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CONTOS DE UM FUTURO DISTANTE Nº 12 — 03/05/2022

Alessandra Valle conta como o destino nos pega de jeito ao menor descuido. Eu, Luiz Primati, trago a última parte de um conto de 2018, publicado inicialmente no Facebook em partes e depois entrou para o livro: "Velhas Histórias Urbanas" que foi baseado num fato. O nome do conto é "Bernadete e seus outros 'EUS'". Sidnei Capella retorna ao caderno com o conto "Paquera Virtual".


Esse caderno tem a intenção de divertir os nossos leitores que, sempre acabam tirando algum ensinamento para suas vidas.

Leia, Reflita, Comente!


https://www.eva.ro/


MARCAS IRREVERSÍVEIS


por Alessandra Valle


Existem fatos que acontecem durante nossa vida que são inesquecíveis. Alguns, nos marcam tão profundamente que buscamos eternizá-los na pele, por tatuagens.


Há mais de uma década atuo como policial investigativa em casos de desaparecimento de pessoas e sinto que cada fato por mim investigado deixou sua marca. Dificilmente, me esqueço de algum desses fatos e a riqueza de detalhes armazenadas em minha mente, causa espanto aos colegas, e principalmente, em mim.


Aquele plantão seria um dia desses.


Após o almoço, quando retornei à base policial, uma moça me aguardava, pois, os colegas a haviam indicado para que eu a entrevistasse. Ela queria registrar o fato do desaparecimento de sua prima.


A desaparecida, casada há um ano, mudou-se para uma cidade do interior de Minas Gerais na companhia do marido. Segundo a comunicante, a vida de sua prima não fora nada fácil.

A mãe morrera cedo, enquanto ainda era bebê e o pai desconhecido. Criada pela avó, em residência muito humilde, localizada em uma comunidade da cidade do Rio de Janeiro onde o crime organizado atua de forma violenta, marcando a vida dos moradores com o tráfico de drogas, intensos tiroteios e muitos criminosos.


Ainda segundo a comunicante, a desaparecida não teve muito incentivo, nem disciplina para estudar e se profissionalizar. Tornou-se garota de programa em uma boate no centro, mas a vida havia sorrido para ela, assim como o gerente da referida boate, os dois se apaixonaram e decidiram ir embora para viverem juntos e recomeçarem suas jornadas.


A moça saiu da comunidade, casou-se, iniciou curso de profissionalizante de cabeleireira e abriu um pequeno salão de beleza na cidade onde foi residir.


Entretanto, desejava expandir negócios, pretendia revender roupas e acessórios femininos em seu novo empreendimento. Para tanto, voltou à cidade do Rio de Janeiro e se hospedou na sua antiga casa, aproveitando para visitar a avó.


Já que estava de volta à comunidade onde foi nascida e criada, reencontrou algumas amigas e foi com elas ao baile funk, organizado pelos criminosos que atuam na área.


Certa hora da madrugada, um grupo de traficantes de drogas se aproximaram da moça e a rodearam, se apoderaram do aparelho de celular e exigiram que o desbloqueasse. As amigas, correram para se protegerem e várias pessoas também se afastaram.


A moça foi sendo arrastada para local incerto no interior da comunidade e um dos traficantes, que parecia ser líder, repetia em voz alta para que todos ouvissem: “X9 de polícia, vai morrer.”


Segundo a comunicante, sua prima não pode se defender, o intuito dos bandidos era o feminicídio.


Outra testemunha que estava no local e ainda acompanhou o grupo criminoso até certo ponto na comunidade, disse que a vítima foi puxada pelos cabelos e seu corpo arrastado pelo chão.


A comunicante do desaparecimento disse que os bandidos estavam desconfiados de a moça ter saído da comunidade e principalmente por ter ela voltado aparentando estar bem de vida. Eles desconfiavam que a moça poderia ter se casado com um policial e passaria para a polícia, informações sobre a criminalidade da área. Ela foi julgada e sentenciada à morte pelo tribunal do tráfico.


A polícia sabe qual é o modus operandi dos criminosos que atuam na região, por isso, as buscas por cadáveres não identificados são direcionadas aos registros policiais de encontro de parte do corpo humano nas águas da famosa Baía de Guanabara.


Neste caso, as buscas retornaram seis registros policiai, ou seja, seis partes de corpos humanos foram encontradas naquelas águas, no mesmo período em que o homicídio da desaparecida havia ocorrido.


As primeiras partes humanas encontradas foram fáceis de serem identificadas, pois, foram os braços com as mãos e perícia necro-papiloscópica positivou a impressão digital da moça desaparecida.


Haviam várias partes humanas periciadas, entretanto, não identificadas. Não havia parente consanguíneo direto da desaparecida que pudesse se submeter a exame comparativo de DNA.


