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CRIATURAS NOTÍVAGA(S) Nº 23 — 19/10/2022

Mais um conto de Carlos Palmito.

O tempo urge enquanto a avó tenta reunir os seus paladinos, poderão rosas falar? O que oculta o abismo, quais os perigos que espreitam, e os segredos recônditos no ventre de Gaia?

Leiam e comentem. Se não tiver tempo de ler, escute no Spotify.

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AUTOR CARLOS PALMITO


Nasceu na cidade de Évora, Portugal. Aprendeu a ler e escrever antes de iniciar a escola, por força e dedicação da sua mãe. Trabalha na área de TI, apesar da sua verdadeira paixão se encontrar na escrita, sendo nela que despende grande parte da sua energia. O primeiro livro que leu, e um dos que mais o marcou foi “O Conde de Monte Cristo”, teria sete a oito anos na altura, mas desenganem-se se pensam que ele se fixou só por romances, pois ele lia de tudo, desde banda desenhada a livros de geografia. Durante o seu percurso na escola, foi convidado a ingressar no jornal escolar, odiou esta parte, aqui descobriu que adora escrever ficção, mas odeia escrever sobre realidades. Tem como autores favoritos Alexandre Dumas, Júlio Verne, e o que considera seu ídolo e inspiração, Stephen King. Considera-se um apaixonado por letras, filosofia, psicologia e arte em geral, este autor desde cedo que começou a rabiscar contos e poesia. A sua criação hoje em dia rasa a loucura e a lucidez, a harmonia e o caos. Autor no blog https://allinone.blogs.sapo.pt

 

ABYSSUS ABYSSUM INVOCAT


Sangue brotava de um corte perto da omoplata, descia o braço como se fosse uma autoestrada, percorria-lhe os dedos e pingava no vazio cósmico de um Deus chamado Caos.

Ao fundo, a rosa-branca mantinha-se quieta, estagnada, sentia-lhe os olhos em si (terão as rosas globos oculares ou, apenas perfume?).


— Quem és?


As rosas não falam.


— Quem és? — insistiu o bombeiro.


As alucinações não respondem.


Ergueu-se, um paladino em tronco nu, todos os músculos do seu corpo gritaram em sintonia, agonia, tudo era dor, sentiu o universo pestanejar, a sua pétala ganhou vida e gemeu em conjunto com as estrelas a milhões de anos-luz de distância, sóis de planetas estéreis.


— Quem és? — balbuciou André, como se o simples fato de saber o nome das rosas no jardim cinzento do plano existencial, no fundo da cidade sem dia, lhe concedesse paz.


Os morcegos guincharam, o golpe ardia, e o sangue continuava a jorrar da sua alma, a rosa-branca não falava, não se movia, estava apenas lá, a contemplá-lo, o bombeiro caído no purgatório.


Começou a caminhar em direção ao ser de luz, “Será este o fim do meu túnel?” cada passada concedia-lhe uma picada, ferrões de abelhas gigantescas a cravarem-se na sua carne, na memória odores de corpos queimados, hospitais e madalenas.


— Madalena! — a lágrima é real, a alma um espelho despedaçado por alunos de uma escola esquecida, entes cuja fama há muito foi desmemoriada.


Desviou os olhos para o objeto na sua mão, um retângulo com cintilo próprio, a ligação sem rede ao mundo exterior, a ela, a única que lhe importava.


— A pergunta não é quem sou — André estremeceu ante a voz da rosa-branca, não a esperava. — Queres tentar uma nova?


Refletiu, experienciou a impossibilidade de uma brisa percorrer-lhe o corpo, ouviu as borboletas negras e sentiu aroma de bolachas acabadas de sair de um forno, não se recordava como fizera o golpe, e já nem interessava.


— Onde estou?


— Essa também não é a pergunta, André — a rosa-branca principiou a mover-se na sua direção. — Mas se te alivia, posso dizer que não estás morto, ainda não é a tua hora.


