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REFLEXÕES Nº 68 — 18/06/2023


Imagem gerada com IA MidJourney


 

AUTORA ARLÉTE CREAZZO



ARLÉTE CREAZZO (1965), nasceu e cresceu em Jundiaí, interior de São Paulo, onde reside até hoje. Formou-se no antigo Magistério, tornando-se professora primária. Sempre participou de eventos ligados à arte. Na década de 80 fez parte do grupo TER – Teatro Estudantil Rosa, por 5 anos. Também na década de 80, participou do coral Som e Arte por 4 anos. Sempre gostou de escrever, limitando-se às redações escolares na época estudantil. No professorado, costumava escrever os textos de quase todos, para o jornal da escola. Divide seu tempo entre ser mãe, esposa, avó, a empresa de móveis onde trabalha com o marido, o curso de teatro da Práxis - Religarte, e a paixão pela escrita. Gosta de escrever poemas também, mas crônicas têm sido sua atividade principal, onde são publicadas todo domingo, no grupo “Você é o que Escreve”. Escrever sempre foi um hobby, mas tem o sonho de publicar um livro, adulto ou infantil.

 

ESTRANHOS AO MEU LADO


Sento-me na sala de espera do consultório onde mais três pessoas já se encontravam. Olho ao redor e percebo que todos estão “ocupados” olhando em seus celulares, vendo uma revista ou simplesmente se esforçando para desviar o olhar.


A secretária nos informa que o médico está em cirurgia e se atrasará para atendimento. Percebo que alguém bufa levemente, deixando claro seu descontentamento. Mas então percebo que ela está vestida como se fosse para uma academia — então já começo a imaginar se sairá do consultório para se exercitar ou trabalhar? Afinal quem é essa pessoa? Para onde ela realmente vai? Como será seu dia após sair do prédio?


Outra pessoa, um homem, quase encolhido num canto, digita mil mensagens no celular. O que estará realmente fazendo? Para que tantas mensagens? Seriam para uma única pessoa ou várias? E qual a necessidade de enviá-las agora? Trabalho? Organização doméstica? Escola dos filhos? Ou seria apenas entretenimento por estar entediado na espera?


A terceira se levanta indo até a janela, olha e volta a se sentar. Dois minutos depois levanta-se novamente, vai para a mesma janela, olha e torna a se sentar. Pega uma revista, folheia como se nada visse, fecha e novamente está à frente da mesma janela.


Cada um a seu modo tentando ser “invisível”; ao menos esta foi a análise que consegui fazer.

Tento imaginar alguma palavra que pudesse quebrar o gelo e não criasse nenhum conflito ou desconforto entre os presentes. Nada muito político ou religioso. Então depois de passar um bom tempo analisando a situação eis que me vem uma ideia brilhante. Tomo coragem e digo:

— Bonito dia né? Espero que continue assim no final de semana.


Ao dizer isso, percebo que o homem do celular levanta levemente os olhos e logo em seguida volta para suas mensagens, o outro se levanta, vai até a janela e diz hum-hum. A atleta simplesmente responde:


— Tomara.


Com a minha natureza cordial — significado de cordial para meus parentes = falador —, novamente tento pensar em um assunto para, digamos, ocupar o tempo com o menor estresse possível.


Algo do tipo “Será que o médico vai demorar?” — não seria de forma alguma uma boa ideia, já que poderia gerar uma pequena revolta aos estranhos que me cercavam. Hoje, tudo o que dizemos pode virar um processo, vídeo no Youtube, ou até um simples soco no olho.

Tento então uma abordagem diferente: que tal se eu interagisse individualmente?


O primeiro que arrisco é o dedinho nervoso no celular; preciso identificar meus companheiros. Assim que ele me olha, ataco:


— Nada como a tecnologia…


Ele me olha, faz uma breve análise das minhas palavras e responde convicto:

— Pois é...


Tento novamente, me mostrando entendido no assunto:


— Mas as vezes a tecnologia falha e nos deixa na mão.


