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REFLEXÕES Nº 107 — 10/03/2024

Máquina de escrever antiga
Imagem criada com a ferramenta de IA Midjournei

 

AUTOR LUIZ PRIMATI


LUIZ PRIMATI é escritor de vários gêneros literários, no entanto, seu primeiro livro foi infantil: "REVOLUÇÃO NA MATA", publicado pela Amazon/2018. Depois escreveu romances, crônicas e contos. Hoje é editor na Valleti Books. Em março estará lançando seu livro de Prosas Poéticas, "Melancolias Outonais" e o romance de suspense "Peter manda lembranças do paraíso".

 

ELOS

Vamos mergulhar em uma aventura emocionante pelo tempo, até este exato instante. Imagine que pode apagar um momento da sua vida, mas não um qualquer – pense naquele encontro mágico com a pessoa que mexe com sua alma. Conseguiu visualizar? Sente como sua vida perderia cor sem esse dia?

Somos feitos por momentos e encontros. Uma pessoa nos leva a outra, um instante nos guia para o próximo. Cada escolha desenha o caminho até aqui, conectados pelo fio invisível que é o nosso mundo.

Imagine um universo onde você nunca tivesse cruzado com sua alma gêmea por escolher fica em casa naquele dia. E aquela amizade verdadeira da escola, se você tivesse fechado as portas para uma simples conversa?

E aquela mensagem de madrugada no Instagram, que trouxe alguém para compartilhar todos os seus segredos? Será que essa pessoa estaria ao seu lado se você tivesse ignorado aquele sinal do destino?

A vida é um quebra-cabeça fascinante, e cada conexão é um mistério só decifrado pelo universo. Eu, por mim, não apagaria nenhum dia, pois cada escolha me trouxe até aqui, onde tudo que amo e valorizo foi construído com base nessas decisões.

Sem essas escolhas, não teria as risadas dos meus netos, o calor da minha família, os amigos de longa data, o cantinho que chamo de lar ou a paixão pela tecnologia.

E aquele amor juvenil que deixou marcas, seria melhor não tê-lo vivido? Sem essas cicatrizes, eu não teria a força para escrever, faltariam inspirações para aprimorar minha arte, talvez nunca descobrisse o prazer de contar minha própria história.

Se apagasse meu primeiro suspiro, não estaria aqui, compartilhando esses pensamentos com você, e você não teria essas palavras para refletir.

Cada dia é um capítulo essencial da nossa história, um presente que merece ser celebrado com gratidão. Viva a vida, celebre cada amanhecer como um novo presente a ser desembrulhado.

P.S. Esse texto foi inspirado na obra de Charles Dickens, "Grandes Esperanças" onde Pip, o protagonista, explora suas esperanças, desilusões e o impacto de suas ações e das ações de outros em seu destino.

 

AUTORA ARLÉTE CREAZZO


ARLÉTE CREAZZO (1965), nasceu e cresceu em Jundiaí, interior de São Paulo, onde reside até hoje. Formou-se no antigo Magistério, tornando-se professora primária. Sempre participou de eventos ligados à arte. Na década de 80 fez parte do grupo TER – Teatro Estudantil Rosa, por 5 anos. Também na década de 80, participou do coral Som e Arte por 4 anos. Sempre gostou de escrever, limitando-se às redações escolares na época estudantil. No professorado, costumava escrever os textos de quase todos, para o jornal da escola. Divide seu tempo entre ser mãe, esposa, avó, a empresa de móveis onde trabalha com o marido, o curso de teatro da Práxis - Religarte, e a paixão pela escrita. Gosta de escrever poemas também, mas crônicas têm sido sua atividade principal, onde são publicadas todo domingo, no grupo “Você é o que Escreve”. Escrever sempre foi um hobby, mas tem o sonho de publicar um livro, adulto ou infantil.

 

TODAS AS MULHERES QUE AINDA QUERO SER

Comecei como filha e irmã (já que tenho um irmão mais velho) e juntamente fui sobrinha e neta.

Em pouco tempo passei a ser vizinha e alguns anos mais tarde aluna e amiga.

Na adolescência fui também funcionária, enquanto era todo o resto, sempre tentando administrar minhas mulheres da melhor forma possível.

Ainda junto com tudo isso, fui namorada, atriz amadora e participante de um grupo de coral.