Foi então que o marido da desaparecida chegou e trouxe com ele a esperança para dar um enterro digno a sua amada. O apaixonado reconheceu cada parte do corpo de sua amante, cada tatuagem, cada piercing preso ao corpo dela.


A descrição minuciosa das marcas irreversíveis na pele de sua esposa era o que faltava para o reconhecimento daquele corpo macerado e a identificação do cadáver.


Os traficantes foram indiciados e tiveram as prisões preventivas decretadas, a investigação policial chegou ao fim, mas as marcas que me deixaram não se findam.


Não costumo ir ao sepultamento dos desaparecidos que encontro, mortos, mas nesse eu tive muita vontade de ir, pois, os sentimentos sobravam. Só me faltou mesmo a coragem.


BERNADETE E SEUS OUTROS "EUS"

por Luiz Primati


CAPÍTULO FINAL — TRAIÇÃO


Meses se passaram sem que nenhuma personalidade nova surgisse. Karen não achou mais necessário fazer a pergunta sobre voltarem a se tratar no instituto. Nenhuma delas concordara e quando perguntava pela segunda vez as irritava. Pelo bem das pacientes, melhor não insistir.


O tempo avançou mais alguns anos e Karen resolveu publicar seu estudo numa revista científica como planejara desde o início. Já havia material suficiente para concluir os estudos. Inscreveu seu artigo na revista “The International Journal of Psychoanalysis” como sonhara. Agora era torcer para que fosse aceito.


Karen sabia que poderia ter alguns examinadores selecionados para o seu artigo que pudessem não aprovar seu estudo. E isso não era porque seu artigo não era bem fundamentado, mas sabia que esse mundo, para novatos, ainda era um terreno proibido. Era necessário ter renome e influência nesse meio acadêmico.


"Não vamos sofrer por antecipação" — pensou.


Enquanto aguardava a aprovação de seu artigo, seguia com as sessões com todas àquelas personalidades fascinantes. Helen, nunca aparecera. Quem sabe ela só existiria na residência, controlando todas as outras personalidades? Poderia ser uma espécie de mãe. Essa era a conclusão que Karen chegara depois de tantas sessões.


Revendo seu artigo, Karen lembrou da história singular de Bernadete:


“Bernadete Troisman surgiu através de personalidades diversas. Cega aos 20 anos por um acidente traumático, poderia ter ocasionado o surgimento das múltiplas personalidades. Porém, por estudos anteriores no instituto de Medicina de Munique, constatou-se que a cegueira não foi responsável pelo transtorno de múltiplas personalidades. Mirtes, Sharon, Bernadete, Peter, Camile, Wendy, Madeleine eram comandados pelo desejo de Helen, uma das personalidades que nunca a conheci pessoalmente, apenas por contato telefônico.”


Após uma semana que tinha postado o artigo online para publicação, recebeu um aviso por e-mail que seu artigo estava em suspenso, por suspeita de plágio. Karen ficou furiosa. Como poderia ser um plágio um estudo tão singular? Como seria possível tal afirmação? Imediatamente respondeu o e-mail contestando tal desconfiança. No entanto, o editor apenas respondeu que deveria aguardar a decisão.


Karen ficou muito chateada e procurou apoiou no pai, o chamando para uma conversa. Claro que ele sugeriu uma cervejaria. Ela aceitou de pronto. Talvez fosse melhor afogar as decepções numa caneca de cerveja. O local dessa vez foi na Spatenhaus, próxima à praça Max-Joseph, bem em frente à Ópera da Bavaria. Karen adorava o centro histórico e sabia que no Spatenhaus é necessário fazer reserva com antecedência. Mas seu pai, como assíduo frequentador, conseguiu uma mesa na última hora. Karen ficou feliz.


— Como você está linda hoje, minha filha preferida — falou Adam abraçando Karen e a beijando no rosto.


— Só podia ser a preferida, né pai? Pois, sou a única — riram juntos.


Adam puxou a cadeira para a filha, se antecipando ao garçom. Queria fazer essa gentileza para ela. Karen gostou do gesto. Pediu a cerveja Münchner Hell, que adorava e Karen detestava por ser amarga. Karen nem contestou dessa vez. Tomaria a primeira para agradar seu pai e depois tomaria uma pilsen.


— Então minha filha, o que está acontecendo? Senti uma aflição na sua voz.


— Estou realmente muito nervosa — tomou um gole da cerveja. — Sabe o estudo que lhe falei sobre as múltiplas personalidades de Bernadete?


— Claro que me lembro. Você pediu minha opinião sobre passar a sua paciente para o Dr. Klaus, não foi?


— Exatamente! Sua memória continua afiada — riu. — Então, depois desses anos todos tratando de Bernadete, escrevi um artigo sobre o caso e enviei para a revista “The International Journal of Psychoanalysis”.