Ele olha para o celular, dá uma boa olhada em seu aparelho e chega a uma conclusão:

— Dificilmente...


Percebo que a conversa já acabou e tento uma outra vítima. Olho para o perturbado, o cara da janela, e sinto que ele está em desespero. Então o que dizer? Como poderia acalmá-lo? Resolvo falar de mim, afinal nada do que eu falasse de mim mesmo poderia ofendê-lo.


— Eu tomaria um café agora... me deu uma vontade de um cafezinho...


Ele me olha indignado e diz:


— Café dá azia.


— É verdade! – Respondo — Mas não deixo de gostar ou mesmo de beber.


— Cada um faz o que lhe convém... – Diz o perturbado.


Não tendo muita certeza de como esta conversa terminaria, resolvi interagir com nossa atleta. Afinal dizem que pessoas que praticam esportes são mais amigáveis.


Chego próximo e já comento:


— Exercício é ótimo! Gostaria muito de ter disposição para praticar algo.


Não entendi o olhar que ela me deu quando terminei a frase, mas quando me respondeu percebi que minha colocação não havia sido das melhores.


— Eu também gostaria de ter disposição para praticar algo, ao invés de praticar Pilates por conta de um problema na coluna.


Bingo! Ela não sairá do consultório para trabalhar; foi a única coisa que consegui pensar ao tomar esse soco no estômago. Resolvo então voltar à minha poltrona e enfiar a cara em uma revista, de modo que não conseguisse mais nenhum contato visual.


Quarenta minutos depois o médico chegou. Logo percebi que o “humor” dos presentes não se alterou. Isso me fez sentir pena do doutor. Tinha acabado de sair de uma cirurgia e enfrentaria o pelotão de fuzilamento; como disse tenho que identificar meus companheiros.


Sei que consultório médico não é um ambiente festivo, mas será que temos que torná-lo pior?

Onde está a simpatia das pessoas? Tudo se transforma em problema, estresse, obrigação? Ninguém consegue tirar proveito de uma situação imutável?


Na minha visão, o fato do médico se atrasar seria um ótimo momento para que estranhos se conhecessem —lógico que ninguém se tornaria amigo íntimo —, mas ao menos teríamos uma conversa despretensiosa para tornar a situação mais leve.


Olhando meus três companheiros de sala, cada um em sua individualidade, fazendo o possível para continuar em seu mundinho, percebo, neste exato momento, que o estranho era eu.


 

AUTORA STELLA_GASPAR


Natural de João Pessoa - Paraíba. Pedagoga. Professora adjunta da Universidade Federal da Paraíba do Curso de Licenciatura Plena em Pedagogia. Mestre em Educação. Doutora em Educação. Pós-doutorado em Educação. Escritora e poetisa. Autora do livro “Um amor em poesias como uma Flor de Lótus”. Autora de livros Técnicos e Didáticos na área das Ciências Humanas. Coautora de várias Antologias. Colunista do Blog da Editora Valleti Books. Colunista da Revista Internacional The Bard. Apaixonada pelas letras e livros encontrou na poesia uma forma de expressar sentimentos. A força do amor e as flores são suas grandes inspirações.
 

NINHO DE ROSAS


Ah! Como me sinto feliz!

No meu ninho de rosas tem sempre um beija-flor, que chega silenciosamente e deixa uma mensagem de amor e paz!


As rosas me encantam, os espinhos que nelas se encontram não me ferem, elas sabem que eu preciso de carinho em minha pele.


Rosas de todas as cores e tamanhos, como as simples poesias que encantam, fazem parte da poética desse ninho.


Tudo é calma e imaginação, entre elas respiro melhor com a minha solidão de momentos, como os fortes ventos que chegam e se vão.


A noite chega, faz frio nessa íntima perfumaria floral. As luzes das estrelas chegam e meus sonhos também. Dois braços encantadores me aninham. Tudo é envolvente como uma pétala escrita para o amor.


Ninho de rosas, nada nos impede que o imaginemos assim...