Pouco mais tarde passei a ser noiva e esposa.

Na minha caminhada de esposa, fui consolidando meu papel de filha, irmã, amiga, vizinha, sobrinha e neta.

Foi quando cheguei a um dos meus papéis mais importantes: o de mãe.

Mas sendo mãe, não me esqueci das minhas eus anteriores. Continuei sempre tentando ser a melhor versão de mim.

Quando passei a ser avó, descobri mais uma mulher escondida em mim que amei conhecer.

Com o passar do tempo continuei sendo a atriz amadora da adolescência e a cantora do coral, mas descobri uma outra eu, a de escritora.

Seria mais uma função para administrar, mas acredito estar obtendo êxito em todas elas.

Posso me considerar uma pessoa realizada por todas as funções que tive na vida, mas ainda poderei ser mais completa.

Quero dar liberdade a mulher paraquedista, balonista, aventureira, viajante, e pretendo conviver muito bem com cada uma delas.

Há muitas mulheres ainda dentro de mim e aos poucos as liberto, para que cada uma possa ter o seu espaço.

 

AUTORA MARINALVA ALMADA


MARINALVA ALMADA é diplomada em Letras Português/Literatura e com uma pós-graduação em Alfabetização e Letramento pelo CESC/UEMA, encontrou no ensino a oportunidade de semear conhecimento e despertar amor pelas palavras. É professora nas redes públicas municipal e estadual. Tem como missão transformar vidas através da educação e da leitura literária. Deleita-se com a boa música, a poesia, a natureza, os livros e as flores, elementos que refletem sua personalidade multifacetada. Escreve regularmente no Recanto das Letras, participa com frequência de concursos literários, antologias e feiras literárias. Em 2023 realizou o sonho de publicar pela Valleti Books, o livro Versificando a vida, juntamente com as amigas Cláudia Lima e Zélia Oliveira.

 

A MULHER E O SILÊNCIO

Não cabe num livro o silêncio de uma mulher que sofre violência doméstica.

Não cabe num livro a dor de uma filha que presencia a mãe ser agredida.

Não cabe num livro a angústia de uma mãe que tem uma filha assassinada pelo marido, companheiro ou namorado.

Não cabe num livro o sofrimento de uma irmã que vê sua mana ser chantageada, xingada, maltratada pelo homem com quem convive.

Não cabe num livro a impotência de uma sobrinha que escuta os horrores que sua tia sofre cometidos pelo marido.

Não cabe num livro o medo de uma filha que vê o pai chegando em casa bêbado abusando e querendo ter razão.

Não cabe num livro o pânico de uma mulher quando se sente ameaçada pelo companheiro, marido ou namorado.

Muitos não entendem o silêncio que a mulher guarda.

Muitos não sabem o que passa na mente de uma mulher.

Num livro só, não há espaço para tanta dor e desilusão.

Os pensamentos de uma mulher, fechada em si, percorrem as galáxias da dor e do sofrimento em busca de uma solução.

 

AUTORA ALESSANDRA VALLE


Alessandra Valle é escritora para infância e teve seu primeiro livro publicado em 2021 - A MENINA BEL E O GATO GRATO - o qual teve mais de 200 downloads e 400 livros físicos distribuídos pelo Brasil. Com foco no autoconhecimento, a escritora busca em suas histórias a identificação dos personagens com os leitores e os leva a refletir sobre suas condutas visando o despertar de virtudes na consciência.

 

ENCONTRO COM DEUS

O ano não havia nem começado quando comprei uma agenda para marcar meus compromissos.

Ainda prefiro o papel para fazer pequenas anotações, ainda mais se tiverem data, hora e local.

Anoto tudo na agenda: aniversários, reuniões, tarefas escolares do filho, consultas médicas e ideias criativas para escrever contos, poemas e livros para infância.

O ano começou e no primeiro dia abri a agenda para verificar o que havia anotado. Para minha surpresa nada havia escrito no dia primeiro de janeiro.

Confesso que folheei a agenda e percebi que em vários dias do ano já havia anotado aniversários de familiares e amigos.

Entretanto, no meu próprio aniversário, que é no primeiro dia do ano, eu não anotei nada. A folha estava em branco.

Um tanto frustrada e com a mente em processo analítico pude fazer uma dessas promessas de fim de ano que quase todos fazem. Preciso dar mais atenção a mim mesma.

