CRIATURAS NOTÍVAGA(S) Nº 7 — 27/04/2022

Mais um conto da série, escrito por Carlos Palmito. Esse conto é a continuação do conto anterior e o final é surpreendente. Escrito como se fosse um roteiro para cinema, o conto dessa semana fará o leitor viajar pela cena, sentindo-se nela.


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ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE


por Carlos Palmito

IG: @c.palmito

“… hospedagem do ano, o exuberante Hotel Centurino oferece aos seus hóspedes uma das mais belas vistas sobre a cidade, proporcionando momentos únicos de prazer…”

Raúl deliciava-se a ler a homenagem ao albergue, sorrindo; a vida corria-lhe bem, tinha uma filha para nascer, os demónios do passado estavam enterrados nas fundações do próprio edifício, e o futuro parecia promissor.


No exterior, para lá das muralhas deste imponente castelo sem rei, aparentava existir uma batalha campal desenhada na cabeça de um criador bipolar; tão rápido o vento uivava e bradava em fúria, acompanhado pelas chuvas torrenciais de uma qualquer existência celestial, como os deuses se calavam, em tudo se assemelhando às vozes na cabeça de um esquizofrénico.


No interior, tudo era diferente, díspar, desigual. A temperatura mantinha-se amena, em contraste com a gélida escuridão para além da fronteira artificial criada pelo homem, a luz amarela reluzia em cantos estratégicos, concedendo uma altivez digna da realeza ao hall, e o perfume de rosas inundava o mundo, acalentando até a mais pútrida lixeira.


Abstraído desses mundos, das guerras entre divindades e da escuridão eterna, dos perfumes de flores mortas e ambientes temperados, continuava o homem de meia-idade, do lado de lá da receção, olhos fixos no jornal e a mente na filha por nascer… Cândida, que é do que o mundo precisa, de candura.


Não se apercebeu da abertura das portas do palácio real, nem tão pouco do gelo que penetrou no casulo dos deuses, não ouviu os passos apressados a ressoarem no hall das deidades esquecidas em direção à sua secretária.


— Raul, Raul?


Despertou dos pensamentos, as palavras no jornal tornaram-se ilegíveis, e a memória da criança por nascer esfiapou-se em névoa.


— Raul — novamente o seu nome em repetição como num disco riscado. — Acorda pá, preciso de ti.


Piscou os olhos, contemplando a sombra na sua frente, estaria a dormir? Reconhecia-lhe a voz. Seria um pesadelo?


— Levanta o rabo da puta da cadeira e ajuda-me.


Esbugalhou os olhos, reconheceu-o finalmente, só podia mesmo ser um pesadelo, levantou-se num ápice, derrubando a garrafa de água com o jornal, não se importou.


— Senhor Omar, a que devo… — foi interrompido.


— Deixa-te de merdas — replicou o Homem de sobretudo negro na sua frente. — Onde está a minha mulher?


— A sua mulher? — foi apanhado de surpresa, não esperava esta pergunta, não da pessoa na sua frente.


— Sim, ou ela, ou a minha assistente, uma das duas reservou um quarto aqui, qual é o número?


— Mas senhor Omar, ela não… — interrompido de novo.


— Nem te atrevas a mentir-me, Raul. — O careca por detrás do balcão encolheu-se. — A Andreia telefonou-me daqui — raiva nos olhos do gigante de casacão preto. — Sendo assim, pensa bem no que me vais dizer a seguir.


Raul sentiu-se reduzir a um mísero verme perante o Colosso na sua frente. Desviou os olhos na direção do ecrã que estava na sua esquerda, a água continuava a pingar o chão, e Éolos berrava no exterior como um cão de caça.


— Um momento, senhor Omar — pressionou várias teclas, e teve um compasso de espera até o resultado surgir no monitor. — Quarto 303, terceiro andar à esquerda do elevador.


— Pega na chave mestra e vamos, não temos tempo a perder.


