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REFLEXÕES Nº 6 — 06/02/2022

Joana Rita Cruz, diretamente de Portugal. Ela nos traz a sua poesia sobre livros numa estante, e é muito mais profundo que isso. Terá que ler para descobrir. Laíse Leão, resolveu caminhar com os lobos, caçar com os ursos. O que a lua a inspirou a dizer? Nossas colunistas mais jovens, com 19 anos e 16, mostram o poder da palavra. É preciso refletir sobre o que essas jovens nos diz. Temos que nos despir de preconceitos e inverter a lógica, deixando de falar e passar a ouvir. "É no silêncio que ouvimos as maiores verdades".

Joana Pereira vem com um tema sobre SENTIR-SE ASSIMÉTRICO. Você já parou para refletir sobre isso? O que nos diferencia? O que nos aproxima? Alessandra Valle pede que tiremos um tempo para nossa espiritualidade, falando do AMOR. Regina Prado, sempre encantadora, valoriza a mulher, o ser-humano. Odilon questiona sobre as ruas e avenidas. E Arléte Creazzo fala de democracia. Ela existe? Para fechar o nosso Caderno de Reflexões, Rick Soares fala de Novo Hábitos, Velhos Costumes.

Leia, Reflita, Comente!


Imagem: Dreamstime



MULHER DE FIBRA


por Regina Prado


Perfume que envolve, enebria

Sorriso que cativa, encanta

Trejeitos e jeitos delicados

Olhar profundo de menina


Ante a madura inocência

Que os anos computaram

Nada a deixa amargurada

Sua vida é pura resiliência


Alegria terna, que contagia

De íntimo e essência verdadeira

Otimismo vigoroso, inquebrantável

Viver intenso, que cativa


Não faz tipo sequer comparação

Sincera no que diz, age e expressa

Tristezas, decepções, amarguras

Não modificam o que vai ao coração


Mulher de fibra, resoluta, inteligente

Dona de si, culta, destemida

Não se abala, o equilíbrio te acompanha

A Deus somente é reverente!



FALSA DEMOCRACIA


por Arléte Creazzo


Muito se falou e ainda se fala sobre democracia.


Exigimos dos governantes, mas quando se trata do povo a história muda.


Hoje vivemos em um mundo que se tornou possessivo.


Se você não pensa como eu, então é meu inimigo.


Todos querem liberdade, mas não dão liberdade de escolhas.


Se você deixar de gostar de alguém, simplesmente por ser uma pessoa totalmente irritante, encontrarão uma forma de proibi-lo.


Você será acusado de homofóbico, racista, esquerdista, direitista, pessimista, não importa o título que receberá, você não poderá ter opinião própria.


Engraçado que as pessoas que mais levantam a bandeira da liberdade, são em geral (eu disse, em geral, não disse todas), as que te proíbem de ter opinião própria.


Qualquer pensamento contrário ao dessas pessoas, você se torna um inimigo.

Amigos perdem amizade, vizinhos não dão mais "bom dia!", e parentes então, estes são os piores, já que laços consanguíneos de nada valem.


Para não perder uma amizade, você mente, finge que não votou, que não falou, que não pensou.


Mas e aquela amizade verdadeira, de pessoas com opiniões contrárias e se respeitam mesmo assim?


A amizade de que você pode chegar para o outro e dizer:


— Eu já provei este doce e achei horrível. Mas se você nunca provou, deve experimentar, afinal os paladares são diferentes.


Realmente pode ser que a pessoa não goste do doce ou lhe faça mal. Ou ela prove, e acredite que aquele é o doce mais delicioso que já provou.


Nós mesmos, ao longo dos anos, mudamos nosso paladar. Alimentos que não gostávamos na infância, passam muitas vezes a ser nossos preferidos.


Opiniões também mudam. A pessoa que eu achava totalmente irritante, e não me permitia conhecê-la melhor, poderá com o tempo se tornar minha melhor amiga.


É preciso tempo e respeito, para que aos poucos, tudo vá se encaixando.


Não somos um quebra-cabeça, onde todas as peças se encaixam de forma perfeita, com seus respectivos lugares, onde nada pode ser alterado.


Estamos mais para um jogo de lego, onde as peças podem ser alteradas, para que juntas no final, construam a forma mais correta.



RUAS


por Odilon Azevedo Filho


As ruas nem sequer lembram os mortos

quase ninguém pensa nisso.