Permaneci alguns minutos olhando a página do dia primeiro de janeiro e tive a atenção despertada para uma pequena frase que estava no canto superior direito, logo abaixo do número 01.

Assim dizia: "Um dia perfeito para encontrar Deus".

Percebi que não marquei esse encontro na minha agenda, nem mesmo em qualquer outra data no decorrer do ano.

O convite estava feito desde que comprei a agenda. Não precisei comprar presente, nem roupa nova. Não era necessário que me deslocasse a qualquer parte da cidade.

Apenas aquietei a mente frustrada, refleti e me recolhi em prece para que pudesse encontrá-Lo.


 

AUTOR AKIRA ORDINE


AKIRA ORDINE é um escritor, poeta e músico carioca. Desde cedo apaixonado pela literatura, utiliza a arte como espaço de luta e refúgio, colocando bastante de si em tudo o que escreve. Tem muitos livros, vários deles, verdadeiros amigos.

 

MULHER SAPIENS

De vez em quando, mas quase sempre devido à minha área de estudo, gosto da ideia de problematizar conceitos historicamente consolidados. Pois bem, na última sexta-feira (08/03) foi comemorado o Dia Internacional da Mulher, e dá pra traçarmos diversas linhas de análise sobre essa data.

Primeiro de tudo, é estarrecedor notar como a história ocidental surfa na onda do machismo ao longo de séculos e até os dias de hoje. Desde o apagamento de figuras como Hatshepsut, uma faraó que governou o Egito Antigo entre 1479 a.C. e 1458 a.C. em um governo de diversos avanços para os egípcios, até o uso de um vocabulário extremamente sexista a partir do emprego de termos como "o homem", quando se faz necessário generalizar toda a espécie humana.

É verdade, tivemos muitos avanços nos direitos das mulheres nas últimas décadas, mas é válido dizer que ainda há muito chão a se percorrer, vide a carência de representatividade feminina na política.

Outro ponto a ser colocado é, ao meu ver, a falsa ideia das datas representativas, tanto as nacionais, quanto as internacionais, representarem alguma mudança social efetiva para os grupos reivindicados. Não, também não irei replicar o discurso deveras complicado de que não devíamos ter mais data nenhuma, e sim um dia do ser humano, mas a questão que ponho é: será que as mulheres no resto do ano estão sendo valorizadas?

As mulheres precisam de fato ser vistas como as grandes protagonistas, assim como percebiam as antigas sociedades matriarcais do continente africano. Afinal, quem gera a vida? Quem de fato permitiu a continuidade da humanidade, mesmo em meio às guerras e às intempéries? A mulher não é coadjuvante do teatro da vida, pelo menos não deveria ser.

Pensando nisso, proponho uma ruptura com a terminologia científica de nossa espécie, pelo menos no título do meu texto. É isso, feliz dias das mulheres. Dias mesmo, no plural.


 

AUTORA SIMONE CAETANO

IG: @simonecaetanofa


SIMONE CAETANO FARIAS, nasceu em Salvador, é leonina, quando criança leu as obras de Monteiro Lobato – O Sítio do Picapau Amarelo e Tesouro da Juventude (W. M. Jackson, Inc.), coleções do seu pai Almir de Abreu Farias, ex-combatente da Marinha do Brasil e escritor autodidata, que a inspirou como escritora. Simone é  bacharel  em  Comunicação Social – Jornalismo pela Faculdade Social da Bahia (2010), pós-graduada em Relações Públicas  (Universidade do Estado da Bahia, 2002) e bacharel em Química (Universidade Federal da Bahia,1992). A escritora é Perita Criminal Grafotécnica do Estado da Bahia e autora de diversos artigos e textos acadêmicos como: “Major Cosme de Farias – Vida e Memória” (reportagem fotográfica do curso de fotografia da FSBA, 2006); “És belo, és forte São Marcelo” (reportagem fotográfica, revista Mídia B, 2009), dentre outros.  Autora do livro biográfico “A voz de Armandinho Macêdo” (Vento Leste, 2012); do conto “Reverso da Tristeza” (Coletânea de contos - Novos Autores, Neila Bruno, Editora Plante, Canal 6, 2021) e do conto “Lar dos pets” (Coletânea de contos – Novos Autores, Vol 2, Editora Plante, 2022). Autora da poesia “É Natal” (Coletânea de poemas, Neila Bruno, Canal 6, 2022); além dos contos “Pássaros feridos”, “Mãe olhe para mim” e “Estações da Cruz” (Conto por conto: Sentimento maternal, editora Valleti Books, 2022) e do conto “O amor e o tempo” (Conto por conto: Amores modernos, Valleti Books, 2023). Simone Caetano, como assina seus textos, adora viajar e dos lugares que visita em cidades no Brasil e no exterior do país, escreve sobre a cultura e história diversa que lhe chama atenção dos olhos e da alma, quando se sente tocada a se expressar da melhor maneira que sabe, na escrita.

