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CRIATURAS NOTÍVAGA(S) Nº 26 — 29/11/2022

O conto de Carlos Palmito continua...


Quando a lua chora sangue? Por quem chora? E eis que o pai de Mariana, acompanhado pela loba sem alcateia, entram no antro do rei das rosas negras, que perigos espreitam, que janelas existem? Por quem choram as luas?


Leiam e comentem. Se não tiver tempo de ler, escute no Spotify.

https://www.worldhistory.org/
 

AUTOR CARLOS PALMITO


Nasceu na cidade de Évora, Portugal. Aprendeu a ler e escrever antes de iniciar a escola, por força e dedicação da sua mãe. Trabalha na área de TI, apesar da sua verdadeira paixão se encontrar na escrita, sendo nela que despende grande parte da sua energia. O primeiro livro que leu, e um dos que mais o marcou foi “O Conde de Monte Cristo”, teria sete a oito anos na altura, mas desenganem-se se pensam que ele se fixou só por romances, pois ele lia de tudo, desde banda desenhada a livros de geografia. Durante o seu percurso na escola, foi convidado a ingressar no jornal escolar, odiou esta parte, aqui descobriu que adora escrever ficção, mas odeia escrever sobre realidades. Tem como autores favoritos Alexandre Dumas, Júlio Verne, e o que considera seu ídolo e inspiração, Stephen King. Considera-se um apaixonado por letras, filosofia, psicologia e arte em geral, este autor desde cedo que começou a rabiscar contos e poesia. A sua criação hoje em dia rasa a loucura e a lucidez, a harmonia e o caos. Autor no blog https://allinone.blogs.sapo.pt

 

WHEN THE MOON CRYES BLOOD


O despertar das rosas é um dos mais impiedosos momentos que existe, acima de todas as dores, inclusive da perda total. Equipara-se apenas ao nascimento, ou renascimento, equivale ao ser engolido num dilúvio de fogo, sem pé, aparo ou anteparo, é um salto de fé, onde apenas acreditamos que tudo correrá de acordo.


— Mateus?


O rei dos sem-abrigo não se deu ao trabalho de responder, observava atentamente a porta metálica, colossal na dimensão, na forma, protetora de escória, de ódio, de deturpação, de morte.


— Mateus? — Elsa estava impaciente, havia visto o conde dos felinos desaparecer por uma entrada que apenas serve a gatos e ratazanas, a deuses caídos e roedores de detritos apodrecidos.


— Espera, dá-me um minuto.


As gotas de um oceano celestial continuavam o seu voo kamikaze em direção ao corpo destes dois seres, o homem da rua e a loba sem alcateia.


— Merda, a velha tinha razão — rosnou ela, enquanto desviava os cabelos encharcados da face. — Tu realmente precisas de ajuda, és um guerreiro, nota-se em todos os teus músculos, mas… perdeste a coragem algures no caminho.


— Não é isso!


— É sim — ripostou a loba de pelo castanho. — Sem vinho não és ninguém, nem tomates tens para salvar a tua filha, a filha de Gaia.


— Tu não me conheces!


— Nem tu a mim — retorquiu ela, voltou-lhe as costas e começou a caminhar lentamente em direção às portadas do inferno. — Nem tu a mim — murmurou quando se deteve em frente à monstruosa garganta engolidora de falsos profetas.


Segurou o batente, saído da boca de um demónio extinto, inspirou o máximo que conseguiu, sorveu a cidade nesse aspirar, os aromas a cachorros-quentes e as vozes de adolescentes, os perfumes de lírios e a valsa de dois amantes que se odeiam.


— Sabes, Mateus? — perguntou, quando deu os três primeiros toques. — Sabes o que mais abomino nesta falsa cidade, nesta passerelle de aparências forçadas? — após uma pausa contabilizada mentalmente, bateu dez vezes, um trovão acompanhou cada um desses bateres. — É o cheiro. Tudo cheira a merda, e nós dizemos serem rosas, tentamos enganar a nossa perceção, mas aqui, na cidade da lua de sangue, tudo está a morrer, inclusive nós.


— Lua de sangue?


De dentro da masmorra, do castelo do rei das rosas negras, ouviram-se passos, um ferrolho guinchou estridentemente enquanto era movido, o postigo do guarda da realeza decadente.


A que cheiram jardins de desilusão?