Outro cliente qualquer e Raul fincaria o pé, mas não com este, pegou na chave que se situava na segunda gaveta, e correu desesperado atrás do descomunal ser, que já estava a chegar ao elevador.


Entraram, pressionaram o botão, e este iniciou a sua ascensão em direção ao desconhecido, ao céu ou inferno, dependeria do que o demónio de sobretudo negro como a noite quisesse da sua esposa.


Mal o ascensor estagnou, e após a infinidade de tempo que demorou a abrir as portas, Omar empurrou o atarracado ser de meia-idade na sua frente, até junto da fatídica porta.

Raul tentou abrir a porta, mas as mãos tremiam-lhe, só podia mesmo ser um pesadelo, deixou cair a chave uma vez, ainda estava lá em baixo, na receção, babava em cima do teclado com a água derramada ao seu lado, enquanto tinha sonhos eróticos com a sua amada.


Irritado e impaciente, o homem que era imenso, arrebatou a chave das mãos do ser redondo e pequeno, daquele inútil parasita que lhe estava a roubar precioso tempo.


Inseriu-a na fechadura e rodou, ouviu-a destrancar-se, girou a maçaneta, abriu-a, entrou arrastando consigo a pequenez humana que se fazia passar por rececionista de um castelo de cartas.


Uma vez na toca de Alice, que se encontrava na escuridão, foram inundados pelo cheiro de erva, todo o quarto tresandava a isso, como o perfume maquiavélico de um agarrado, a um canto brilhava a ponta incandescente de um charro na boca do vulto que lá se encontrava.


Omar tateou a parede, em busca do botão assassino de Nix, encontrou-o, pressionou-o concedendo ao local um sol falso proveniente da estrela elétrica de uma qualquer companhia.

No canto do quarto, sentada num cadeirão com os joelhos puxados até ao peito estava Andreia. Tinha uma ganza segura na mão esquerda, e o olhar cravado na cama, onde se encontrava Filipa, nua, com exceção do cachecol assassino a envolver-lhe o pescoço, que descia até à púbis, ocultando-lhe os seios nessa descensão.


Raul fitava a cena perplexo, tentava visualizar a respiração no peito da caracoizinhos doirados, mas nada se mexia lá, era um invólucro vazio, de onde a alma já tinha partido, um pequeno recipiente vazo de essência.


Por seu lado, Omar estava incrédulo, os seus olhos negros como Érebo, contemplavam o cenário na completude.


Via o corpo alvo de Filipa imóvel na nudez de uma cama primordial, com as mãos atadas por uma camisa chacinada à cabeceira da perdição. Depois desviava-os para a sua esposa, até que a morte os separe, sentada no cadeirão, envergando apenas uma camisola, a fumar erva, presa num purgatório supérfluo.


— Que raios aconteceu aqui? — rosnou o titã de casacão negro com os olhos raiados de cólera.


Raul sobressaltou-se, deu um pulo e encostou-se à parede, esperando o desenvolvimento da situação.


Andreia, deu mais um bafo prolongado no cigarro de erva que tinha nas suas mãos, expirou o fumo deixando na sua frente uma névoa anestesiante, e só aí desviou os olhos para contemplar o marido, em silêncio.


— Andreia?


— Morreu! — sussurrou para os deuses da escuridão. — A Filipa morreu.


— Isso vejo eu — volveu o gigante em voz mais calma. — Mas como? Que estavam a fazer aqui?


A semideusa de olhos verdes fitou o marido, como se não tivesse entendido a pergunta; abriu a boca para pronunciar algo, mas fechou-a de novo em silêncio, em análise à pergunta, ao porquê da pergunta.


— Que estavam vocês duas a fazer aqui?


Desta vez não se calou, sentiu-se enraivecer, dois lobos vivem na mesma casa, batalham por um suculento naco de carne, ambos são alfa sem alcateia, se não rosnarem um ao outro, se não se morderem, não se podem amar, amam-se no ódio.


— Que achas que estava a fazer? — respondeu entre dentes. — Mas és burro? Ela despida e eu aqui assim, sem calças, nem tanga, estávamos a dar uma.