— Que maravilha! Meus parabéns minha menina — falou Adam animado quase gritando de felicidade.


— Menos pai…


— Desculpe. Por que não posso manifestar minha felicidade por ter uma filha incrível?


— Eu sei pai, mas a coisa é um pouco mais complicada. — Adam parou de comemorar e tomou mais um gole de cerveja e ficou de ouvidos atentos.


— Faz uma semana que enviei o artigo online e, hoje, recebi um e-mail dizendo que meu artigo está em análise por suspeita de plágio — falou Karen com tristeza na voz.


— Que absurdo! Como eles podem fazer uma coisa dessas com você?


— Eu também não sei, por isso chamei o senhor para abrir minha mente. Deve ter algo que não estou enxergando nisso tudo. — Agora foi a vez de Karen tomar um gole grande e logo em seguida pediu uma pilsen ao garçom.


— OK, minha filha. Vamos deixar os sentimentos de lado e colocar a cabeça no lugar — fez uma pausa como se estivesse pensando. — Quem teria interesse na não publicação de seu artigo? Pense…


Karen balançava a cabeça em sinal negativo. Não conseguia enxergar o motivo até que uma lâmpada acendeu sobre sua cabeça.


— Já sei! É óbvio… Como não pude perceber antes?


— Quem filha? Quem tem esse interesse?


— O Dr. Klaus e o Dr. Frans. Só podem ser eles — falou Karen em tom de triunfo.


— Que filhas da puta! — falou Adam batendo com a caneca de cerveja na mesa. — Desculpe!


— Se foram realmente eles, como posso fazer para reverter essa situação?


— Deixe que eu vou lá e falo umas boas verdades para esses dois — disse Adam enfurecido.

Karen riu.


— Agradeço o gesto, nobre cavaleiro, mas não pode resolver as coisas dessa maneira.


— Não posso? Claro que posso! E se eles não deixarem você publicar o artigo consigo socar a cara dos dois bem no nariz. Ainda lembro dos treinamentos de boxe que fiz na juventude.

— Pare pai. Essa não é a melhor saída. Eu vou lá amanhã falar com eles.


— Está bem filha. Mas sabe que eu faria tudo para defender a sua honra, não sabe?


— E o que tem isso a ver com a minha honra?


— Sei lá! Empolguei-me.


Continuaram a noite desfrutando da companhia um do outro. Jantaram e beberam muitas cervejas. Karen conseguiu clarear as ideias e traçou um plano. No dia seguinte colocaria em prática.

* * *

Nas primeiras horas da manhã, Karen foi ao instituto. Precisava falar com o Dr. Klaus e o Dr. Frans. Tinha certeza de que eram eles que a estavam acusando de plágio. E não demorou muito para encontrar os dois doutores reunidos na sala do Dr. Klaus.


— Bom dia! Doutores... Que bom que encontrei os dois juntos! Assim evito ter que repetir o que vou dizer.


— Bom dia! Como vai Dra. Karen? Em que podemos ajudá-la? — disse Dr. Klaus querendo parecer cordial.


— Quero que tirem a acusação de plágio sobre o meu artigo. Sabem muito bem que meu estudo é verdadeiro e não plagiei ninguém.


— Não sei do que você está falando… — disse Dr. Frans calmamente. — Você sabe de algo, Dr. Klaus?


— Também não sei — respondeu Dr. Klaus com a cara mais cínica do mundo.


— Pois bem! Se vocês querem brincar com minha paciência, vão em frente. O que eu quero dizer é que não vão me impedir de publicar o artigo. Eu não tenho culpa se a Bernadete não quis retornar para o instituto para continuar o tratamento. Vocês são dois velhos machistas que estão com medo que uma mulher, décadas mais jovem, possa publicar um trabalho à altura de um estudo dessa importância.


— Penso que a Dra. está um pouco descontrolada e acusando as pessoas erradas — respondeu Dr. Klaus.


— Tenho certeza de que não estou. — Os dois se entreolharam. Karen continuou. — Vou retornar ao meu consultório e entrar em contato com a revista e, espero que nesse meio tempo, vocês entrem em contato com o editor dizendo que se equivocaram.


Karen pegou suas coisas e caminhou em direção à saída.


— Dra. Karen, só um detalhe antes de ir. Sabe muito bem que nós estávamos preparando um trabalho sobre a Bernadete e íamos publicá-lo. Foi uma atitude antiética tentar publicar seu artigo como inédito — falou Dr. Klaus.