— Olha para o alto, Mateus.


O homem dos cabelos brancos obedeceu, os seus olhos cinza viraram para cima, em direção à senhora da lua, aia de Gaia, protetora da filha da natureza.


— Quem és? — ouviu-se do interior do antro do rei negro. — Ao que vens?


— Como vai ser, Mateus?


O sem-abrigo aproximou-se dela, com os olhos vidrados na lua, nos laivos avermelhados que lá nasciam, seriam lágrimas?


— Quem são? — o protetor da decadência estava a ficar inquieto.


Lágrimas por quem?


— Reergue-te paladino — a ordem veio do espelho, do abismo, das trevas obscuras, da velha do lado de lá.


— Tu sabes quem sou — sussurrou o homem a quem um dia concederam a guarda da filha da natureza. — E certamente sabes ao que venho — o seu rosto estava agora colado ao postigo, a mão esquerda sobre o marfim da sua faca.


Como pode uma lua derramar lágrimas?


Um momento de pausa, um beliscar nas profundezas da cidade, o interromper da respiração assistida de um deus, o apito a tornar-se constante na inconstância do que é um sopro.


— És mais um bêbado, só mais um.


Mateus examinou a ranhura por onde os seus olhos se cruzavam com os do guardião da podridão, caberia o seu braço lá? Como poderia aquela tentativa falhada de humano não saber quem ele era?


— Ponham-se a andar, tu e a tua cadela.


— Quer dizer então que não fazes ideia de quem sou? — puxou a faca da proteção de coro, o gume reluziu ao brilho de uma lua vermelha, a loba ronronou em antecipação.


— Nem faço, nem quero fazer.


Um gesto rápido, o puxar do braço direito para trás, arrastando com ele o brilho ofuscante do aço damasco, e posteriormente, para a frente, em direção à fissura, com toda a sua fúria, digna de um gladiador de Roma.


A lâmina perfurou o olho esquerdo do guardião que não conhecia a brutalidade de um homem a quem tudo tinha sido roubado, atravessou-lhe o cérebro e irrompeu no lado traseiro do seu crânio, de onde jorrou massa encefálica, e sangue, um misto de cinza, vermelho e lágrimas lunares.


O gesto seguinte foi remover o punhal, deslocando-o uma vez mais para trás, sentindo-o arranhar ossos, arrastar pedaços de cérebro e a viscosidade do sangue mesclado com o globo ocular esmagado.


Algures, nos pantanais da humanidade, uma alcateia uivou… apenas Elsa a conseguiu ouvir, sabia ser hora, estava preparada para o que de lá vinha.


Na sala do hospital, a velha teve que se levantar da cadeira, rezava, enquanto os médicos reanimavam o deus dos olhos azuis, a inconstância mutou-se para uma constância, o ritmo cardíaco houvera sido reposto, os alarmes desligados, e o jogo da Divindade continuava.


O guarda tombou inanimado, o baque foi ensurdecedor na mente criativa do universo.


Mateus limpou a sua faca dos excrementos daquele resquício anómalo de ser humano, e guardou-a na bainha.


— Este é o homem que eu queria ver — afirmou Elsa triunfantemente, enquanto enfiava o braço na ranhura, sentindo pedaços do ser que anteriormente guardava o portal do inferno conspurcarem-lhe a carne. — Eu sabia que estavas aí, só precisavas de um empurrão — os dedos tatearam em busca da chave.


— Consegues destrancar?


— Só mais um segundo — encontrou-a, girou, ouviram-se as engrenagens a entrar em locomoção, e gritos furiosos do interior da fortaleza. — Venham a mim, ovelhinhas com ilusões de serem lobos — a tranca saltou do sítio, um safanão na porta metálica, e eis que se escancarou para eles, qual meretriz de pernas abertas, a entrada da perdição.


O homem das ruas foi o primeiro a entrar, desembainhando a sua cantora lírica da proteção em que se encontrava; ela tinha odes de morte e destruição no gume, paixão e amores não retribuídos na ponta, era aço damasco na mais pura conceção com que ele um dia a houvera forjado.


Atrás dele levantou-se nevoeiro, areias atípicas de uma Turquia longínqua. Nas criações de deuses a definharem tudo se mistura, cores, sons, odores, feijoadas feitas grão a grão, e nós, somos simplesmente lixo no passeio, restos imorais da sociedade, pasto para nós mesmos, canibais existenciais.


