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CRIATURAS NOTÍVAGA(S) Nº 8 — 04/05/2022

Mais um conto da série, escrito por Carlos Palmito. Esse conto é a continuação do conto anterior e o final, nem preciso dizer.


Leia, Reflita, Comente!


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O ENCANTO DA SEREIA


por Carlos Palmito


Zangado, depois do medo e do pânico, após o odor acre da pólvora se ter desvanecido, quando o eco do disparo já não lhe ressoava nos ouvidos numa dor agonizante, o único sentimento que subsistiu foi… a fúria.


Contemplou estupefacto o quadro dantesco na sua frente.


Três corpos inertes numa cama pintada a sangue, que escorria para o chão, para a carpete azul, como se quisesse fugir do espetáculo doentio da selvajaria humana.


Esta mesma demência escarlate tingia as paredes, a mesinha de cabeceira, até, inclusivamente, o próprio teto; iria mais longe, quem sabe inclusive à moradia dos deuses, caso não existisse betão a trancar a conspurcada toca de Alice.


Dispersos aleatoriamente no soalho, reluziam botões, estrelas resplandecentes numa constelação por descobrir. Tinham sido rasgados da camisa que servia de amarras à beleza corpórea de uma deusa cujo tempo mundano findou.


Mais afastado, junto à entrada, encontrava-se um quadro tombado, nele Hemera sorria por entre os raios de um sol desconhecido, onde era manhã e a noite houvera terminado; o dia aparentava ser uma criança, uma imagem cativa apenas numa tela, que jamais germinaria nesta cidade de escuridão e pecado.


Dirigiu-se à porta e deixou o quarto, do mesmo jeito que um rato abandona um navio prestes a naufragar, entrou no elevador com a sua eterna música que já ninguém escuta, pressionou o botão do rés de chão, precisava pensar, necessitava de refletir sobre o que fazer a seguir, de como se livrar do temporal que se aproximava.


Do lado de fora deste castelo de areia, a lua continuava cheia, lembrando a chama no archote de um celestial. As nuvens tinham desaparecido, deixando unicamente a reminiscência da sua existência na lama e lodo de um mundo em declínio.


Sentou-se atrás da sua secretária, na segurança falaciosa de uma caravela atirada à fúria das velhas divindades marítimas.


Olhou para o monitor à sua esquerda, nele lia-se “Andreia Nunes, quarto 303”. Ponderou, até que se decidiu, e com o premir de um botão eliminou a sua existência no mundo eletrônico daquela noite.


Daí virou a atenção para o telefone no lado direito, junto a uma garrafa de água tombada, levantou o auscultador, marcou nove dígitos e aguardou, ao terceiro toque desligou, refletiu um pouco, talvez para se recordar de algo que se lhe escapava da mente, sorriu e levantou de novo o auscultador, pressionou a tecla de remarcar, e desligou ao segundo toque.


Fechou então os olhos, passando com os dedos pelos últimos vestígios de cabelo que existiam na sua nuca quase calva, mal quinze minutos passaram e o seu pager gritou, emitiu o som que aguardava ansioso. A cavalaria vinha a caminho.


Vinte minutos depois, a porta de entrada escancarou-se. Do lado de fora deste castelo construído sobre cartas e fantasmas, o vento parecia ter serenado, talvez um bom presságio, quiçá o final do pesadelo.


Uma silhueta feminina adentrou na magnificência do hall de entrada, em passadas firmes, até ao balcão.


Raul olhava-a, com deslumbramento, o mesmo com que sempre a observou, hipnotizado por todas as curvas, mesmo agora, quase a tornar-se mãe, esta mulher que lhe roubou a alma no primeiro embate de olhos, continuava a ser tanto sedução como perdição.


— Que aconteceu Raul? — perguntou-lhe. — Por que usaste o código?


— Anda comigo, Yuliya — respondeu ele de pronto, saindo de trás do leme da sua caravela em queda livre nos abismos existentes na fronteira final do mundo. — Penso que é mais fácil perceberes a situação se a vires.