A distância entre ambos era agora dez simples passos, o bombeiro via na perfeição todos os traços do homem, via-lhe os espinhos, folhas e pétalas, sentia aromas de jardins e serenidade, afinal não era necessário saber o nome para ter a sensação de paz.


— Qual é a pergunta?


— A pergunta, paladino, é… — paladino? Terá mesmo o estranho apelidado-o de paladino? — O que faço eu aqui?


André tremulou os olhos, o golpe continuava a doer, os bálsamos estavam uma mescla de componentes confusos, a mistura de tudo no vácuo universal, suor, lágrimas, gatos, bolachas, raposas, jardins incendiados e chuvas imemoriais.


— Paladino?


O ser na sua frente sorriu, nesse sorriso desabrocharam rosas no viridário das divindades, a máquina continuava a dar alento a um Deus que definhava no leito de um hospital, o dia teimava em jamais surgir, somos seres do luar eterno.


— Continuas a colocar as perguntas erradas.


O bombeiro mordiscou o lábio inferior, sentia-se nervoso, imundo perante a pureza, sentia necessidade de uma banheira, a água gelada que tanto adorava, o contacto dela com a sua derme negra, quente, os extremos numa apoteose gloriosa.


— Que fazes aqui? — ouviu-se finalmente indagar a questão correta para a rosa de luz, branca, pura, divina… enraivecida?


— Não percam mais tempo! — a voz era feminina, anciã, vinda dos anais da história, antes de os mundos existirem e o sol se extinguir, a mãe de Gaia, avó de todos, cativa num hospital no outro lado do espelho da realidade. — Vão, ela precisa de vocês, reúne os paladinos Marcos.


— Ouviste-a, não ouviste? — afinal a rosa tem nome, o bombeiro suspira. — Temos que ir, André, estou aqui por ti, pela avó, pela criança das rosas, filha de Gaia, pelo Deus que está a morrer algures numa dimensão bem longe daqui, e pelo renascer do sol.


Marcos virou as costas, os ecos dos passos dele ecoaram nos túneis da reminiscência enquanto caminhava em direção ao local de onde viera.


Atrás dele seguia André, o bombeiro encarcerado no centro da terra, distante das estrelas e da senhora da lua, longe de Gaia, na estrada da perdição, cada passo recordava-o da queda, das quedas, de Rúben, de Madalena, dos adolescentes na fábrica, e os morcegos que esvoaçavam incansavelmente.


— Quem são os paladinos?


O homem da rosa-branca não abrandou a passada, virou numa direita, entre duas rochas, apartando-se da criação humana, entrando em túneis naturais concebidos pela progenitora da vida, aqui não existiam nem portas, nem arcos, nada de deturpações, aqui era vida e suor de rochas.


— Somos nós, André, és tu, sou eu, são os miúdos, os polícias, até mesmo a velha, mãe de um príncipe ruinoso — interrompeu a frase, olhou para cima, miríadas de borboletas negras dançavam uma valsa alada. — É o sem-abrigo e uma loba.


André esforçava-se para o acompanhar, o telemóvel continuava apertado na sua mão, o símbolo de bateria piscava, todos necessitamos de alimento, até mesmo os seres eletrónicos.


— Mas por que paladinos? Quem é a criança?


Uma reentrância na esquerda, o ser da mais branca das rosas no jardim de Éden entrou por ela, era estreita, apertada, Marcos passou a custo, sentindo ferroadas em todo o corpo, os músculos berraram em dor.


— Cuidado onde metes os pés, bombeiro! — Sentiu a mão dele segurá-lo pelo peito, a seus pés estendia-se o abismo. — Existem muitas armadilhas neste local, o caminho da penitência é feito sobre espinhos e não rosas.


Contemplou o local onde se encontrava, um salão digno de monarcas gigantes, seres primordiais, irmãos de Gaia, tios da criança que teria que salvar, o topo tinha esmeraldas que refletiam uma luz inexistente, e o fundo era negro, como a alma da cidade do pecado.

Ambos os paladinos seguiram colados à parede rochosa, o golpe junto à omoplata de André gemia baixinho, acompanhado pele arranhar da derme, paredes de espinhos na roseira da vida, a sua pétala reluzia palidamente.