— Não devias ter vindo para uma luta de pistolas com uma faca! — grunhiu o primeiro suíno no interior… pobre carneiro.


A névoa transformou-se em farrapos, fiapos de algodão-doce numa feira de aberrações, criou formas fantasmagóricas, lobos, uma alcateia a uivar à lua que chora sangue, a correrem vertiginosamente nos cumes gelados das montanhas inóspitas em perseguição às suas presas.


— Não trouxe só o punhal — atirou o senhor das ruas, enquanto se desviava para o lado esquerdo.


O ser hediondo, ovelha em pele de lobo, seguiu-o com o olhar, desprezando a porta e todos os lobos que por ela entravam, miragens de realidades em colisão, apontou a pistola, puxou o cão, a bala teria que ser certeira.


— Ele trouxe uma alcateia — rosnou Elsa, enquanto lhe caía nas costas, os dedos cravaram-se na garganta do zombie da heroína, apertando ao extremo; a chuva tornou-se vermelha, com sabor a ferro, a garganta cedeu, os dedos dela enterraram-se, primeiro na carne, depois na traqueia, que gorgolejava sangue, até que finalmente se uniram, como se nunca nada tivesse existido entre eles. — Continua Mateus, vamos dançar ao luar, como dois amantes — o carneiro tombou inerte, e a bala ficou para sempre e eternamente retida no tambor.


Mateus correu junto à parede, existia uma porta na ponta oposta do pátio, esse era o objetivo, entre eles e ela existiam as criaturas notívagas, as amostras de gentes, aberrações com seringas agarradas aos braços numa tentativa inútil de fugirem da realidade.


Elsa, por seu lado, acompanhou a sua alcateia das névoas temporais existentes num cérebro a definhar, numa conjunção de energia e neurónios, o deus lutava para se manter vivo.


— Não os deixem passar — berrou um dos agarrados, um aspirador de pós, com as narinas entupidas de cocaína… possivelmente o líder das ovelhas tresmalhadas, ou, quem sabe, um alucinado de lado nenhum.


O que é certo é que todos se levantaram, incluindo a deusa da lua, ela queria ver o desfecho, mutantes contra fantasmas, criaturas notívagas contra notívagas criaturas.


E Elsa, a senhora dos lobos, dançava como se estivesse numa discoteca, de pés descalços a pontapear tudo o que lhe aparecia pela frente, objetos movíveis ou amovíveis, pessoas e pedaços intragáveis de lixo.


— Cuidado! — gritou o homem dos cabelos brancos, (candura, não é o que todos necessitamos?), não conseguiu proferir mais nada, apenas observar enquanto corria junto à parede, derrubando escória na sua passagem, como um dilúvio bíblico a purificar as terras do pecado.


Um estrondo ecoou na divisão, no pátio, o laranja gorgolhou no cano de um revólver, sentiu-se aroma a pólvora, doce como mel, um projétil saltou do tambor e perfurou a perna da senhora da alcateia, ela oscilou, e o seu apertado vestido vermelho bailou no luar de sangue.


— Estás bem?


— Isto é só um arranhão, continua, Mateus — os olhos dela soltaram faíscas, perscrutou todos os agarrados, todos os seres em busca do detentor da arma de fogo, como ousava ele magoar uma rainha? — Aí estás tu, filho da puta — riu macabramente, com o olhar fixo no futuro cadáver.


Mateus, por seu lado, corria junto à parede, uma corrida intemporal, que parecia repetir-se a cada segundo que passava; no alto, neste momento, a lua era totalmente vermelha, no pântano, a velha observava um outro grupo, bebia chá, mas os seus ouvidos estavam na entrada da masmorra “Corram, meus paladinos!”


A loba desviou-se de um dos drogados, um ser com os braços picados por agulhas, quase que se poderia ver a palavra “corte pelo picotado”, saltou por cima de um segundo, enfiando-lhe o joelho direto na cara, sentiu os dentes a partirem, poderia jurar ter ouvido o ganido em agonia das gengivas.


O detentor do revólver, pistola, pau de fogo, ou lá o que raios era aquilo nas suas mãos, recuou, de olhos arregalados; na sua frente existiam apenas mais dois mete nojos da sociedade, duas anomalias na conceção do ser humano, tinha consciência, mesmo nos poucos neurónios funcionais e queimados por pó de anjo, serem insuficientes.