Ela nada respondeu, simplesmente segui-o. O seu cavaleiro calvo sem armadura nem espada, “três toques, dois toques, larga tudo e vem ter comigo de imediato”, montaram-se na garupa do dragão metálico que os transportou entre andares, para no terceiro entrarem finalmente no leito da ruína.


O interior estava iluminado por uma eletrizante estrela factícia, que Raul se esquecera de desligar, e pelo luar da lua que se quer sempre cheia.


Yuliya estancou na entrada, estarrecida com a nefasta pintura que se apresentava ante os seus olhos cerúleos; na sua mente, uma caótica orquestra esquizofrénica começou a bramir sons que se sobrepunham uns aos outros, vozes que insistiam em serem ouvidas.


— Mas… — conseguiu sussurrar, acima das vozes alucinantes, enquanto caminhava com cautela na direção da cama escarlate, sentindo um pontapé no ventre de um ser ainda por nascer. — É o Presidente da Câmara.


— Sim, é ele — aquiesceu o calvo cavaleiro. — E a mulher! — Raul acenou em concordância perante a afirmação. — E também a assistente. Porra, que raios aconteceu aqui?


Raul observava as duas semideusas e o lobo-mal estendidos numa cama de espinhos, imortalizados no derradeiro adormecer.

— Deixa-me adivinhar — voltou a futura mãe da candura. — Andreia apanhou finalmente o porco do marido na cama com a assistente, passou-se da cabeça, matou-os, suicidando-se de seguida.


— Não foi bem isso — replicou o homem, começando a descrever-lhe o sucedido.


A cada palavra dita, a face de Yuliya ia ostentando cada vez mais e mais incredibilidade; conhecia a cidade, sabia da loucura que se abatia sobre a mesma, e da selvajaria dos que lá habitam. Conhecia a malícia do homem no mais recôndito canto do seu corpo, mas aqui, este descontrolo absoluto, estava estarrecida.


— A Andreia e a Filipa enroladas? — questionou ainda em dúvida. — A sério?


— Sim, Yu, elas eram clientes habituais, tal como a Filipa e ele — coçou o cocuruto. — Agora que penso no assunto, nem sei quem é que andou enrolado com quem por mais tempo.


— Raul, por que me chamaste a mim em vez da polícia?


No exterior, para além dos portões da demência, longe das muralhas desta fortaleza comandada por um timoneiro sem couraça nem lâmina, a lua brilhava, o mundo era amarelo, a loucura permanente, e as sarjetas atoladas em ratos com cara de homens, o vento estava calmo, Éolo parecia neste momento um velho cansado de uma vida de correrias.


— A polícia, Yu? — indagou, com o olhar aprisionado na pulcritude facial da sua esposa. — Temos três dias para iniciar o evento mensal, o quarto andar já tem clientes para o leilão, e as peças, das quais tu já foste uma, estão no quinto andar…


Esta simples frase, a resposta em si, e na complementaridade da mesma, trouxe-lhe memórias suprimidas, recordações que tinha optado por esquecer, de quando o seu corpo era vendido entre quatro paredes, estas mesmas onde agora estava, longe dos olhares do mundo.


***


A voz esganiçada e excitada do leiloeiro, atualmente um dos pilares do castelo, a apontar-lhe com o martelo, olhando para o público em delírio.


— E agora, temos este belo pedaço de carne, será de quem der mais, já viram um corpo mais delicioso? Estarei a ouvir mil? Mil e quinhentos? Quem dá mais? Será vossa, inteiramente, por uma noite inteira onde vale tudo menos matar… e marcar permanentemente.

Um arrepio correu-lhe o corpo, uma raiva a brotar do fundo da sua alma, enquanto se lembrava de estar nua, numa caixa de grades, como um animal a ser examinado para procriação, pela escória da alta sociedade, os colarinhos brancos que são aplaudidos pela sua integridade, homens de família… a honradez dos pedaços de estrume que mandam neste tão belo jardim de excrementos.