 

O CAPITÃO E O REI

Ele veio de longe, dos planaltos do sul, no seu cavalo branco, puro-sangue e veloz, porém, ambos já estavam cansados de tanta cavalgada. O cavaleiro parou para descansar no meio da mata, em uma clareira cercada por grandes árvores, próxima a um afluente de rio, onde comeram frutas e adormeceram, recuperando as forças para uma nova jornada.

Capitão James dormiu, em meio ao sono agitado, sonhou que estava num grande castelo sentado na cadeira régia diante de uma celebração com diversos convidados, todos saudando o grande rei, e assim, acordou sobressaltado. Não entendeu o motivo do sonho, reportou-se ao último castelo que freqüentou, onde o rei Armando o convocou para uma missão, pois assaltantes de gado estavam tocando terror nos seus súditos, então, após conseguir prender todos os meliantes com ajuda dos seus amigos cavaleiros do rei, seguiu sem rumo na única estrada que tinha à sua frente. Era um cavaleiro solitário e destemido.

Capitão James chegou à vila simplória, com casas humildes, ladeadas, formando um grande círculo onde havia pessoas vagando pelas ruas, outras em pares conversando, algumas bem magras usando roupas esfarrapadas. No centro da vila, uma praça com uma fonte sem água, tudo muito seco e quente, inclusive a vegetação ressecada com a falta d’água. O capitão ao perceber que não poderia dessedentar-se, nem ao seu corcel, olhou ao redor em busca de uma pessoa para pedir informações. Ele viu um trabalhador de roupas sujas e muito magro, e logo perguntou:

- Meu bom senhor, pode me dizer onde encontro um pouco de água fresca para mim e meu cavalo, e algum alimento também?

O homem, curioso, prontamente lhe atendeu com toda gentileza típica das pessoas simples:

- Infelizmente, meu senhor, são duas coisas tão importantes ao homem e, agora, difíceis de encontrar, pelo menos nessa vila onde falta comida e água. Estamos passando dificuldades e não temos condições para plantar e criar os bichos... bodes, carneiros...

- Mas, o que está acontecendo? – perguntou o capitão interessado.

- Vi tanta floresta e vegetação diversa por todo caminho até chegar a essa vila, muitos lugares bons para o plantio, percebi pela cor da terra a fertilidade dessas paragens, além de avistar um rio caudaloso próximo da mata e não muito distante da vila. Por sinal, qual o nome daqui?

- O senhor está na Vila da Prosperidade, a maior da região onde, um dia, havia riqueza, pastagens sem fim, com gordos animais pastoreados por homens fortes, felizes e mulheres bonitas, de rostos bronzeadas, cantando nas ricas plantações de cevada, trigo, milho e aveia. Ao entardecer, essas mesmas mulheres, iam para suas casas cuidar dos filhos e preparar o jantar de mesa farta de pão caseiro, carne, frutas, sopa de legumes e vinho. Antes de dormir seu sono de descanso, ainda tinham forças e vontade de costurar as roupas da família ou fiar algodão para bordados e tecer os panos dos vestidos coloridos. Mas, meu bom senhor, isso já tem muito tempo, eu nem conheci esses tempos de fartura, foram meus pais quem encheram meus ouvidos e sonhos de histórias felizes do passado. A nossa vida agora é de muita tristeza pela fome e perdas de nossas crianças, idosos e até de trabalhadores por várias doenças, pois, não temos quem cuide da nossa saúde, nem água limpa para evitar as doenças.

O capitão ficou surpreso com a resposta e mais interessado ainda: - E o que houve que tudo mudou de forma tão drástica? Qual o seu nome bom homem?