— Nem te atrevas a tocar-me — rugiu em desespero, pisou uma garrafa de vinho, caiu desamparado no lamaçal de sangue.


Elsa agachou-se, usou todas as forças das suas coxas para se atirar contra um dos obstáculos que a impediam de chegar ao senhor-tombado-por-vinho.


O salto foi notável, mesmo com a perna a verter sangue, as lágrimas de uma lua reinada por uma deusa, conseguiu derruir o colosso alimentado por esteroides na sua frente, ergueu a cabeça à lua, abriu a boca para beber das suas lágrimas, rosnou como se estivesse numa pista de dança.


Junto à parede, Mateus cravou o punhal nas costelas de mais um dos monstros da cidade, girou-o e cortou até ao coração… terão estas bestas coração?


A loba baixou a cabeça, e cravou os seus caninos na garganta do homem-músculos, sentiu o quente invadir-lhe o rosto, sentiu o paladar a ferro nas papilas gustativas, e ouviu a vida abandonar o corpo do senhor do ginásio.


No pátio, restava apenas um inimigo, Mateus estava junto da porta, Elsa abandonou o cadáver que houvera abocanhado, e moveu toda a sua atenção para a ratazana do revólver.

— Horas de dormir, menino — ouviu-se a si mesma ronronar, como numa canção de embalar.

Ele tentou virar o cano da pistola na sua direção, mas não conseguiu, não teve tempo, foram milésimos de segundos, o espaço temporal entre duas gotas de chuva, e o expirar de uma criança, o pé dela pisou-lhe o braço, a dor foi imensa, o pulso quebrou como um galho seco sob o peso de um lobo.


— Os bons meninos vão para o céu — riu, ria perdidamente, uma loba no auge da caçada. — Os maus, — apanhou a pistola do chão, encostou-a à parte inferior do queixo do senhor-garrafa-de-vinho. — são mandados para mim — premiu o gatilho, e nesse ato, a parte superior do crânio deste ser explodiu, jorrou sangue numa ejaculação precoce, massa encefálica e ossos, fiapos de cabelo e… todos os vestígios de vida.


Mateus abriu a porta para os níveis inferiores.


— Vamos embora Elsa — o som da noite foi interrompido por ferrolhos a serem removidos, nas paredes, várias portas camufladas foram abertas, delas irromperam homens, armados de paus e facas, maças e machados. — Porra! — murmurou o acompanhante de lobas, guardião de Mariana.


Elsa encontrava-se no meio do pátio, com o revólver nas mãos, o rosto pintado a sangue, a rosnar num transe fantasmagórico, rodeada de monstros.


A lua… chorou escarlate.


— Vai Mateus, vai já.


— E tu?


— Eu? Eu fico a guardar as tuas costas.


— Não, anda, eu abro caminho.


— Vai embora caralho. Tens a Mariana para salvar — ergueu-se, uma loba alfa no covil da perpetuação. — Já te apanho, deixa-me só alimentar os meus filhotes — fiapos de névoa passearam a seu lado, os quais ela acariciou.


Mateus entrou na porta e fechou-a nas suas costas.


— Qual de vocês quer ser o primeiro a tentar provar este pedacinho de carne? — concebeu uma vénia na direção dos seus oponentes, como no desfecho de uma peça de teatro, largou a pistola no chão ensanguentado… odiava aqueles objetos, mais ainda que os odores da cidade, e virou-se para o primeiro grupo.


No dia que enfrentarem um lobo, mesmo que a sua alcateia sejam apenas fantasmas, atentem-se, são seres calculistas, metódicos, frios… jamais o tentem encarar de igual para igual, mesmo que seja num combate singular.


— Se morrer, morro a caçar — uivou à senhora que habita nas planícies lunares. — Venham daí, meus carneirinhos.


Dos céus desprovidos de nuvens, começou a chover sangue, lágrimas do outro lado da realidade, da lua, do deus.


Por quem choram as luas?


 

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1 comentário


Carlos Palmito
Carlos Palmito
30 de nov. de 2022

Carlos Palmito, Carlos Palmito, para onde caminhas? Que vales infindáveis percorres? Quem são todas estas personagens? Eu.. não sei, simplesmente permito à caneta que guie a minha mão, e assim a história. É ela quem a escreve, não eu :)

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