— Ah! Então é isso? Saiba que enquanto alguém tem alguma ideia ao redor do mundo, outras 400 pessoas tem a mesma ideia. E quem é o dono da ideia? Quem a divulgar primeiro. Por isso não me venha com esse papo de que meu artigo não é inédito. Ter a intenção de publicar não é o mesmo que publicar. Pelo que eu saiba vocês não publicaram nada sobre Bernadete e nem vão, sabem por quê? — Os dois se entreolharam confusos. — Por que vocês não concluíram o estudo e eu tive o privilégio de terminar o meu. Passar bem!


Dr. Frans ameaçou responder. Dr. Klaus fez sinal de que era para deixar para lá. Karen saiu pisando firme e satisfeita. Mesmo que suas palavras não surtissem efeito algum, falar tudo que estava engasgado na garganta a fez se sentir mais leve. Agora tinha que colocar em prática a segunda parte do seu plano.

* * *

Ao voltar para seu consultório, Karen elaborou um e-mail para a revista onde dizia:

Para The International Journal of Psychoanalysis

A/C do editor chefe,

Foi com muita surpresa que recebi a notícia do meu artigo estar sob julgamento por suspeita de plágio.

Meu artigo está sendo elaborado há anos e tenho todas as sessões de terapia gravadas para dar respaldo aos meus relatos.

Também sei que nenhum trabalho fora publicado até agora sobre o assunto, portanto, não podem considerar meu artigo um plágio.

A menos que a revista esteja protegendo os interesses de outras pessoas, não vejo motivo para tal acusação.

Entendo que meu artigo possa não ser tão interessante para essa renomada revista e, se esse for o caso, submeterei meu artigo às revistas inferiores que o aceitarão na hora, visto que meu artigo traz revelações surpreendentes sobre a psique humana.

Aguardo sua manifestação positiva o mais breve possível para que eu não envie meu artigo para revistas rivais.

Sendo só para o momento, agradeço a atenção dispensada.

Atenciosamente,

Dra. Karen Schmidt Klein.

Karen sabia que seu artigo era importante. Também sabia que as revistas pouco relevantes aceitariam seu artigo sem contestar, pois, careciam de conteúdo. Karen até podia dizer que o e-mail não foi uma ameaça, mas, no fundo, era sim e ela sabia disso. E estava preocupada? Nem um pouco. Aqueles dois velhotes não a iriam intimidar. Não iam mesmo — pensou.

* * *

O e-mail de Karen causou um alvoroço no editor chefe que tratou de ligar para o Dr. Klaus.


— Dr. Klaus, tudo bem com o senhor? — disse Joseph Becker com voz tímida.


— Não está nada bem. Aquela insolente da Dra. Karen veio aqui no instituto agora cedo e nos insultou. Agora é que você não poderá publicar o artigo dela. Recuse.


— É exatamente sobre isso que quero lhe falar… — Joseph respirou fundo. — Temo que não conseguirei impedir. Vou ter que publicar.


— Mas você não pode! — gritou Dr. Klaus do outro lado da linha. — Ela plagiou nosso trabalho. Você não pode aceitar um trabalho plagiado. Ficaria ruim para sua revista.


— Eu entendo sua preocupação Dr. Klaus. Mas temo que Karen tenha razão…


— Razão no quê, homem? Você está louco?


Joseph respirava fundo cada vez que o Dr. Klaus esbravejava ao telefone. Tinha muita influência no meio científico.


— Karen alega que só seria plágio se houvesse um trabalho publicado anteriormente ao dela com o mesmo teor, e eu e o senhor sabemos não haver. Apesar do Dr. ter um estudo feiro, não tem validade se não foi publicado. Além do mais, tomei a liberdade de fazer uma busca em ferramentas que detectam plágio e o artigo dela se mostrou original.


— Você só pode estar de brincadeira… Vai me dizer que aquela mulherzinha deixou você com as calças borradas? Eu não acredito…


— Dr. Klaus, exijo respeito. Sou um homem honrado, ético com moral ilibada. Não admito ser tratado dessa forma. Fiz muito em lhe ajudar por saber que fazia um estudo sobre o mesmo tema. Agora, impedir que a Dra. Karen publique um artigo tão bem fundamentado seria um enorme erro.


— Não é um erro. Recuse! — gritou Dr. Klaus novamente e mais alto que da outra vez.


— Dr. Klaus, se eu recusar ela enviará para outras revistas que publicarão imediatamente e aí não poderemos fazer mais nada. Não é a melhor ideia.


— E você por um acaso tem alguma ideia melhor? — Dr. Klaus baixou um pouco o tom da voz, mas ainda estava irado.


— Sim, eu tenho — disse Joseph tentando manter a calma.


— Então desembucha Joseph!


— Vamos fazer o seguinte: eu vou dizer para a Dra. Karen que vamos publicar o artigo, mas que ela deve aguardar análise de nossos revisores. Enquanto isso você e Dr. Frans enviam o artigo para outra revista, sugiro o “Psych Journal”. Enquanto eles não publicarem o seu artigo eu não libero o artigo da Dra. Karen. Dessa forma vocês terão uma vantagem. O que acha?