- Chamo-me Arnold, sou agricultor e pastor, sem plantio nem ovelhas para pastorear, infelizmente! Há muito tempo que apenas um rei, ministros e sua corte de duques e marqueses vivem na fartura e desperdício de comida que nem seus serviçais reaproveitam as sobras; as suas mulheres ostentam ricas jóias do oriente, com pedras preciosas e muito ouro, este, muito bem guardado para as próximas gerações.

- Que Absurdo! - Bradou capitão James.

- Como pode tanta miséria em terras tão férteis? Pretendo ficar por um tempo nesta vila e gostaria de ajudar. Poderia me reunir com outras pessoas interessadas para planejarmos ações que beneficiem a todos, com quem podemos contar?

Arnold ficou surpreso com a atitude do viajante e acrescentou.

- Sim, temos uma vila pequena, mas com homens e mulheres valorosos que, certamente, vão gostar de lhe conhecer.

E assim, passaram-se semanas, meses e, antes do inverno e da colheita, já havia um grupo de pessoas organizadas e trabalhando em benefício daquela comunidade. A ponte que estava desativada há muito tempo, devido à ruptura pelas chuvas e descaso do rei, foi consertada e ficou transitável. E ainda, de acordo com a boa idéia do capitão, foi alargada e ficou mais forte, com novos suportes de grandes pedras e madeira resistente. Agora já podia suportar o peso de mais de uma carroça ou carruagem, além de espaço para o caminhante andar. O capitão não estava só, Arnold, mas esperançoso, buscou nove cavaleiros e três mulheres da vila que se sobressaiam na coragem e inteligência nas discussões pertinentes aos graves problemas existentes na região. O rei, mesmo ciente de tais demandas, nunca dava importância nem solução, parecia que a cada reclamação, ele aumentava os impostos cobrados e diminuía o fornecimento da água e sementes aumentando a penúria do povo. Eram eles: Paulo de Tarso, Marco Polo, Diana, Tereza, Artur, Joana, João Romário, Wilson, Thiago, Pedro, Miguel e Cícero. Eram todos amigos desde a infância feliz em terras verdes e férteis, passando pela caneca de vinho até o trabalho duro no arado da terra, sempre juntos nas dificuldades de um reino com rei sem dignidade, Alfredo, o terrível, nem era grande por ser quase anão, nem tão pouco magnânimo, por ser um rei déspota.

O plantio também foi ampliado e diversificado, além de cevada e trigo, outros grãos foram cultivados como ervilha, milho e feijão. No pasto, além de cabras e ovelhas, o gado de leite, galinhas e patos multiplicaram. Capitão James havia adquirido bom conhecimento durante sua vida em áreas diversas, pois era curioso e disposto a aprender novos procedimentos voltados à produção de alimentos e construção de casas, estradas e pontes. Contava ainda com homens e mulheres fortes e destemidos com quem pôde trocar conhecimento diverso.

Um grande moinho foi construído em lugar mais estratégico para melhor aproveitar a força do rio caudaloso. O povo estava precisando de um novo líder que compreendesse as necessidades das pessoas, elas estavam esmorecidas e sem esperança diante de tanta soberbia e desperdício na corte do rei. A estrada esburacada foi recuperada e pavimentada por novas pedras das rochas seculares e vulcânicas.

O dia da festa da colheita estava próximo, na semana que antecedia esse evento da cultura milenar da região, já havia comemoração com muitos grãos, pães, queijos diversos e vinho em abundância. Até a última colheita não havia o que comemorar, nem fartura de comida nem vinho, pois as parreiras tão antigas estavam ressecadas, sem água nem cuidados devidos, favorecendo a infestação de pragas. No domingo, no dia da festa, o povo estava feliz, pessoas bonitas, de roupas novas, dançavam a típica quadrilha ao som da música tradicional e festiva, só havia um pensamento: “Vida longa ao capitão James”. Todos tinham consciência que sua forte liderança e coragem transformaram o imaginário popular, tão descrente e desesperançoso, por tantos anos, na egrégora favorável e positiva que tudo cocria em parceria com o universo.

Foi com esse espírito coletivo de progresso e vitórias que o povo, liderados pelo capitão e os 12 corajosos guerreiros, planejaram a próxima e decisiva etapa...