— Quanto falta, Marcos?


Era difícil de arrancar respostas a ele, a Marcos, que caminhava serenamente, sem olhar para trás, junto às rochas de Gaia.


— Como está a tua omoplata, André?


— Dói. Arde — os seus ouvidos captaram o som de água a cair a pique, o zumbido de mil colmeias recheadas de abelhas. — Por quê?

Novamente o silêncio do paladino, sem resposta, estaria André a fazer ainda perguntas erradas? Ele tinha muitas, imensas, uma sala inteira na biblioteca de Alexandria cheia delas.

O som da água aumentou de intensidade, o que inicialmente era apenas o zumbido de um mosquito agora era um trovão no olho da tempestade.


— Marcos?


O homem da rosa-branca parou, olhou para trás, direto para a alma de André, nela encontrava-se o abismo, existia dor e medo, dúvida e desconhecimento, contudo, no centro do negativo que lhe roubou as formas, as cores, que lhe concedeu a aura, existia um salto de fé. A avó sabia escolhê-los bem.


— Diz.


André ponderou, existia uma biblioteca que ardeu cheia de perguntas, mas queria apenas uma, afinal é difícil obter respostas das rosas, sentia o ar fresco, e gotas de água a refrescarem-lhe o corpo fatigado.


— Por que a pergunta da omoplata? — estranhamente essa foi a única questão que achou ser pertinente, a derradeira, todas as outras poderiam esperar, mas na entrada do precipício esta era a única que lhe fazia sentido.


— Vamos ter que escalar uma parede para chegar ao lago, estamos quase lá.


— Qual lago?


— Não podemos perder mais tempo André, existe um Deus a morrer e uma criança prestes a ser ofertada à bruxa das labaredas — seguiu caminho na beira do fim do mundo. — Vamos!

Poucos metros depois viu-a, no esplendor da sua magnificência, uma magistral parede de rochas salientes, a seu lado uma cascata vomitava no abismo, aqui não existiam morcegos nem memórias, era o vazio cósmico.


— Achas que consegues? — bramou Marcos por cima da troada da catarata, qual cantor num concerto de heavy metal.


André olhou para o alto, uns quinze metros, no mínimo, a omoplata latejava, guardou o telemóvel no bolso, fechou-o, Madalena.


Sentiu as glândulas salivares secar ante a visão, se a dor superasse o corpo, seria morte certa, o abismo é infinito, em baixo existe um oceano esquecido alimentado pelo vómito de um rio subterrâneo.


— Acredito que sim — o salto de fé.


Os paladinos colocaram as mãos nas rochas, apoiaram os pés e encetaram a escalada; Marcos permitiu o seu companheiro de metro e oitenta iniciar o percurso, ir na frente, com sorte, se ele despencasse em direção ao desconhecido, poderia tentar ampará-lo, segurá-lo.


Foi morosa a ascensão, a dor era incomensurável, André via luzes passarem em frente aos seus olhos negros a cada vez que forçava os músculos, (o caminho da penitência será apenas para os pecadores?) espinhos em vez de pétalas.


Quase no topo sentiu as pedras onde apoiou o pé direito transformarem-se em pó e desmoronarem sobre Marcos, ouviu-o berrar, o próprio bombeiro escorregou, agarrou as rochas mais pequenas com a força que apenas os paladinos detêm, e olhou para baixo, em busca do seu companheiro.


— Marcos? — silêncio sobre a queda de água. — Marcos? — berrou, com toda a robustez que as suas cordas vocais e pulmões ainda aguentavam.


As rosas não falam.


— Segue em frente André, até ao topo, e descansa um pouco lá — a avó, a mesma que lhe disse para largar os paramédicos.


Obedeceu, nada podia fazer, o detentor da rosa-branca tombou, um paladino de luz no negrume da existência.


 

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1 comentario


Carlos Palmito
Carlos Palmito
19 oct 2022

Mais um conto, um capítulo, a recuar na cronologia da cidade, este é a continuação do dos bombeiros

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