— Acho uma boa ideia — falou com voz tensa e tom de cinismo. — Vou mandar o artigo para a outra revista sim, mas você não vai publicar. Dirá a ela que o artigo dela é um plágio conforme comprovação pela revista "Psych Journal" que publicará meu artigo.


— Dr. Klaus, sabe que não posso fazer isso. Se Karen levar essa briga para os tribunais, vai provar que o artigo dela foi submetido antes do de vocês. Não vamos complicar as coisas. Todos ganham e vocês ainda ficam com a vantagem de publicar primeiro. No meio acadêmico vocês podem espalhar que ela plagiou.


— Joseph, eu sabia que era um frouxo, mas não sabia o quanto. Estou decepcionado com você.

— O senhor está decepcionado Dr. Klaus? Me faça um favor, esqueça o nome da nossa revista. Trate de publicar seu artigo incompleto em outra freguesia. Vou lhe dar uma semana de prazo e vou publicar o artigo da Dra. Karen. Tenho dignidade. Passar bem.


— Olha aqui seu… — Tudo que o Dr. Klaus ouviu foi o tu tu tu emitido pelo telefone que Joseph acabara de bater em sua cara.

* * *

Assim que desligou o telefone Joseph respondeu o e-mail de Karen dizendo que o artigo fora analisado e não fora constatado plágio. Era apenas para ela aguardar a revisão final e logo seria publicado. Karen ficou feliz demais e ligou para seu pai contando a novidade. Até pensou em comemorar. Depois pensou melhor e esperaria.


Do outro lado da cidade Dr. Klaus e Dr. Frans tiveram que se apressar em fechar o artigo para enviar para a revista Psych. Não estavam satisfeitos com a atitude de Joseph e praguejavam o tempo todo sobre a decisão de favorecer Karen. Não conseguiam enxergar o quanto Joseph os tinha ajudado.


Submeteram o trabalho em dois dias e pediram urgência na publicação do mesmo para o editor chefe que era também seu amigo. E o artigo foi publicado em tempo recorde, como Dr. Klaus e Frans pediram.


Karen estava em seu consultório navegando na internet quando recebeu uma mensagem de uma amiga: “Parabéns pelo artigo publicado. Mega orgulho da minha amiga querida”. Ela ficou extasiada e correu abrir o site da revista. E, em destaque, lá estava o artigo de Karen. A revista fizera o artigo dela como o principal, capa da revista. Abriu a revista em sua tela e foi conferir se mudaram algo. Após chegar no final ficou satisfeita, pois, publicaram na íntegra, sem uma alteração sequer. Mas uma coisa lhe incomodou.


Quando chegou na última página, o navegador que Karen usava colocou no final de seu artigo, uma chamada: textos relacionados. Ficou atenta para ver o que era e lá estava o artigo do Dr. Klaus e Dr. Frans. Eles publicaram na revista Psych. Karen ficou furiosa. Clicou no link e leu o trabalho deles. Comparou os dois e ficou satisfeita que seu artigo estava mais completo, pois teve mais tempo de estudo com Bernadete que eles. Só uma coisa a incomodava: o artigo do Dr. Klaus fora publicado antes. Dez minutos antes. Essa era a vantagem. Ela não gostou nem um pouco e pensou em reclamar com a revista. Aí parou e pensou: O que diria a eles? Ela não submetera o artigo para a Psych. Não poderia reclamar. Teve que apelar para um encontro com o Sr. Adam.


Do outro lado da cidade Dr. Klaus também não estava satisfeito. Seu artigo tinha saído como título secundário. Já o de Karen praticamente tomou a capa toda da revista. Passou a mão no telefone e ligou para Joseph.


— Bom dia! Dr. Joseph, por favor — pediu Dr. Klaus educadamente para a pessoa que atendeu a ligação.


— Sou eu. Em que posso ajudar?


— Dr. Klaus falando.


— Olá Dr. Klaus. Parabéns pelo seu artigo. Vi que ele saiu hoje na revista Psych. Um ótimo artigo — falou Joseph em tom sarcástico.


— Você me traiu. Disse-me que daria uma vantagem…


— E lhe dei. O seu artigo saiu antes do artigo da Dra. Karen. Pensei que ficaria satisfeito.


— Dez minutos? Chama isso de vantagem? — Gritava Dr. Klaus furioso.


— Depende da medida utilizada.


— Como assim? Está me gozando?


— Não. Claro que não. Raciocine comigo… Se comparar com uma hora cheia, podemos dizer que seu artigo tem 0,16h de vantagem, o que é muito pouco. Mas se comparar em segundos podemos dizer que tem 600 segundos de vantagem. Se a medida for em milésimo então a vantagem será enorme.


