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CRIATURAS NOTÍVAGA(S) Nº 14 — 15/06/2022

Mais um conto de Carlos Palmito. Carlos apresenta a continuação do conto anterior. Se você ainda não leu, corre lá e leia a edição Nº 13. Se não tiver tempo de ler, escute no Spotify.


Leia, Reflita, Comente!



https://ak.picdn.net/shutterstock/videos/1027818194/thumb/1.jpg

O MONSTRO QUE VOCÊS CRIARAM


por Carlos Palmito


Parte 2 - O nascer de um império


Imagem perfeita, uma rosa numa campânula de vidro, a redoma imaculada para a proteger da insanidade; a sua delineação ocupava a porta na totalidade, aqui foram criadas mentalidades, desenharam-se e coseram-se ódios num fogo lento.


Do outro lado da porta repousava ela, no seu descanso eterno, a dançarina das labaredas do tempo, o porto de abrigo de um marujo sem rumo, o seu farol na neblina que se mantém e jamais dissipa, a recordação do seu caminho quando se sente perdido.


Felício contemplava o desenho que concluíra faz muitos anos atrás, buscou a chave, colocou no buraco da fechadura e girou, no silêncio dos corredores ouviu-se o estalido das engrenagens internas da tranca do seu mundo privado, e eis que ela se escancarou para si.


***


Ao chegar ao fundo do corredor a labareda começou a subir escadas, e ele sempre atrás dela, a sua donzela perdida, consumida em chamas, dissolvida em cinza e reerguida na alma dos dois.


— Atenta-te ao número de degraus, Felício. — A voz era doce, meiga, uma Deusa entre monstros.


— Diana? — Poderia ser ela? Ele via-a nas chamas, nos fogos incomensuráveis da sua mente fragmentada.


— Sim, amor! — a luminosidade da chama vibrava entre cada sílaba, um odor adocicado a perfume inundava os sentidos do homem da rosa-negra, a labareda falava, e cheirava a ela.

— Onde estamos, amor?


— Aqui, Felício, estamos no teu futuro império, já subimos oito patamares, restam cinco.


Parou momentaneamente, olhou para o início, o fundo, o centro da terra que lhe serviu de prisão, tudo era negro e perdição, em cima via luz, uma espécie de magia que emitia um som como um raio aprisionado num recetáculo de vidro. Continuou a sua ascensão.


— E como posso eu criar esse império, como o poderei ter sem ti? — uma lágrima brotou-lhe da cinza dos olhos, enquanto subia mais um nível de degraus, eram já doze ao todo.


Diana parou a ascensão, esperou pelo seu amante de olhos cinzentos, construtor de barcos, purgado pelo fogo abençoado por um padre supersticioso.


— Não posso subir mais, amor, é aqui que o meu fogo se apaga.


— Não! — a dor da perca uma vez mais, o sofrimento que o acompanhou no seu cativeiro.

— Podes sempre visitar-me, lá em baixo, tenho bastante para te ensinar, mas muita coisa vais ter que aprender por ti próprio — a labareda começava a dissipar-se. — Visita-me sempre que puderes no local onde deixaste o meu crânio.


O fogo-fátuo era agora apenas uma reminiscência, o odor da derme da sua amada desapareceu, substituído pelo fedor de lixo e carne podre, de fezes e urina.


***


Retirou do bolso frontal das suas calças uma caixa de fósforos, passou lentamente a cabeça do mesmo na lixa, que soltou faúlhas no ato e se incendiou, qual pavio noturno, inundando a divisão do acre odor de enxofre.


De cada lado da porta havia um archote, aqui não podiam existir deturpações de estrelas e luas enclausuradas em filamentos dentro de uma prisão de vidro.


Acendeu ambos, concedendo desta forma luz à divisão em que se encontrava.


Na sua frente estava um pedestal, cujo topo era habitado por um crânio. Atrás, desenhos de rosas e fogueiras, amor e perdição, na sua base, lenha para criar um lume.


Pegou no archote esquerdo e acendeu-o.


— Diana? — as labaredas começaram a dançar, ao longe ouviam-se guinchos apavorados de ratazanas aladas, morcegos sugadores de sangue com medo do homem de olhos cinza. — Falta pouco, amor.


Formaram-se na sua frente os contornos que ele sempre conheceu, o seu farol na degradação do mundo, ele acariciou as labaredas como um amante afaga o rosto da sua amada, sentiu o quente, mas não dor.


— Ainda não é tempo, Felício — as palavras que o homem mais temia. — Lembra-te que tudo tem que ter a sua ordem.


