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CRIATURAS NOTÍVAGA(S) Nº 34 — 29/03/2023

ÚLTIMO CAPÍTULO


Você já se perguntou se a realidade é tudo o que vemos? Se há um mundo paralelo, uma dimensão oculta que pode nos levar a emoções inimagináveis? Pois bem, meu caro, permita-me dizer que isso é possível. E o conto de Carlos Palmito é a prova viva disso. Com maestria, ele nos conduz por uma viagem extraordinária por universos alternativos, que nos deixam sem fôlego e com a mente fervilhando de emoção.


Não sei se está preparado para essa experiência incrível, mas garanto que, ao ler esse conto, será transportado para lugares que jamais imaginou existir. E o melhor de tudo é que, ao final dessa jornada, será surpreendido de forma magnífica. O talento desse escritor é inegável, e eu sou grato por ter a oportunidade de ler as suas palavras mágicas.


E agora que essa leitura incrível chega ao fim, eu confesso que estou com um gostinho de quero mais. Parabéns, Carlos, por esse trabalho excepcional e por ter se lançado nesse desafio incrível que durou um ano inteiro. Você é um gênio da escrita e eu mal posso esperar para ler mais obras suas.


Se não tiver tempo de ler, escute no Spotify.

https://allthedifferences.com/difference-between-sunset-and-sunrise/?fbclid=IwAR0iTxvXSVJc5UzXrxc9zScbBYiMm6vSK5D9pCCahbsrHKObOyQIa0SJ_aI
 

AUTOR CARLOS PALMITO


Nasceu na cidade de Évora, Portugal. Aprendeu a ler e escrever antes de iniciar a escola, por força e dedicação da sua mãe. Trabalha na área de TI, apesar da sua verdadeira paixão se encontrar na escrita, sendo nela que despende grande parte da sua energia. O primeiro livro que leu, e um dos que mais o marcou foi “O Conde de Monte Cristo”, teria sete a oito anos na altura, mas desenganem-se se pensam que ele se fixou só por romances, pois ele lia de tudo, desde banda desenhada a livros de geografia. Durante o seu percurso na escola, foi convidado a ingressar no jornal escolar, odiou esta parte, aqui descobriu que adora escrever ficção, mas odeia escrever sobre realidades. Tem como autores favoritos Alexandre Dumas, Júlio Verne, e o que considera seu ídolo e inspiração, Stephen King. Considera-se um apaixonado por letras, filosofia, psicologia e arte em geral, este autor desde cedo que começou a rabiscar contos e poesia. A sua criação hoje em dia rasa a loucura e a lucidez, a harmonia e o caos. Autor no blog https://allinone.blogs.sapo.pt

 

CANDURA, NÃO É O QUE O MUNDO PRECISA?


Escuro, breu, negro, total ausência de luz, de cor, o bosque, o rio, o céu, a lua, a chuva, a lama, as rosas, o gato, a filha de Gaia, os fantasmas, dragões, tudo era uno numa única tonalidade, a que ingere todas as cores, o negrume cósmico.


— Posso assistir ao parto, doutora? — Na voz, existia dor, amor, preocupação, carinho, um misto de emoções entoadas pelas cordas vocais de um homem prestes a chorar. Os homens não choram, ou será quê?


— Dada a condição clínica dela, não é aconselhável — Madalena sabia perfeitamente que Yulia estava em risco de vida. Observou o homem na sua frente, analisou, e percebeu o quão injusto seria negar-lhe a chegada da sua filha. Conseguia ver a alma de Raúl, e nela só existia calor. — Contudo, senhor Raúl, muito provavelmente a enfermeira na sala de partos o deixará entrar. Vá e diga que eu autorizei.


O homem partiu em direção à sala de partos, enquanto Madalena, por sua vez, dirigiu-se para o gabinete. Pegou no telemóvel, que se encontrava na ponta direita da secretária, estava mudo, sem mensagens não lidas, ou chamadas por atender. Sentou-se, olhou para o monitor e a pilha de papelada que tinha, relatórios por preencher, não lhe apetecia, sentia-se esgotada.


— E agora? — Mariana tinha o felino nos braços, e contemplava a vastidão incendiada da floresta.