O grandioso Omar deu um murro na parede, derrubando um quadro com a paisagem do dia inatingível, uma ode à deusa que jamais surge no degredo da noite perpétua. Raul desviou-se, começou a caminhar em direção à cama, rezando para que fosse um pesadelo, talvez se se deitasse ali, junto a uma deusa extinta, pudesse acordar na receção.


— Ou pensas que só tu a podias comer? — voltou ainda Andreia pausadamente. — Aquele corpo voluptuoso, se soubesses o prazer que me deu nos últimos dias — gargalhou. — Que mentira. Dias, digo eu? Meses, quase que podia dizer anos.


— Eu podia-a comer? — respondeu o grandalhão, duvidoso.


— Omar, eu partilhei os lençóis com ela — continuou Andreia, em tom de desafio. — Quando não estávamos entretidas a enlambuzar-nos, a tua querida assistente falava-me de vocês, e em como ficava muito mais húmida comigo, que com essa flacidez que tens entre as pernas.


— Flacidez? — murmurou, como se estivesse a falar para si próprio.


Raul estava sentado ao lado do gélido cadáver de uma divindade loira, boquiaberto, com os olhos colados num embate de titãs, encarcerado num pesadelo que teimava em não terminar.


Na receção, a água continuava a pingar o chão, do lado de lá das paredes, Éolos rugia numa fúria inacabável, e aqui, neste covil, dois lobos salivavam em ódio.


— Flacidez? — berrou o ser hercúleo numa cólera proveniente dos mais sombrios recantos da sua negra alma.


— Sim, flacidez, ou pensa que os meus gemidos eram reais? — voltou a gargalhar, uma risada da mais pura demência, talvez pelo excesso de erva, ou então algo se quebrou na sua realidade após o enforcamento da amante.


— Ai, sim, amor, vamos, mais rápido, mais fundo, ai, tão bom sentir-te todo dentro de mim — explodiu num ataque de tosse e riso devido ao último bafo numa erva quase esquecida. — Todo. Toda essa coisa minúscula. Até o clitóris dela — apontou para a deusa desprezada na cama. — Era maior que esse teu pendente.


Omar não respondeu à provocação, começou a caminhar na direção da esposa seminua, em passadas lentas, como um lobo prestes a atacar a sua vítima.


— Omar? — ele não respondeu ao gemido de Raul. — Presidente, pare.


O gigante ignorou o careca por completo, colocou a mão por dentro do seu sobretudo, sentindo o cabo de marfim do seu punhal.


Só agora Andreia se apercebeu da tormenta que estava prestes a desabar sobre si, quem semeia ventos — pelo canto do olho viu o isqueiro em formato de pistola na almofada — colhe tempestades.


Saltou para lá, agarrou-o com a mão direita, apontando-a para o peito do descomunal colosso, captando-lhe ira no rosto, vendo-o envergar uma faca com cabo de marfim na mão esquerda.


— Nem penses, ou rebento-te os miolos — acreditaria ele?


— Flacidez, minha vaca? — pulou sobre ela, David e Golias, a escuridão sobre a insanidade.


Raul guinchou, afinal o elevador levou-o ao inferno, enquanto que o punhal se cravava até ao cabo, no pescoço da dona dos olhos verdes, esta, num último ataque de loucura, premiu o gatilho.


Um estrondo ecoou na divisão, sobrepondo-se à fúria dos lobos enraivecidos, por entre o sabor do sangue na sua garganta, sentiu o odor acre de pólvora, nos últimos microssegundos da sua vida apercebeu-se que afinal a pistola era verdadeira, no seu íntimo sentiu-se realizada.


Assim tombaram dois lobos que apenas no ódio se conseguiam amar, na mesma cama onde uma olvidada divindade jazia, enforcada pelo destino.


O careca estava a um canto, a respirar descompassadamente, em terror puro, o pesadelo continuava, todos os presentes morreram e ele sentia-se o oito de espadas abandonado num jogo de copas.




AUTOR

Carlos Palmito

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