Por elas todos passam

quase ninguém passa disso.

Nas avenidas estão os maiores

e maiores são quantos passam por elas.

Não existem nomes de gente nas cidades.

As cidades imitam os lugares que seriam da gente.

Mas não são.




CAOS UIVANTE


por Laíse Leão


Lobos uivam

Ao meu ouvido,

Ao longe vejo o zunir,

De perto sinto o frio


A noite clara

Como a lua,

Se afaste,

Loucuras


Pela manhã,

Caço com os ursos

Sem raízes,

Desmancho-me


Nem mesmo

A melhor bússola,

Seria capaz

De me guiar


Selvagem

Entre folhas,

Secas e molhadas,

Cortes, navalhas


Lucidez

É para loucos,

Rastros

Tortos


Aos poucos

Vi-me caindo,

Chocando contra as pedras

Um filme, uma peça


Mentiras

Aflitas,

Qual o nexo do assunto?

Antissemitas


Passos largos

Para fugir de mim,

Já não há o que esconder,

O caos é o fim.




COM DEUS


por Luiz Primati


Quando eu quero orar,

fecho os olhos e o faço.

Mas quando quero falar com Deus,

Eu escrevo. Só escrevo.




SENTIR ASSIMETRICAMENTE


por Joana Pereira IG: @temjuizo_joana


Aqui toda a gente sente que não faz parte, que não integra todos os padrões obrigatoriamente,

Sem um atalho em tom de excepção.

Pelos pingos da chuva seguimos disfarçados de uma normalidade que não existe.

Fizeram coleções de paradigmas em modelos assintomáticos, galgando a concepção do sentir.

Mas,

Aqui toda a gente sente

E toda a gente pressente que existe segundo desigualdades sensoriais,

São as assimetrias que nos tornam especiais.

Como podemos fazer parte

se à parte somos desiguais?

Inventaram o normal,

sem se darem conta que fora dele

se faz arte.

O corriqueiro jamais ostenta

Ou faz brilhar,

São as diferenças no que a gente sente que se revertem a seres excepcionais.

Estes que, pelos pingos da chuva,

Se ajustam na colectividade

De um normal inventado

Mas que em mil chuvas se descobre

Que a arte se faz no molhado.

Aqui toda a gente sente

As excepções que intersectam cada ser,

Não se desviem dos pingos!

Deixem-se molhar!

Mostrem as excepções de que são feitos,

Acomodados numa sociedade desarmónica,

Entre o dia e a noite,

A arte passará a ser a essência que se respira

Aqui toda a gente sente

Que é no sentir que o mundo gira.




AMOR


por Alessandra Valle


Quem amo?


Naquela época, os fariseus eram homens importantes, pois eram considerados conhecedores das Leis divinas. Eles ouviram Jesus falar sobre Deus e na tentativa de desmascará-lo, fizeram-lhe uma pergunta, julgando que Jesus não saberia o que responder.


Eles pediram para Jesus falar qual era o mais importante dentre os mandamentos da Lei de Deus.


O Mestre respondeu de forma inteligente, pois afirmou que seriam dois os maiores e mais importantes mandamentos:


– Amarás o teu Deus de todo o teu coração, de toda tua alma e de todo o teu espírito; este o maior e o primeiro mandamento – disse Jesus.


E continuou dizendo que temos o segundo mandamento:


– Amarás o teu próximo como a ti mesmo.


E os fariseus que interpelaram Jesus se puseram a refletir, pois, não tiveram mais perguntas capciosas a serem direcionadas ao Divino Amigo.


Eu também silenciei minha voz para refletir, mas minha consciência não descansa, está viva, buscando o autoconhecimento e ser melhor a cada dia.


Ouvindo os dois maiores mandamentos que Jesus nos ensinou algumas perguntas ecoaram dentro de mim:


Como demonstro amor a Deus? Considero todos os seres da Criação tão importantes quanto eu? Em quais circunstâncias me desrespeito? Que atitudes considero como auto-amor?


As respostas não precisam ser anunciadas, mas tão somente refletidas por aqueles que estão dispostos a se autoconhecerem. A mudança é de dentro para fora e será sempre para melhor quando temos por base o amor, a justiça e a caridade.


No ensinamento de hoje, Jesus nos orienta a amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.