— Nem sei bem — respondeu Marcos. No céu as estrelas cintilavam sob um manto de tonalidades púrpura. — Talvez desçamos o rio.


André aproximou-se do trio, apoiado por Rafael, ambos com o olhar preso no firmamento, no cromático que nunca lhe haveram visto.


— Doutor, porque continua aquela máquina a emitir ruído? — a avó apontou para uma das máquinas, a única que ainda continha sinais vitais, não a alimentar, mas a analisar a criança, a deidade que se desvanecia.


O médico aproximou-se, o aparelho em questão era a da atividade cerebral.


— Não faz sentido — o doutor aproximou-se do paciente, e examinou-lhe os olhos, que dançavam velozmente por detrás das pálpebras. — Mesmo com todo o suporte de vida desligado, parece continuar a sonhar. Uma coisa garanto-lhe, o seu neto era um lutador. Com toda a dosagem de medicação, esteve sempre a sonhar. É um raro isso acontecer, aliás, é o primeiro caso que conheço assim.


Madalena decidiu-se, hoje não seria altura de escrever relatórios, tentou, mas não conseguiu, a sua mente estava baralhada, a visão turva, o olfato abafado, os sons opacos. Tinha plena consciência que algo estava a irromper, algo estava para mudar, e a uma velocidade alucinante. Despiu a bata, vestiu um casaco e abandonou o hospital. O seu destino era a banheira, numa casa vazia.


Lá fora, uma intempérie abatia-se sobre a cidade da noite eterna, choviam pétalas de rosas, que transformavam as avenidas num rio de perfumes oníricos, e os telhados num multicolorido transcendental.


O quinteto iniciou a caminhada em direção ao rio, acompanhados por Bóreas, por Gaia, por vivos, por mortos, por histórias desenhadas numa cadeia neuronal complexa. O ar estava encharcado de eletricidade.


Uma vez lá, observaram o horizonte, que se transmutava para todo o espetro cromático do laranja.


— Uau! — Mariana estava estupefacta.


Longe e perto, no mesmo segundo, ouviu-se o cantar de um galo, enquanto o vento afagava os paladinos, trazendo-lhe recordações de um plano existencial.


Todos os olhos do quinteto observavam o nascer de uma impossibilidade no mundo onde se encontravam, e tudo o que sentiram, foi paz, harmonia e liberdade.


Raúl vestiu atabalhoadamente o equipamento que lhe deram, e entrou na sala.


— Faça força, uma vez mais — Yulia deu tudo de si. O seu corpo estava estafado, estoirado, mas deu o último empurrão.


Madalena despiu a camisa, as calças, olhou para o silêncio do telemóvel, remarcou o número de André, colocou em alta voz, ouvindo o apito de chamada.


Entrou na banheira, quente, deitou-se, fechou os olhos, sentiu saudades.


O sensor da atividade cerebral parou, finalmente, de todos, foi o que perdurou mais tempo, mais que o coração, que os pulmões, o sensor dos sonhos de um Deus cujos olhos lembravam o oceano, como uma angelita. Uma pedra especial que liga os seus portadores ao mundo espiritual, que os auxilia a enfrentar medos. Assim eram os olhos deste Deus… azuis.


Yulia olhou, aguardou. Um choro eclodiu na divisão, o primeiro respirar da candura. Os olhos azuis da menina contrastavam na sua pele morena e cabelo negro.


Madalena submergiu na banheira, com André a dançar na sua mente. Onde andaria?


O sol nasceu no horizonte, para além do rio, da floresta, do mundo. O sol que tivera adormecido.


“Faleceu durante o decorrer desta madrugada o bebé de dezoito meses de idade, que na passada semana deu entrada no hospital, vitima de maus-tratos por parte dos próprios pais.


Segundo informações da equipa médica que o tratou, seria um verdadeiro milagre o mesmo sobreviver, e os mesmos trabalharam incansavelmente para o tentar salvar.


Desde o início da noite, os órgãos internos da criança de tenra idade começaram a entrar em falência, apesar da mesma continuar com uma intensa atividade cerebral, notada especialmente através de REM, “Rapid Eye Movement”.


