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TODAS AS FÊMEAS QUE ME DOMINAM Nº 7 — 15/04/2022

Atualizado: 15 de abr. de 2022

O novo apartamento de Pedro Paulo precisa de uma faxina. Paçoca continuará a fazer vítimas? Acompanhem as aventuras desse homem, dominado pela fêmeas.


Leia, critiquem, comentem!


Luiz Primati




TODAS AS FÊMEAS QUE ME DOMINAM

por Luiz Primati

IG: @luizprimati

DIARISTAS


Hoje o dia foi bem animado aqui no apartamento novo. Ainda estamos nos adaptando e o que mais nos chamou a atenção foi a falta de higiene que o antigo morador tinha. Chamamos uma diarista.


Para colaborar com a diarista, mandamos a Paçoca para o petshop tomar um banho.


— Pedro Paulo, avisa o moço do petshop que é para fazer uma tosa higiênica na Paçoca — gritou Maria Malvina do banheiro quando eu saia para levar a Paçoca até a portaria.


— Está bem — respondi.


— Ah! E vê se a Marinalva chegou e libera a entrada dela — completou.


Se tem alguém que me tira do sério é a Marinalva. Quem é Marinalva? Bem, Marinalva é a diarista que vem uma vez por semana. Poderia chamar de semanalista? Que seja, né? Então, a Marinalva, sempre vem com umas conversas esquisitas quando chega. Ela não gosta muito da profissão — eu imagino —, e ela acaba me irritando. Sempre faz as coisas correndo para ir embora logo. Nas primeiras vezes eu caia no golpe dela, mas já estou aprendendo. Estou sacando, como é que ela pensa. Vem com uma conversa, dizendo: seu Pedro Paulo, hoje eu não vou almoçar. Sempre pergunto: Marinalva, o que você quer comer hoje? Mostro o cardápio de uma marmitaria. Peço para mim e para a minha esposa, e deixo ela escolher. Quando ela está com intenção de ir embora logo, diz que não está com fome e que não é para eu pedir. E quando eu pergunto:


— Você aguentará ficar o dia inteiro sem comer nada? — responde ela:


— Em casa estou acostumada a comer lá pelas 4 da tarde. Mas antes disso, eu já acabei o serviço.


Malandra, essa Marinalva. Na verdade, era para ela ficar até umas 6 da tarde. Mas ela nunca fica. Nos dias que ela não pede a comida, quando é uma e pouco, está indo embora. Então, já aprendi: o dia que ela pede almoço, fica até mais tarde. O dia que ela não pede, vai embora mais cedo. Simples assim! Aprendi a lidar com ela. Quando ela chega pela manhã, já descarrego uma lista inteira de serviços para ocupar seu dia. Hoje a Maria Maldiva a pegou de jeito.


— Bom dia! Marinalva. Hoje você não sai daqui antes de terminar a faxina. E olhe que tem muito para fazer, ok? — disse Maria Maldiva firme. Ela sempre me cobra essas atitudes e tenho dó de falar assim com as pessoas. Parece que estamos maltratando-as… não nasci para mandar.


— Sim, senhora Maria — respondeu Marinalva com voz mansa e olhar debochado. Sorte que maria Maldiva olhava em outra direção.


A Marinalva é outra que defende a paçoca. Acredito que as mulheres se protegem. Por quê? Continuo odiando as ações e reações da minha cachorra. Principalmente quando ela morde meu pé e sai correndo. Ah! Como odeio isso! Sabe aqueles dentes finos, mordendo você bem na ponta do dedão, rapidinho e dando no pinote? É assim que ela faz e eu tenho muito ódio disso. Ah! Paçoca, se eu pudesse morder o seu dedo, você veria como é gostoso.


Pensando bem, a Marinalva até que é de uma das mais inteligentes diaristas que eu já tive. No passado, tive uma empregada doméstica que, apesar de muito esforçada, faltava um pouco de cérebro a ela. Se chamava. Ester. A Ester era um pouco estranha, sempre estava com goma-de-mascar na boca. Ela não conseguia trabalhar sem e eu odiava isso. Não gosto de pessoas que mascam algo enquanto olham para a minha cara. Parece desleixo, principalmente as que mascam com a boca aberta. É horrível isso, né? Então, a Ester era dessas. Enquanto trabalhava, ouvia seu rádio de pilha e mascava. Quando conversávamos com ela, e o assunto requeria um pouco de atenção, Ester parava, tirava a goma da boca e pedia para eu repetir. Não conseguia prestar atenção na gente, na verdade, raciocinar enquanto mascava. Ou fazia uma coisa, ou fazia outra. Depois acabou caindo na vida e viciou-se em crack, infelizmente. Tenho pena da Ester agora. Na época eu tinha um pouco de raiva das atitudes dela e agora, sinto pena.


— Pedro Paulo, não esquece de tirar os lixos. Ajude a Marinalva — gritou Maria Maldiva bem na hora em que eu estava saindo de fininho para uma caminhada.


— Maria, eu ia… — pensei bem antes de completar a frase. — … ia fazer isso justamente agora.