 

AUTOR LUIZ PRIMATI


Luiz Primati é escritor de vários gêneros literários, no entanto, seu primeiro livro foi infantil: "REVOLUÇÃO NA MATA", publicado pela Amazon/2018. Depois escreveu romances, crônicas e contos. Hoje é editor na Valleti Books e retorna para o tema da infância com histórias para crianças de 3 a 6 anos e assim as mães terão novas histórias para ler para seus filhos.
 

CHEIRO DE PESSOA VELHA


Em um experimento envolvente, testemunhei seres de olhos vendados desvendando segredos perfumados em pessoas à sua frente. Era o aroma da idade, que deveriam decifrar: juventude ou maturidade?


E, para minha surpresa, a maioria acertou. A ciência nos revela que, ao atravessarmos o tempo, nossos odores se transformam. São mudanças sutis, fisiológicas e químicas, que reinventam a essência de nosso ser.


Essas mudanças se desdobram em quatro atos:


A pele, guardiã da alma, torna-se mais tênue e seca, retendo menos umidade. Nessa metamorfose, equilíbrios bacterianos se rearranjam e, assim, nosso odor se recria.


O metabolismo, maestro incansável, conduz essa sinfonia olfativa. Glândulas sudoríparas, ao longo dos anos, diminuem seu compasso. O suor, comparado ao da juventude, exala uma melodia distinta, reservada aos ouvidos mais sábios.


Medicamentos e dietas, pincéis de aromas, também pintam os contornos de nosso corpo. Com seus componentes químicos, tecem fragrâncias únicas. Mistério envolvente!


Por fim, uma substância desvendada pela ciência: o 2-nonenal, artífice de ácidos graxos. Seu incremento, qual nota perfumada, exala um aroma diferenciado. Uma canção olfativa, marcante e singular.


Sim, envelhecer é uma jornada que todos trilhamos. Em cada semblante, em cada espírito, o tempo esculpe linhas e perfumes ímpares. Assim, devemos enaltecer aqueles que carregam consigo essas fragrâncias maduras. Não julguemos pelo aroma que exalam, pois desconhecemos as melodias que embalam suas vidas.


Quantas vezes, precipitadamente, ouvimos murmúrios de negligência e descuido? Quão injusto é tal veredito! Pois os perfumes são sutis, enganosos, não revelam a verdade que se oculta sob seus véus.


Dignidade e respeito devem ser os faróis que nos guiam ao tratar dos portadores desse tesouro do tempo. Pois, quando a nós chegar a hora de abraçar os dias vindouros, que sejamos lembrados por nossa compaixão e empatia, e não por efêmeras essências.


 

AUTORA SIMONE GONÇALVES


Simone Gonçalves, poetisa/escritora. Colaboradora no Blog da @valletibooks e presidente da Revista Cronópolis, sendo uma das organizadoras da Copa de Poesias. Lançou seu primeiro livro nesse ano de 2022: POESIAS AO LUAR - Confissões para a lua.

 

AMOR-PRÓPRIO


Por entre rosas e espinhos,

Percorreu longos caminhos,

Em busca dos sonhos,

Da felicidade em viver

À sua maneira,

Na liberdade de escolha,

Na vontade de vencer.

O amor sempre foi algo imprescindível,

Mas o que importava primeiro,

Era seu amor-próprio.

Deixava o sorriso iluminar

Seus passos nesse longo caminhar,

Para trazer a si tudo que se desejava,

E na pureza de seu coração,

Conquistou tudo que sonhou um dia,

Tornou-se uma grande rainha,

Dona de si, mas não perdendo sua doçura.


Ontem, menina que sonhava acordada,

Hoje, mulher que vive seus sonhos.

 



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2 Comments


Que as reflexões sugeridas por nossos queridos escritores toque os corações de muitas pessoas, assim como tocou o meu. 💖💯✍️📚

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Stella Gaspar
Stella Gaspar
Jun 18, 2023

Que maravilha, um domingo coma beleza desses escritos, é perfeito e animador!!! 😍😊🤗

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