— Joseph, está me achando com cara de palhaço?


— De forma alguma. Tenho muito respeito pelos senhores e por isso segurei a publicação de Karen o máximo que pude. Passar bem.


— Você não pode desligar na minha cara nov… — Nem é preciso explicar o que aconteceu.


Dr. Klaus queria uma vantagem de pelo menos 15 dias. Dessa forma seu artigo repercutiria no mundo acadêmico e Karen poderia passar por plagiadora. Com a publicação praticamente simultânea, muitos leriam o de Karen primeiro e os plagiadores passariam a ser eles.


Joseph combinou com o editor da Psych que avisaria o momento exato da publicação do artigo online. Sua equipe deixou tudo pronto e bastou apertarem um botão para que o artigo de Karen estivesse online. Mesmo sendo avisado no exato instante, conseguiu cumprir a promessa de dianteira para o Dr. Klaus esperando 10 minutos. Para Joseph esses 600 segundos pareceram infinitos.

* * *

Karen se reuniu com o pai que a fez enxergar que foi um bom negócio. Com a publicação simultânea os Drs. Klaus e Frans não poderiam acusá-la de plágio. Mesmo assim Karen ficou chateada e aí Adam, brilhantemente deu uma sugestão: “A cada 6 meses, publique novos estudos sobre Bernadete. Envie para a 'The International Journal of Psychoanalysis' artigos complementares e inéditos. Duvido que eles não publiquem.”


A ideia de seu pai era fantástica. Karen agradeceu e teve uma noite feliz. Um pouco pelas cervejas, um pouco pela euforia.


Bernadete continuou aparecendo nas sessões mostrando outras personalidades diferentes. Karen a estudou com afinco e seguiu a sugestão de seu pai. Publicou artigos a cada 6 meses. Em pouco tempo o estudo do Dr. Klaus e Dr. Frans foi esquecido. Ninguém mais comentava. A nova sensação desse mundo restrito era Karen. Recebia convites com frequência para participar de palestras sobre o caso de Bernadete. Se tornou expert no assunto.


Do outro lado da cidade Dr. Klaus e Dr. Frans se arrependeram de travar batalha com Karen. Subestimaram a sua capacidade de análise. Se pudessem voltar atrás teriam sugerido de tratarem a paciente em conjunto. Devido ao egoísmo, quem colhera os louros fora Karen.


Munique encanta seus visitantes e protege seus filhos. Karen protege seus pacientes, dezenas deles: Helen, Bernadete, Mirtes, Sharon, Peter, Camile, Melissa, Wendy, Tessa, Allyson, Madeleine, Janine e outros mais. Cada dia é mais requisitada por novos pacientes que brigam por um horário em sua agenda. Mas ela é fiel à Bernadete e suas irmãs. Primeiro elas, se sobrar um tempinho atende os outros.


Ah! Ia me esquecendo… Karen agora tem um novo consultório. Uma sala de espera, uma secretária e a sala das sessões completamente adaptada para Bernadete e suas irmãs.



FIM


PAQUERA VIRTUAL

por Sidnei Capella

Naquela manhã fria e turbulenta, na sala de aula, os alunos do terceiro ano do ensino médio, tagarelavam sem controle, parecia um torneio na disputa de quem falava mais alto.


A ansiedade aflorava em cada um deles, alguns inquietos balançavam os pés sem parar, outros vidrados olhavam e teclavam na tela dos “smartphones”.


A desordem na sala de aula dos ansiosos jovens colegiais, terminou quando a professora de gramática entrou, colocando os materiais na mesa. Olhou para todos os lados do ambiente de aprendizado, coçou a cabeça com um olhar nada agradável, conectou o cabo do "datashow" no computador e com um grito fortemente avassalador, pediu silêncio.


─ Léo, acorda! Como você consegue dormir com está gritaria? ─ falou a educadora de gramática, despertando o aluno dorminhoco, que ergueu os braços para o alto se espreguiçando.


─ Qual é a página professora? ─ não entendendo o que estava acontecendo em sala de aula o rapaz soneca, perguntou para professora.


Os amigos do jovem dorminhoco iniciaram uma etapa de longas gargalhadas. A pedagoga sentindo a sua falta de ordem sobre a turma, soltou outro berro pedindo silêncio. O sonolento garoto estava em outra órbita, que desta vez, quase caiu da cadeira, assustado com o som agudo que a mestra educadora emitiu.


Uma colegial preocupada com o amigo dorminhoco, que era o centro das atenções, aproveitou o tempo do intervalo de aulas, para saber o motivo do sono descontrolado do jovem.


“Léo sempre foi um aluno exemplar, atento em sala de aula! O que está acontecendo? Descobrirei!” ─ pensou a amiga colegial.


