidamente comecei a me despir para confirmar o que estava acontecendo.


―Minha querida. Você não pode tirar a roupa no meio da rua. A polícia vai lhe prender ― advertiu o rapaz da banca.


― Mas eu preciso saber se sou uma mulher de verdade ou apenas um travesti arrependido.


― Polícia! Polícia! ― gritaram os transeuntes.


Em meu delírio a terrível dúvida estava para ser descoberta.


― Está bem, está bem... Já deu pra sacar ― disse ofegante.


O rapaz da banca chegou mais perto de mim do que deveria, segurando em suas mãos o filme “A PELE QUE HABITO”, de Almodóvar.


― E aí? É homem ou mulher? ― perguntou com curiosidade.


― Presumo que eu seja uma mulher.


― Eu sabia! Nunca me engano.


Eu ainda mantinha uma aparência familiar, como se meu eu resistisse àquela loucura. Então um homem, um tipo africano, totalmente rastafári, sorriu para mim. Fingi que não era comigo, mas depois racionalizei. Se eu era um homem em corpo de mulher, aquele negro só podia ser uma mulher em corpo de homem. Então relaxei, enquanto o negro me encoxava pelas costas, fingindo procurar um filme.


― Escuta, moreno. Tenho filmes ótimos do outro lado da banca.


E com essa sutil informação o negrão baixou a crista e me deixou de lado. De súbito outra dúvida perseguiu minha mente.


― Moço ― cutuquei o rapaz da banca.


― Estou ocupado agora.


― Mas é importante.


― Então fala logo.


― Você já me viu com outras mulheres por aqui?


― Claro que sim.


― Ufa!


Senti um alívio, na Rua Augusta, com aquela calçada estreita e em meio ao movimento exagerado de pessoas que circulavam por ali, podia rolar de tudo. Mas espera aí, pensei.


― Quero dizer… Eu saía com outras mulheres?


― Muitas...


― De que lado da Rua Augusta, antes ou depois da Luís Coelho?


― Não sei! Mas deve ser dos dois lados, oras. Bem, eu estou na parte de baixo. Por aqui eu só lhe via com outras mulheres. Mas não se preocupe, isso, por aqui, é normal. Mulher com mulher, homem com homem...


― E você nunca me viu com outro homem?


O negão se juntou novamente, suspirando amores.


― Não que eu me lembre.


― Danou-se!


O desespero se apossou de mim.


― Você também já atravessou a Rua Luís Coelho?


― Eu atravesso várias vezes por dia.


― E você é homem ou mulher?


― Sabe que eu já nem me lembro. Às vezes eu sou homem, outras vezes eu sou mulher, depende... O que você quer que eu seja?


― Nada, não! É só curiosidade.


Continuei observando aquela massa humana que passava apressada pela noite. Gente de todo tipo e de todos os lugares, assim como o negrão que continuava pesquisando filmes atrás de mim.


― Por favor, você pode parar de me encoxar ao menos um minuto para eu tentar entender o que está acontecendo. ― O negrão ficou nitidamente magoado. ― Obrigado! Eu agradeço a sua compreensão. Olha, leva o filme “TRAÍDOS PELO DESEJO”, você vai adorar.


Em posse de mim novamente, tentei atinar nessa situação estranha.


― Já entendi, meu lado feminino é sapatão.


Olhei para o relógio, faltavam dez minutos para a meia-noite, logo o metrô encerraria as atividades e eu precisava correr para não perder o último trem. Novamente me saltou a dúvida. O que aconteceria quando eu cruzasse a Rua Luís Coelho? Fiquei incomodado com a situação. Eu certamente sabia muito pouco sobre mim mesmo. Se colocada em prática a Lei de Murphy, que sempre me acompanha, nada aconteceria comigo ao atravessar a rua e eu teria que aceitar esse meu novo corpo. Mas, enfim, eu precisava de coragem para fazer aquela travessia. Hesitei um pouco antes de dar o primeiro passo. Ironicamente o sinal piscou no vermelho e eu decidi esperar mais um pouco. Aquela noite ainda podia ser salva. Esfreguei os meus olhos cansados, o sinal ficou verde novamente e, lentamente, iniciei a minha travessia, lentamente a luz foi aumentando e eu fui acordando, sentado na Estação Consolação do metrô. Rapidamente pus a mão em minha parte íntima e senti um pequeno volume, estranhamente morto. Naquele momento percebi que não era mulher, nem homem, senão uma mistura desenfreada de sensações, perturbações, conflitos e sentimentos.



FIM




NOSSOS COLUNISTAS


Luiz Primati, Alessandra Valle e Ricardo dos Reis.

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5 Comments


sidneicapella
sidneicapella
May 11, 2022

Contos sensacionais!

Parabéns aos colunistas!

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Stella Gaspar
Stella Gaspar
May 11, 2022

Vivências, momentos. Cada conto com um prazer e específico trazido para os leitores(a)! Parabéns para todos. 🤗

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Henrique Soares
Henrique Soares
May 11, 2022

Maravilhosos os contos 👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽. Alê, esses contos policiais são de arrepiar tbm. Quanta frieza percebemos nas pessoas. É arrepiante até aonde o ser humano é capaz de ir com tanta violência. Triste!

Luiz, parecia que eu estava conversando com alguém daqui de perto ao ler essa primeira parte. Conheço todos os lugares citados. No aguardo da continuação. 👏🏽👏🏽👏🏽

Ricardo, kkkkkk uma loucura dessas eu já passei em sonho kkkkkk e acordei me caçando tbm pra ver se estava tudo no lugar 😂😂. Maravilhoso! 👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽

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Luiz Primati
Luiz Primati
May 12, 2022
Replying to

Rick, obrigado pelo retorno. Eu estudei bastante a sua cidade, gírias, ruas, praia para que o conto ficasse bem convincente. Se eu falo alguma bobagem e o leitor percebe, para de ler. Continue lendo os próximos capítulos, pois, esse é longo e deverá ter 6 ou 7.

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Alessandra Valle
Alessandra Valle
May 10, 2022

Adorei os temas dos contos desta semana. Leitura de qualidade e de forma gratuita são bençãos para os amantes da literatura. Parabéns ao escritor Dos Reis, pela estréia na família Valletibooks.

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