Toda a equipa médica encontra-se devastada. Nunca é fácil quando um paciente sucumbe, especialmente um cuja vida mal se tinha iniciado.


Recorde-se que quando o Júlio entrou no hospital, vinha com fraturas em ambos os braços, uma fratura exposta na perna esquerda, várias costelas também fraturadas, um pulmão perfurado, e lacerações a nível do crânio.


Em contacto com as autoridades locais, sabemos que os pais ainda continuam em fuga, e as buscas pelos mesmos estenderam-se a nível nacional.

Mais adiantam que quaisquer possíveis avistamentos deles os denunciem de imediato às autoridades competentes.

A avó do menino esteve sempre presente no hospital, e só hoje quebrou o seu silêncio, para agradecer à vigília que tem sido feita em frente à moradia de Júlio, não apenas pelo seu neto, mas por todas as crianças que sofrem abusos físicos e psicológicos por parte dos seus progenitores.


Nesta vigília, que teve início desde o primeiro dia, foram deixados na porta da vivenda inúmeras rosas e ursos de pelúcia, uma marca por cada criança que sofre de maus-tratos no seio familiar.


Infelizmente, é cada vez mais recorrente este tipo de abusos, muitos deles sem serem sequer relatados, onde crianças se mantêm em silêncio, sem apoio algum da sociedade.”


COMENTÁRIOS


Leonardo Silva: que ele encontre finalmente a sua paz.


Isabela Santos: um pai nunca deveria ter que enterrar um filho. Muita força para eles.


Pedro Almeida: @Isabela Santos muita força? Leste a notícia? Ou és daquelas que só comenta sem ler? Para mim, muita força é para a avó. Pais destes, espero que nunca me encontrem a mim, que lhes dou a muita força.


Gabriel Oliveira: onde andava a proteção social? Quantos mais casos destes são necessários acontecer?


Maria Castro: ainda tinha tanto para viver, um menino tão bonito, com uns olhos azul-céu tão lindos. Que descanse em paz.


Lucas Ferreira: @Luiza Rodrigues não eram teus vizinhos?


Luiza Rodrigues: @Lucas Ferreira eram. Nunca imaginei que algo assim acontecesse, pareciam tão boa gente.


Bruno Costa: que animais conseguem fazer isto a crianças? Aos próprios filhos? Espero que apodreçam.


Carolina Dias: por que são sempre os inocentes que sofrem? E ainda falam de um Deus justo. Onde estava Deus quando isto aconteceu? Na casa de banho a cagar?


Ana Pereira: o país chora por ti, Júlio. Muita força para a tua avó.


Xavier Andrade: é uma pena o que acontece nesta sociedade, cada vez mais. Infelizmente, na qualidade de psicólogo infantil, atendo muitas crianças com traumas criados desde bem cedo. Muitas dessas crianças utilizam como refúgio da dor, e inclusive, da própria realidade, a sua habilidade criativa. Criam cenários diversos que podem variar desde uma simples sala, até uma cidade inteira, repleta de pessoas, e animais. Têm a capacidade de criar histórias que elas mesmas conseguem controlar. Em resumo, na fuga à dor, seja física, seja emocional, uma criança pode fazer o papel de deus na sua cabeça.


FIM


 

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3 תגובות


sidneicapella
sidneicapella
30 במרץ 2023

Não consegui ler todos os contos nós cadernos! Mas, acredito que será um belo livro. Pois Carlos Palmito tem o dom da escrita e Luiz o poder da produção.

Sucesso Carlos!

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Luiz Primati
Luiz Primati
30 במרץ 2023

Uma pena ter chegado ao fim. O que ainda não me deixa totalmente desanimado é saber que teremos o livro. Isso é algo que quero fazer acontecer. Aguardarei ansiosamente pela revisão de @Carlos Palmito. Obrigado meu amigo pelo comprometimento e responsabilidade. Foi uma jornada e tanto. Ansioso pelos próximos acontecimentos!

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Carlos Palmito
Carlos Palmito
29 במרץ 2023

E chegou ao fim. Foi uma viagem alucinante, que muitas vezes, eu mesmo não sabia bem o que fazer. Obrigado a todos os que me acompanharam nesta jornada.


PALMITO

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