─ Posso falar um minuto com você? ─ perguntou.


─ La vem você! ─ respondeu com os olhos quebrados, tentando se livrar da amiga de sala de aula. ─ Já sei o que você falará! É proibido dormir em sala de aula? ─ afirmou e perguntou o sonolento com atitude de deboche.


─ Moleque chato, estou tentando te ajudar! ─ retrucou a colegial preocupada. ─ Fica dormindo em sala de aula, depois pedirá para eu ajudar você nas matérias. ─ A amiga prestativa alertou o rapaz dorminhoco. ─ Não quero nem saber de nada, você dá os seus pulos para não ser reprovado.


No mesmo dia, ao terminar as aulas, voltou para a sua residência, pensativo e ansioso. Chegou, ligou o notebook e irritou-se, com a demora da conexão. Assim que conseguiu conectar, constatou que a paquera virtual não estava logada na rede. Mesmo percebendo a ausência da paquera virtual, o vício, fez com que o jovem obcecado navegasse no aplicativo a procura de novas paqueras, motivo este que estava tirando o sono do rapazola nas madrugadas.


“A garota virtual, está tirando o meu sono. Estou apaixonado, não a conheço pessoalmente! E se ela estiver me enganando?” ─ pensativo e ressabiado por não ter a encontrado na rede de namoros virtuais, o jovem desligou o computador caminhou em passos lentos e arcado pelo cansaço, entrou na sala de estar para almoçar.


Ao ver a senhora Lola, sentada na cadeira da mesa de jantar, aguardando-o para o almoço, o iludido da “internet”, com os olhos forçosamente esbugalhados, elevou os ombros com a intenção de disfarçar o cansaço. Mesmo assim a indisposição do garoto era notável e bastou sentar-se na cadeira para almoçar junto a mãe e foi recepcionado com um interrogatório contendo frases de preocupação.


─ Não adianta estufar o peito, estou vendo em seus olhos o cansaço! Você sempre foi um rapaz ativo e disposto, o que está acontecendo meu filho?


─ Mãe, não estou cansado, estou com fome! ─ respondeu o apaixonado virtual.


─ Marquei uma consulta médica para você! ─ Com o tom de voz elevado mostrando autoridade, Lola impôs para o filho a necessidade de um acompanhamento com um profissional de saúde.


Após o almoço, Léo terminou a sobremesa, e caminhou até o quarto. Antes de ligar o notebook, foi apanhado por um sono incontrolável. Ao encostar a cabeça no travesseiro sobre a cama, fechou os olhos e dormiu pesadamente, emitindo um som que saia da boca que, até o cachorro de estimação da família, saiu do quarto.


Com o pôr do sol, o ansioso da “internet”, acordou se espreguiçando, fixou os olhos na ponte da virtualidade e ansiosamente ligou o equipamento, desta vez com a presença da amada internauta logada, deslizou os dedos no teclado do computador e foi interagindo e trocando fotos. A interação do casal virtual mostrava o mesmo interesse, revelaram os nomes e trocaram números de WhatsApp e, empolgados, continuaram a conversar no aplicativo para “smartphones”, usando todos os recursos oferecidos pela plataforma de mensagens.


O jovem casal apaixonado, envolvidos pela energia do plano virtual, trocavam frases de juras de amor. O avanço na interatividade fez com que a inibição de ambos os lados fossem perdendo o efeito…


Se despediram da conversa e, empolgados, combinaram um encontro pessoalmente no próximo final de semana no centro comercial de entretenimento da cidade, prometendo um ao outro o afastamento das redes de encontros virtuais de relacionamentos, assumindo um provável namoro.


Após as noites mal dormidas, o jovem adolescente, naquele período de descanso, teve um repouso dos anjos. Acordou bem-disposto, efetuou os afazeres rotineiros no quarto e tomou café com a senhora Lola.


Após o dejejum, mãe e filho se trocaram e saíram em direção da clínica do médico amigo da família. O jovem e a mãe ao chegarem ao consultório, confirmaram a consulta no balcão de atendimento. Sentaram-se na sala de espera e, enquanto Lola mandou mensagens de áudio para o patrão, o filho trocou mensagens com a namorada virtual.


Não demorou muito tempo para o dorminhoco ser chamado que, ao escutar o seu nome, caminhou com o “smartphone” na mão, dividindo olhares com o visor do aparelho e com a porta de entrada do consultório. Com uma aparência de menos cansado entrou na sala do especialista clínico geral, considerado pelos pacientes como um psicólogo, por conversar calmamente e dar conselhos aos pacientes.