Odeio ter que fazer o trabalho da diarista. Afinal, por que pagamos a ela? Mas Maria Maldiva entende que eu devo ajudá-la e, ela, não pode, pois, estragará as unhas. Queria saber quem é que inventou essa história que as mulheres devem pintar as unhas toda semana…


Voltando a falar da Ester, ela até foi capaz de sair com o marido da amiga da minha esposa. Você acredita numa coisa dessa? Eu também não acreditei quando Maria Maldiva me contou e foi aí que a dispensamos. Ele era bem safado também. Descobrimos que Ester e esse marido de nossa amiga chegaram a fumar maconha na minha casa. Um absurdo! Ester não era santa, não era flor-que-se-cheire.


Nem todo mundo é só maldade e, às vezes, ela tinha atos de bondade. Eu vivia sempre nessa dualidade com Ester: compaixão e ódio. E teve um ato de bondade que ela me fez, mas que acabou se transformando em ódio depois. Vou contar para vocês. Ester sabia que eu gostava muito de um cantor internacional, Paul McCartney. Uma rádio local anunciou que sortearia dois ingressos para o show dele, que seria em São Paulo. Ela ficou ligando na rádio o dia todo e colocou o meu nome para concorrer aos ingressos. Para surpresa de todos, ela acabou ganhando esses ingressos. Quer dizer, eu acabei ganhando sem saber que tinha ganho. Aí a Ester ligou desesperada para o meu trabalho.


— Seu Pedro Paulo, seu Pedro Paulo, o senhor, pode vir correndo para casa? Porque o senhor acaba de ganhar ingressos para o show do Pol Macarte — disse Ester da forma que compreendia o inglês.


— Como assim? — questionei espantado.


— É que eu dei o nome do senhor na rádio e senhor foi sorteado — disse feliz. — Só que tem que buscar os ingressos agora, e eu tenho que estar junto. Se não chegarmos na rádio até às 4 da tarde, o senhor vai perder os ingressos.


Ela mal terminou a frase e saí correndo para casa para pegar a Ester. Corremos para a rádio através de uma avenida que, ao final, dobrando para a direita, ganharíamos outra avenida e lá estaria os ingressos me aguardando. Faltando muito pouco, muito pouco mesmo para dar o horário, eu acabei me distraindo quando fui adentrar a segunda avenida e entrei com o meu carro atrás de um caminhão. Lá se foram os ingressos e a frente do meu carro.


O motorista desceu do caminhão assustado e preocupado:


— Vocês estão bem? — disse olhando para nós, depois para a frente do meu carro com o capô todo amassado e depois para o para-choques de seu caminhão.


— Acho que sim — respondi. — Quanto ao prejuízo…


— Com meu caminhão não aconteceu nada… — antecipou a conversa. O problema era totalmente meu.


Foi um prejuízo enorme. Eu não ganhei os ingressos para o show. Ester, com esse ato de bondade, transformou meu dia num pesadelo. Eu devia ter ficado no trabalho. Dias depois, eu e Maria Maldiva assistimos ao show do Paul McCartney pela TV. Quando a câmera sobrevoou a plateia, Maria Maldiva me chamou a atenção:


— Pedro Paulo, olhe ali no canto da TV, não parece a Ester? — olhei com atenção.


— Será? Ela não teria dinheiro para…


— Ester, sua desgraçada! — gritamos em uníssono.


* * *


O interfone do apartamento tocou, me trazendo de volta para a realidade. Marinalva atendeu.


— Seu Pedro Paulo, o petshop chegou com a Paçoca. O senhor quer que eu vá buscá-la?


— Quero sim, obrigado!


Quando Paçoca chegou, ela estava ridícula. Tosaram ela todinha e ficou parecendo um outro cachorro. Não me aguentei e comecei a rir. Paçoca se irritou e começou a latir furiosa.


— Seu Pedro Paulo, a sua mulher não vai ficar feliz de ver a Paçoca desse jeito — disse em tom de sermão.


— E eu com isso? Foi ela que pediu uma tosa completa, você ouviu, não ouviu? — defendi-me tentando arrastar Marinalva de testemunha.


— Eu não ouvi não. Encontrei o senhor lá na portaria, já se esqueceu seu Pedro? — disse Marinalva com as duas mãos na cintura.


Era verdade. Marinalva não estava aqui ainda. Mas ela iria me apoiar.


— Mesmo assim. Você sempre ouve a Maria dizendo que é para fazer a tosa completa, não ouve? — questionei.


— Não senhor. Ela pede tosa higiênica — disse com ar triunfante e depois começou a me olhar com pena.


Paçoca ficou latindo irritada por sentir-se nua. Eu comecei a suar frio. Escutei Maria Maldiva gritar do quarto.


— Paçoca chegou? Vem aqui meu amor…


A cachorra correu até ela.


— Marinalva, vou descer levar os lixos — falei.


— Mas o senhor já… — Marinalva nem conseguiu terminar a frase e eu já estava no hall do elevador.


— PEDRO PAULO! O QUE VOCÊ FEZ? — gritou Maria Maldiva, enquanto a porta do elevador fechava.




AUTOR

Luiz Primati

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