No reino Rei Alfredo acordou meio dia, sem pressa de sair da cama, pijama de seda pura da Índia, nem se espreguiçou de tanta preguiça. Logo, cinco serviçais vieram ao seu encontro, cada um com sua missão específica: tirar o pijama, vestir as roupas régias, aquecer e calçar seus pés, preparar o desjejum e ainda trazer as notícias diárias da corte e do reino. Seu secretário-geral Hamilton, com olhos esbugalhados e expressão ansiosa, trouxe-lhe as recentes notícias da Vila da Prosperidade. De todas as vilas do reino, essa era a maior e de onde o rei coletava mais impostos, era a galinha dos ovos de ouro. O secretário relatou as notícias e disse com preocupação:

- Majestade! Precisamos agir, imediatamente, para extirpar essas ervas daninhas que estão nos causando prejuízos nas finanças do reino. Os produtores da vila se multiplicaram e criaram uma cooperativa, diminuindo a cota dos impostos individuais, além do fato de estarem cultivando grãos que nunca foram produzidos na região e não estão na lista dos itens tributados do reino. Sob a liderança do tal Capitão James, experiente na área de produção de alimentos, os homens e mulheres da vila estão conseguindo multiplicar as colheitas dos grãos, incrementando a produção de alimentos artesanais, que também não estavam previstos na legislação dos impostos do reino. Sem falar na duplicação de estradas, novas vias de acesso à vila e outras partes do reino. À água nunca foi tão abundante e limpa com seu sistema inovador de filtração feito de forma natural. Agora, sob a liderança desse capitão, que surgiu do nada, totalmente desconhecido e inexpressivo, homens e mulheres da vila nunca produziram tantos alimentos, e os animais de corte e de leite não param de crescer e se multiplicar. Soube de fontes seguras, que ele se juntou a nove cavaleiros e três mulheres trabalhadoras do campo que já se reuniam, secretamente, e discutiam questões do reino e da vila. E com informações importantes e sigilosas, que tiveram acesso não sei como nem onde, passaram a agir rapidamente planejando ações assertivas.

Se no início do relato o rei Alfredo demonstrou desinteresse e ficou entediado, diante do monólogo minucioso, seus olhos cresceram junto com a elevação das espessas sobrancelhas:

- E você, Hamilton? Onde estava todo esse tempo enquanto as formigas trabalhavam secretamente para a emancipação da vila?

- Aqui no reino senhor. Preocupado com o seu bem estar, a contabilidade da sua riqueza e dos seus ministros; são múltiplas funções voltadas somente ao magnânimo rei, não sobra tempo para nada mais. Desde o almoço e jantar com especiarias e lagostas do Oriente, acompanhados de vinhos premiados do velho mundo, e compras de mercadorias de decoração da China, às indumentárias dos nobres do reino com o combo de jóias da Rússia e da França. São muitas atribuições para satisfazer toda exigência da nobreza desta corte.

- Então faça agora! E urgentemente! – Bradou o rei enraivecido como um cão doente.

Hamilton, diante das pragas esbravejadas pelo rei, saiu aos pulos, com coração na boca. Ele se reuniu com o general do exército do reino para planejarem ofensivas à vila da qual, certamente, tinha perdido o controle.

Enquanto isso, na Vila da Prosperidade, as ações voltadas à emancipação continuaram e os planejamentos de manutenção e defesa também. James e seus cavaleiros, a essa altura, já conheciam toda rotina do reino e, principalmente dos soldados do exército em suas posições estratégicas e previsíveis. Capitão James se especializou na Academia Militar nas áreas de armamento e cavalaria, e com muita dedicação, passou seus conhecimentos aos homens e mulheres da vila, jovens e adultos. E assim, formou verdadeiro exército de pessoas habilitadas na arte da guerra, com ensinamentos importantes na própria defesa e das outras pessoas da comunidade. Quem não tinha arma ou entregou aos soldados do reino por estranha exigência do rei Alfredo, aprendeu a confeccionar armamentos práticos e seguros, com bom desempenho. James teve a ideia de domar cavalos selvagens, que eram fortes e ágeis, além dos cavalos que já existiam na vila, formando uma notável cavalaria.

Foi Diana, a responsável pela vinicultura, que teve a brilhante ideia para invasão do reino sem resistência. Os soldados do rei estavam reclamando na taberna local sobre a falta de vinho, pois na região não havia incentivo para produção e na corte o suprimento era somente de vinhos importados e para o consumo dos nobres. O vinho denominado “Happy Village”, com fermentação natural e excelente equilíbrio do clima e geologia do terroir, além do sistema de irrigação eficiente, tornou-se sucesso na região. A demanda cresceu e havia dezenas de barris de vinho no estoque.