“Este médico maluco vai me encher de perguntas como sempre. Depois vai me receitar vitaminas. Mal sabe ele que o motivo do meu sono é uma linda garota que conheci no aplicativo de paquera” ─ pensou o rapazola olhando para o médico que estava de cabeça baixa efetuando anotações em blocos de receituários.


O senhor jaleco-branco terminou as anotações iniciando uma conversa com o jovem, perguntando o motivo da consulta médica. Para não prolongar e por conhecer o profissional de saúde, o jovem Léo não perdeu tempo e falou o motivo que o levava a dormir fora de hora.


Escutou o discurso do adolescente e com a caneta na mão, abaixou a cabeça, destacou uma folha do bloco de anotações e escreveu o endereço de um profissional psicólogo, informando o rapaz internauta em passar por um acompanhamento psicológico para tratar de um possível transtorno.


“Ele pensa que sou doido! Só queria arrumar uma namorada. Arrumei!” ─ matutou Léo olhando cinicamente para a fisionomia séria do jaleco-branco.


Antes de liberar o jovem da consulta, o doutor jaleco-branco receitou um medicamento vitamínico e esclareceu ao adolescente que a vitamina ajudaria no fortalecimento físico. Chamou a atenção do rapaz em tomar cuidado com o uso desequilibrado da “internet” e com os aplicativos de relacionamentos. Comparou o problema psicológico da filha com os mesmos sintomas do jovem internauta apaixonado e, falou que a sucessora herdeira faz tratamentos para controlar o uso abusivo das redes sociais.


─ Qual é o nome da garota que conheceu no aplicativo?


─ Carla!


─ É o nome da minha filha! ─ falou o médico. ─ Olha a foto dela.


Ao mostrar a foto, o garoto ansioso, esbugalhou os olhos e constatou que a garota do retrato no papel de parede do “smartphone” do médico camarada, era a mesma pessoa que o levou a perder noites de sono. Despediu-se do médico sem falar do recém-segredo e foi de encontro com a senhora Lola, que folheava diversas revistas e tomava vários copos de café, enquanto aguardava o filho.


Voltando para residência o jovem contou para a sua mãe referente a consulta e desabafou revelando sobre a timidez que o levou a explorar aplicativos de relacionamentos até conhecer Carla e marcar um encontro. Deixando Lola preocupada que, dirigindo o veículo de passeio se opôs diante do filho dizendo em acompanhá-lo no dia do encontro para garantir a sua segurança.


Ao cair da noite, os jovens virtuais fizeram uma chamada de vídeo, conversaram sobre os afazeres do dia e reforçaram o acordo do encontro. Envolvidos pelos mesmos desejos, trocaram palavras de intimidades idênticas aos casais apaixonado e, percebendo o desenrolar da conversa virtual e a força do envolvimento, o jovem internauta não contou para amada o segredo do possível sogro ser o médico que o atendeu na consulta. Ficou com receio da garota virtual se inibir diante da revelação e desistir do encontro e ele voltar para o estado de solidão e timidez tornando-se vulnerável e caindo na armadilha da insensatez do retorno aos aplicativos de relacionamentos, movimentado por uma força interna descontrolada.


Despediu-se da garota e desconectou a chamada de vídeo. O rapaz apaixonado, conforme prometido a sua amada, desligou os equipamentos que davam acesso à “internet” e dormiu com o pensamento… na musa virtual dona do seu amor.



FIM




NOSSOS COLUNISTAS


Luiz Primati, Alessandra Valle e Sidnei Capella.

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5 kommentarer


joanapereira.ft
joanapereira.ft
15. mai 2022

Queridos escritores! Que bom, que bom é ler-vos! Alessandra com os seus casos reais que nos deixam colados! O Luiz com o seu conto cheio de “bernardetes“ mas que deu uma reviravolta e o principal problema deixou de ser a Bernardete mas os seus medicos assistentes. Sidnei com uma história marcante da adolescência! Parabéns parabéns e parabéns!

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Luiz Primati
Luiz Primati
04. mai 2022

Alessandra tem um baú interminável de histórias e, infelizmente, todas espelham a realidade. É intrigante saber sobre o mundo obscuro que cerca o dia-a-dia de Alessandra e o mais intrigante é saber que nada é ficção. Sidnei novamente nos traz o mundo dos pré-adolescente/adolescente. São situações, muitas vezes que podemos achar bobas, que para os jovens parece algo sem solução. Parabéns Sidnei por nos trazer esse mundo.

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sidneicapella
sidneicapella
03. mai 2022

A capa do caderno, ficou sensacional! Alessandra, ao ler o conto, imaginei de como estas facções pensam que tem o poder e a clareza de julgar alguém? Lugar errado na hora errada. Triste! Luiz Parabéns, gostei do final do conto! O pai da Karen é gente boa!

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sidneicapella
sidneicapella
04. mai 2022
Svarer

Bingo!

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