***


— Tens razão, a polícia ia dar asneira — respondeu, mudando o olhar para a cama, encarando o trio. — Mas, amor, se virmos bem, isto até nos é favorável.


— Favorável? — duvidou ele, examinando a miscelânea na sua frente. — Como assim?


— O Omar era o único que sabia o que está lá embaixo, enterrado nas fundações deste hotel, não era? Morto já não te vai conseguir chantagear mais. Poderemos dizer que é o fim de uma velha parceria, e nem tivemos que ser nós.


***


Raul franziu o sobrolho, enquanto fantasmas do passado lhe começaram a assombrar a mente, as noites em que as raparigas chegavam, eram imediatamente levadas para o quinto andar onde permaneciam até ao leilão, lembrava-se da satisfação do dono do hotel, dos cumprimentos atrás de falsos sorrisos aos mandachuvas da cidade.


Depois lembrou-se da chegada dela, de se perder no oceano existente em seu olhar, nas curvas do corpo, sempre foi um misto de paixão e ruína, um marinheiro perdido no cântico de uma sereia.


Nessa noite, pela primeira vez na sua vida importou-se com alguém, alguém que lhe retribui o olhar com o mesmo sentimento lá encarcerado, a completitude de uma alma dividida entre dois corpos.


Falou com o patrão, perguntou-lhe quanto precisava pagar para a liberdade da deusa que tinha acabado de entrar na sua vida, acertaram um preço. Ainda se rememora de ter levantado as poupanças de uma vida de trabalho, e ter pago.


Depois vem-lhe à anamnese o riso belzebútico do leiloeiro, dono de um castelo de cartas, apontando-lhe o martelo de Thor, com apenas escárnio no rosto.


— Achas mesmo que te a vendia, meu merdas? Quanto achas que vale uma sereia?


E Raul soprou, suflou sobre esse castelo decadente, todas as cartas voaram ao infinito, elevadas para lá do hospício cósmico onde a cidade da noite eterna se mantinha aprisionada.


A última memória que tem, é de ver o cadáver do demónio com o cabo de Mjolnir enfiado na garganta, e o olhar vítreo a contemplar as moscas no teto… geralmente elas são atraídas por merda.


Daí, a próxima recordação é de ver Omar entrar descontraído pela porta, o gigantesco homem, futuro presidente desta cidade sem sol, adentrar no escritório sem bater, como se de um velho amigo daquele Belzebu engolidor de martelos se tratasse.


Escancarou os olhos quando vislumbrou o leiloeiro, mirou o rececionista, e voltou a fitar a tentativa de homem com um martelo na boca, salivando sangue negro pelos cantos dos finos lábios, caso alguma vez aquilo tivessem sido lábios.


Sorriu, perante a perplexidade de Raul.


— Tu e eu temos assuntos para tratar, meu caro — disse amenamente para um Raul aterrorizado. — Para já, ajudo-te a livrares desta barata — apontou para o leiloeiro sem nome. — Depois falaremos de negócios.


Transportaram nessa noite algo que se assemelhava a um ser humano para a cave do hotel, na seguinte abriram uma cova, um rasgo no chão da decadência, e atiraram-no para lá, sem pressas nem preces, cimentando-o de imediato.


— Eu escondo tudo isto Raul, és Raul, não és? — perguntou-lhe o colosso enquanto limpava as mãos dos vestígios de cimento.


Na ausência de resposta, o ser herculano continuou.


— Mas tudo tem um preço, sabes? — Raul, assentiu. — O preço aqui é não parares o negócio, ele continua, e eu vou querer uma parcela.


— Posso ficar com a Yuliya?


— Quem?


— A de olhos azuis, ruiva? Concordo se puder ficar com ela — foi aqui que Raul vendeu a sua alma a troco de uma sereia. — Caso contrário podes chamar as autoridades.


***


— Tens razão, Yu, isto é a libertação para nós! — aproximou-se dela, beijando-a levemente na face, perante o olhar atento dos espíritos passados e futuros. — Ajuda-me, vamos levar estes três para a cave, vão ser vizinhos do monstro que lá habita, vão partilhar o mesmo inferno.