— Mas a criança foi encontrada.


— Eu sei, amor, ela será a razão do meu nascimento — uma pausa, as chamas estagnaram no ar, como se tivessem congelado, os olhos do crânio brilharam intensamente, diamantes escondidos na penumbra. — A noite terá que ser sem luar.


***


Subiu o último lance de escadas, no topo existia uma divisão larga, iluminada por luzes presas entre bolbos de vidro, o cheiro que mais se notava era o de desespero, desilusão, pessoas que desistiram faz muito tempo da própria existência.


Observando atentamente, em toda a sua volta, via homens e mulheres, crianças malnutridas, cães, gatos, garrotes a prenderem veias e artérias, os labirínticos becos nos braços da escória social, e uma agulha espetada neles, a baba que lhes escorria e os olhos presos no vazio.


— Que aconteceu ao mundo? — teve vontade de voltar para trás, descer os treze lances de escadas e regressar à sua prisão.


No canto mais afastado de onde se encontrava, existia uma porta, presumia ser de acesso ao exterior, lentamente começou a percorrer o caminho.


— Bacano, tens uns trocos? — a mão estendida de um vagabundo.


Ignorou, contornou a origem do som que tresandava a álcool, uma destilaria humana cuja bebida saía dos poros em formato de suor.


— Ei! — A voz era de uma criança. — O meu amigo está a falar contigo — sentiu uma mão gigantesca prender-lhe o ombro.


Virou-se, as auras dos seres que ali se apresentavam eram escuras, perfumadas por lixo e decadência, a criança gigantesca, com uma ferida profunda na face, olhava-o em desafio, por detrás de um uniforme da guarda-costeira “roubado, quase que aposto.”.


— Desculpa, não sei o que é um bacano, nem o que são trocos, mas tudo o que tenho é isto — apontou para as suas vestes. — Nada mais possuo.


***


Apagou o fogo, ficou momentaneamente às escuras, solidão ou solitude, nem saberia dizer, uma é imposta por fatores externos, a outra, internos, sabia que a procurava, mas também que a odiava.


— Como sinto a tua falta.


Como resposta teve silêncio e lágrimas, o som delas a rolarem pelo rosto em direção à imundice pecaminosa de uma cidade que desconhece o dia.


***


O gigante e o senhor-destilaria entreolharam-se, não sabiam o que dizer, estariam a ser alvos de troça?


Felício voltou-lhes as costas e continuou o seu percurso, uma porta por abrir, um novo mundo por descobrir.


— Isto será o teu império — sussurrou o vento inexistente.


— Ei? — novamente a criança. — É feio virar as costas a quem contigo fala, rapaz.


Rapaz? Virou-se novamente, o bêbado tinha uma faca, o gigantesco um punho cerrado do tamanho de um martelo de guerra.


— Perdão, não vos pretendia ofender — mirou a montanha de martelo de guerra no fundo dos olhos, sempre atento à aura. — Mas diga-me, nobre senhor, o que faz com — uma pausa dramática, tentativa de dar ênfase na frase. — Um morto andante?


Ambos os homens soltaram uma estrondosa gargalhada, que ecoou na gigântica divisão, as atenções de toda a defecada humanidade que ali se encontrava voltaram-se para o trio, algures, num bosque na orla da cidade um lobo uivou.


— Sou um morto andante? — indagou o senhor movido a álcool. — Esqueces-te que tenho a — Felício, numa velocidade felina e agilidade acima dela, pegou na adaga com as mãos, sentiu o quente e viscoso do seu sangue afluir, mas nenhuma dor. — Faca!


— Como eu dizia — o cinza dos olhos do senhor da rosa-negra estava ainda cravado no Hércules de rosto golpeado. — Que fazes com um morto?


Bastou apenas um segundo, um movimento brusco e a faca cravou-se no centro da testa que agora destilava um visco cinza e vermelho, a aura desvaneceu-se, o bêbado caiu, o gigante escancarou os olhos.


Felício abriu a mão, com a palma para cima, o golpe que lá se encontrava começou a fechar, ante o olhar apavorado do homem com voz de criança.


— Bruxaria! — murmurou.


— Fazemos assim, grandalhão, pareces ser uma pessoa que conhece este local — uma pequena pausa na expetativa de uma resposta.


O homem não respondeu, estava atónito, perplexo, só podia ser feitiçaria, seria este ser de olhos cinza na sua frente aquele de quem falam os contos infantis? Aquele que renasceu de uma fogueira?