O plano foi realizado e, durante a noite, após a festa do festival da colheita, ofereceram o Happy Village para os soldados que, por estarem sedentos, beberam até caírem. Sem resistência, satisfeitos pela boa bebida, a guarda do reino não impediu que milhares de pessoas já estivessem de prontidão, pela manhã cedo, antes do galo cantar, em manifesto pela liberdade. Requerendo desde a independência à liberdade das relações comerciais com outros reinos, a isenção de taxas nos produtos manufaturados regionais e o uso de novas tecnologias, bem como, a redução dos impostos e programa de utilização dos recursos para os fins previstos à saúde e educação pública, diminuindo ainda, os recursos obrigatórios para pagamento das despesas da corte, cuja prestação de contas não era prevista no decreto régio.

Diante da pressão popular e da presença dos cavaleiros da vila sob o comando do capitão James, o rei Alfredo se pronunciou:

- O que está acontecendo aqui no meu reino? Como ousam afrontar o rei? Quem é o responsável por essa invasão? Se não retornarem às suas casas neste momento, todos serão presos pela guarda militar!

Foi Marco Pólo quem primeiro falou:

- Então vai ter que prender toda população da Vila da Prosperidade. Temos um líder, o capitão James, mas somos todos por um e um por todos, e Deus acima de todos, da vila e do reino. Joana complementou:

- Nós temos um novo estatuto de regras e diretrizes para nossa vila e queremos nossa independência, senão nos der, temos o controle da nossa produção dos alimentos, água e vinho e não titubearemos em interromper o fornecimento ao reino. Estamos muito bem armados e treinados para guerra, com centenas de homens e mulheres destemidas com cavalos adestrados fazendo a proteção da vila.

E assim, após esse dia, diante da inércia do general e seus militares - cuja maioria havia nascido na Vila da Prosperidade, onde ainda moravam e tinham familiares, que recuaram às ordens do rei de avançar à vila e prender os cavaleiros. Afinal, diante do trabalho honesto, com dignidade e justiça nada se pode fazer com êxito. Sem falar que nenhum deles queria ficar sem o néctar dos deuses: o Happy Village.

A manifestação popular após a festa da colheita fez efeito, também o clima ajudou, pois, há muito tempo, não se via um inverno como o daquele ano, onde até neve caiu. No reino, onde não havia produção própria de alimentos e vinho, um drástico inverno fez a diferença e causou dependência às vilas que produziam. O rei ficou doente e, pouco a pouco, foi desistindo das represálias, pois, para cada retaliação, os cavalheiros da vila tinham uma solução estratégica.

Mais um ano se passou e mais algumas manifestações populares também, o rei abdicou e o capitão James, por meio de um plebiscito, foi escolhido governador do reino que passou a se chamar Reino da Prosperidade. O sonho de um homem digno, corajoso e temente a Deus pode, um dia, se tornar realidade, para tanto, basta surgirem oportunidades e pessoas virtuosas com mesmo sonho de felicidade.


 

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Gratidão por toda minha vida por mais uma oportunidade de divulgação do meu conto já publicado em Coletânea em 2023, que vcs Luiz Primati e Alessandra tenham saúde e bem estar para continuarem essa jornada de amor, literatura e cultura diversa, admiro muito vcs 😘

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Mais um domingo em que fico honrado de estar nesse time!

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Luiz Primati reflete sobre a importância dos momentos e encontros na construção da nossa vida, sugerindo que cada escolha e conexão desenha o caminho que nos trouxe até o presente. Ele valoriza cada dia vivido como um capítulo essencial da nossa história, inspirado pela obra "Grandes Esperanças" de Charles Dickens.

Arlete Creazzo, por sua vez, narra sua jornada pessoal através dos diferentes papéis que desempenhou ao longo da vida, desde filha e irmã até mãe e avó. Ela expressa o desejo de continuar explorando novas facetas de si mesma, refletindo sobre a constante evolução da identidade pessoal.

Marinalva Almada aborda a temática da violência contra a mulher, destacando a profundidade da dor e do silêncio que muitas mulheres enfrentam. Seu…

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