Ela assentiu, por detrás dos seus olhos azuis; via ali a possibilidade de emancipação dos dois amantes, de eles mesmos, um marujo sem rum e uma sereia quase sem voz. Poderiam fugir da noite, da decomposição cadavérica desta metrópole desprovida de sol e sentimento.

Cândida haveria de nascer longe, o mundo necessita de candura, mas este está para lá da possibilidade de salvação.


Enrolaram os corpos na carpete tingida de morte, juntaram-lhe botões, camisas esfarrapadas, a pistola, a cápsula da bala, enovelaram todos os vestígios existenciais do lobo e as suas duas amantes, arrastaram essa mortalha improvisada até ao elevador, o perigo era inexistente, nos dias antecedentes ao leilão, ninguém deambulava pelos corredores.


Desceram até ao piso da cave, abaixo do rés-de-chão, onde arrojaram os corpos até junto da escada, para os abandonar no local mais recôndito do hotel.


Abriram a mortalha, atiraram as semideusas, uma de cada vez, para a poeira sideral da base da cave, junto das máquinas que rugem na perpetuidade das suas engrenagens, seria ao lado dessa sinfonia caótica que elas seriam sepultadas para o esquecimento.


Por último, arrastaram Omar, o Gigante de 150 kilos, até à beira do precipício, para o lançarem em direção ao seu inferno particular. No exato momento em que o impulsionaram, este retornou à vida num espasmo muscular, cravando as garras na perna de Yulyia.


Ela foi impelida para o mesmo abismo que o extraordinário Hércules, caindo na escuridão, perante o olhar assombrado de Raul. Gritou uma única vez.


O homem calvo saltou os quinze degraus num único pulo, ajoelhou-se ao lado da sua sereia, a mulher pela qual vendeu a alma.


A perna esquerda dela estava dilacerada, o osso tinha-lhe rompido carne e pele, o braço direito estava pendido, muito provavelmente fora do local pela clavícula.


Debaixo dela encontrava-se o majestoso lobo, com a cabeça virada para além da possibilidade de nova ressurreição.


O peito dela movia-se, lentamente, Raul suspirou, estava viva.


Pegou-lhe ao colo, retesando ao máximo os seus músculos, subiu a custo os quinze degraus, entrou no elevador em direção ao piso térreo, não podia chamar ambulância, iam fazer demasiadas perguntas.


Transportou-a para fora, para a lua que tudo testemunha nesta tentativa de cidade, abriu a custo a porta traseira do seu Audi, onde a colocou carinhosamente.


Ela gemia no seu desmaio. (Podem as pessoas desmaiadas sonhar? Ter dores?)


Eram exatamente quatro da manhã quando travou a fundo na entrada do hospital, saiu do carro a correr, entrou direto no hospital que se encontrava apinhado de gente, muitos deles, vítimas do acidente na autoestrada, viu uma médica de cabelos pretos a andar por entre todas aquelas pessoas.


— Doutora, doutora, a minha esposa... preciso de ajuda.




AUTOR

Carlos Palmito

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4 Comments


dittrich.eclair
dittrich.eclair
May 04, 2022

Me sinto como uma arqueóloga, vou lendo, escavando ....e descobrindo as mirabolantes artimanhas desta caneta nervosa....ops autor construtor suas teias👏👏👏 parabéns Carlos 🤗

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sidneicapella
sidneicapella
May 04, 2022

Carlos viajo nos seus contos! É uma viagem que me leva a ler até o final. Não sei dizer, se pessoas desmaiadas sonham ou sente dores! Fiquei curioso? Parabéns!

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Luiz Primati
Luiz Primati
May 04, 2022

Carlos, com tantas continuações desse conto, já virou uma novela e daqui a pouco, um romance. Está ficando cada vez melhor. Esse livro pode virar um best-seller! Parabéns!

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Carlos Palmito
Carlos Palmito
May 04, 2022
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Cidade ainda em construção, tenho mais tópicos para tocar :P muitos mais, hehe Obrigado pelo elogio, Luiz

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