— Como te chamas? — forçou Felício, precisava de quebrar o gelo, e acima de tudo de alguém que fosse o agrafador da sua ascensão, o primeiro dos súbditos do seu império.


— Dino — murmurou. — Eu sou o Dino, e tu?


— O meu nome por hora não interessa — repuxou as mangas da camisola, a rosa sobressaiu na penumbra, negra como a morte, Dino esbugalhou os olhos, a rosa do sangue, tudo batia certo.


— És o Felício, não és? O bruxo que ardeu na fogueira, e foi posteriormente enterrado no próprio inferno?


A porta abriu-se, do exterior veio vento fresco a tresandar à decadência habitacional de uma aldeia que cresceu e se transformou em cidade.


— Para não existirem problemas entre nós, meu caro, nunca mais me chames bruxo — apontou para o bêbado inerte, o casulo de uma alma que se foi. — Ou podes facilmente acabar daquela forma.


Dino encolheu os ombros a medo, sabia que ele só podia ser o homem de quem falam os contos, as histórias para as crianças se portarem bem e irem para a cama cedo, ele próprio as ouviu quando ainda era um puto ranhoso.


— Só o disse devido aos contos para crianças.


***


Ergueu-se, saiu e trancou a porta, onde as engrenagens internas guincharam como borboletas negras.


Dirigiu-se em passos lentos em direção ao monstro que sobe e desce, o elevador dos treze reinos da decadência.


Premiu o botão número quatro, de todos, este era o seu local favorito, excetuando a prisão onde a sua amada permanecia.


***


A sua união com Dino foi proveitosa, o monstro com voz de criança mostrou-lhe todos os locais da antiga aldeia, onde conseguia ganhar dinheiro fácil, e como conseguia melhorar.

A pouco e pouco foi aprendendo tudo sobre o novo mundo, como se locomovem as carruagens desprovidas de cavalos, a forma de os raios serem aprisionados em bolbos de vidro para iluminarem a noite eterna, e, acima de tudo, como impor respeito.


A seu tempo, descobriu o que aconteceu com a face do gigântico amigo, e… viu-a, a criança da aura com as cores da pureza eterna.


— É ela! — grunhiu o vento.


— Eis a solução — murmurou Diana.


Os fogos iriam incendiar a noite permanente, a lua iria esconder-se, os criminosos da noite, delinquentes que se achavam maus e intocáveis começaram a desaparecer, afogados em demência, a ruína iniciou o seu percurso em direção à masmorra, era o nascer de um novo império.


A porta da casa da sua amada foi colocada, pintada, aprimorada; por vezes, Felício acendia velas e ficava simplesmente a contemplá-la em silêncio, ouvia-a, ouvia-os a todos.

— Bruxaria! — gritavam as estrelas.


***


Um toque irrompe na noite, o visor do telemóvel acende-se, Felício desvia para ele a sua atenção, para os nove dígitos perfeitamente delineados no misticismo de um aparelho mecânico.


— Sim?


— Chefe, acho que reconheço o vagabundo que é pai da criança. — o Gigante de voz de criança estava atónito a observar o homem de gorro verde que partilhava comida com um gato maltrapilho.


— Eu sei, Dino — mesmo deste lado das linhas invisíveis da comunicação móvel sente as mãos do hercúleo ser a acariciar as cicatrizes no rosto. — Mas estás proibido de lhe tocar, terás a tua vingança na jaula. — Retorquiu Felício entre dentes, desligando de imediato.


Senta-se então no seu trono no quarto piso, todos os clientes se foram, descendentes de assassinos de bruxas e feiticeiros, o silêncio é perpétuo e a escuridão palpável.


Bebe um trago das suas uvas pisoteadas, sente o aroma de suor, tabaco e loucura enquanto contempla o seu reino.




AUTOR

Carlos Palmito

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3 Comments


sidneicapella
sidneicapella
Jun 16, 2022

Muito bom meu amigo Carlos!

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Luiz Primati
Luiz Primati
Jun 15, 2022

O que já era bom, ficou ainda melhor. Com Carlos narrando seus contos e uma trilha sonora, é quase um episódio da Netflix. 😁


Parabéns novamente por nos presentear com seus contos.

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Carlos Palmito
Carlos Palmito
Jun 15, 2022

E aqui estou numa nova quarta-feira, começo a creditar que só assim dou pelo tempo passar, ou, pelo menos, as semanas. É um prazer, um orgulho incomensurável, escrever para vós e ... para lá de todas as outras coisas, sentir-me tão acarinhado por todos os que me leem fazer parte desta grandiosa família. Não se acanhem, deixem os vossos comentários.

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