Se agirmos dessa forma vamos fazer aos outros somente aquilo que gostaríamos que os outros nos fizesse.


E para colocar em prática o amor a Deus, devemos amar suas criaturas, todos nós.


Fontes de consulta:

Evangelho de Mateus 22:37, Marcos 12:30 e Lucas 10:27.

O Evangelho segundo o Espiritismo – Cap X, 11, 12 e 13. Cap XVII, Sede perfeitos.

Boa nova – Chico Xavier, pelo espírito de Humberto de Campos.



DO QUE ESTAMOS NOS ALIMENTANDO?


por Rick Soares


Talvez seja um mau costume que herdei de meu pai: ler enquanto estou almoçando ou jantando. Ele costumava ler revistas em quadrinhos, Turma da Mônica, Tex, Tio Patinhas, etc. A posição em que ficava era sempre a mesma: sentava-se à mesa com o prato bem à sua frente, uma revistinha ao lado do prato, a mão esquerda com o punho cerrado apoiado na mesa e o cotovelo para cima. A cada colherada dava a olhadinha para o lado, este era o tempo de leitura enquanto mastigava a comida.


Comecei lendo gibis também quando criança e apesar de sempre termos escutado que a hora da refeição era sagrada, não era repreendido pela minha mãe por esse costume.


Os tempos mudaram e com o avanço da tecnologia as revistas em quadrinhos viraram itens de coleção. Tudo hoje é digital! A leitura é digital. E o efeito causado, dependendo do conteúdo que se está lendo e de quanto tempo você fica exposto a isso, pode ser desconcertante. Hoje em dia, durante a refeição continuo lendo e geralmente abro as redes sociais intercalando curtidas, comentários e respostas entre cada colherada.


Estes dias, minha mãe e eu estávamos almoçando. Eu estava com o celular sobre a mesa à minha frente e a minha refeição ao lado. Por uma brincadeira, refiz a mesma posição que meu pai ficava à mesa e perguntei se ela lembrava. Certamente, ela disse que sim, mas fez uma ressalva:


– Porém o teu pai deixava o gibi de lado e não o prato de comida!




ESTANTES MAL ORGANIZADAS


por Joana Rita Cruz


A poesia é um opúsculo

Numa comum livraria

Secção pequena ensombrada

Até pela fantasia ultrapassada.


É um cantinho na estante

De livros pequenos

Com frases bonitas

Sublinhadas e esquecidas.


Os versos são brancos

Na verdade, são frases

Política, técnica até publicidade

Cada gênero prefere a sociedade.


Os sentimentos são estudados

Enquadrados na psicologia

Mas não enriquecidos

Com as figuras estilosas da poesia.


Há personagens fortes

Amados e odiados

Mas épicos?

Os leitores estão cépticos.


Pois, lenda só versada

Epopeia vem de poema

Vida é um dilema

E história em estrofe é magia.


A poesia é um opúsculo no mundo

Uma obra pequenina

Sobre arte sobre ciência sobre tudo

Por isso é arrumada errado.


Tiremos as obras do cantinho

Do crepúsculo das estantes

Exponhamos os poemas na secção

Das novidades mais exuberantes.


Que se deia um eclipse

Das bibliotecas.


Camões, Drummond, Sebastião da Gama

Quintana, Pessoa, Florbela Espanca

Régio, Sophia de Mello Breyner, Lispector

Meireles, Cora Coralina e Bandeira.


Que sejam a primeira fila

A estante à entrada da livraria

A secção mais bem iluminada

De qualquer bibliotecazinha.


Imediatamente acima

Que os sonetos atuais

Se acomodem

Que as aldravias forma tomem.


Que o amador contemporâneo

Se encontre entre a magia

Que retirado do beco

Seja toda e qualquer atual poesia.


Enchamos o mundo deste

Gênero literário

Que dá aos sentimentos vida

E à dor um recado (de resiliência).




CHARGE

Charge: Carlos Latuff




NOSSOS COLUNISTAS


Da esquerda para a direita: Arléte Creazzo, Alessandra Valle, Regina Prado. Depois Laíse Leão, Luiz Primati, Rick Soares. Nossos últimos colunistas: Odilon Azevedo Filho, Joana Pereira e Joana Rita Cruz.

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1 Comment


Amando a participação de pessoas que têm muito a dizer (no caso escrever). Os textos são lindos. Ideias colocadas no papel, para que todos possam pensar.

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