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DIÁRIO DA PANDEMIA — 20/03/2023


Imagem gerada com IA
 

AUTOR LUIZ PRIMATI


Luiz Primati é escritor de vários gêneros literários, no entanto, seu primeiro livro foi infantil: "REVOLUÇÃO NA MATA", publicado pela Amazon/2018. Depois escreveu romances, crônicas e contos. Hoje é editor na Valleti Books e retorna para o tema da infância com histórias para crianças de 3 a 6 anos e assim as mães terão novas histórias para ler para seus filhos.
 

DESCANSE, AURORA


Pedro sentia um aperto no peito ao ouvir a voz fraca de sua mãe pelo celular. Ela havia sido diagnosticada com covid-19 e precisava ficar isolada em sua casa, enquanto ele também permanecia em quarentena na própria residência. Era difícil imaginar como seria difícil ficar longe de sua mãe, ainda mais nessa situação.


Todos os dias Pedro ligava para Aurora, preocupado com sua saúde e tentando mantê-la animada. Ela o tranquilizava, dizendo que tudo ficaria bem, mas era possível notar a falta de ar em sua voz. Pedro se sentia impotente, incapaz de fazer algo para ajudar sua mãe, além de manter as ligações e torcer para sua recuperação.


Mas infelizmente, a doença não poupou Aurora. Seu corpo não aguentou e ela faleceu em seu leito. Pedro ficou arrasado com a notícia, não conseguia acreditar que sua mãe havia partido tão repentinamente. O luto tomou conta dele e o isolamento o impediu de se despedir pessoalmente dela.


Foi difícil aceitar que Aurora havia sido enterrada sem a presença de sua família e amigos. Pedro se sentia em conflito, ao mesmo tempo em que compreendia a necessidade do isolamento, não conseguia evitar a sensação de injustiça. Não poder se despedir adequadamente de sua mãe foi uma dor que o acompanhou por muito tempo.


Mas, mesmo com todo o sofrimento, Pedro sabia que precisava continuar a vida. A covid-19 havia mudado seu mundo de uma forma que ele nunca havia imaginado, mas ele precisava seguir em frente e honrar a memória de sua mãe. Ele não a esqueceria e faria questão de manter seu legado vivo, lembrando-se sempre do amor e do carinho que ela lhe dedicou em vida.




Esse é um conto simples que conta fatos que se repetiram no Brasil e no mundo durante a pandemia. Quantas pessoas foram impedidas de se despedirem de parentes e amigos devido à COVID-19? Quanto traumas psicológicos a doença causou? Uma situação que não estávamos preparados para enfrentar e nunca estaremos. Eu perdi meus pais antes do início da pandemia e agradeço por isso. Se minha mãe contraísse a COVID-19, faria qualquer coisa para vê-la, sem me importar com a doença. Eu a amava demais. Saudades!
 

AUTORA MÁRCIA NEVES


Márcia Maria Santos Neves (1982), professora, graduada em Letras pela Universidade Católica de Santos e pós-graduada em Alfabetização e Letramento pela Universidade Santa Cecília; multiplicadora do EducaMídia; brasileira, baiana de origem, vicentina e santista de coração, mamãe do Yohan, amante das letras e da poesia e apaixonada pela educação. Autora do livro de poesia Grades de liberdade e do livro infantil Poesia – o mundo encantado das crianças. Coautora no manifesto “Korja Sacrílega”. Participou da 1ª Copa Poesia Portugal e da IV Copa Poesia Brasil em 2022 pela Cronópolis. Com mais de cem textos publicados no site Recanto das Letras. Desde 2002 reside no litoral sul do estado de São Paulo. Acredita na força reflexiva de suas poesias e busca tocar o coração de seus leitores a cada escrito que publica. Co-autora em mais de 10 antologias.
 

DEUS ME LIVRE


Com a desaceleração do tempo e a pressão do isolamento, em tempos contrários às férias, fui aprendendo a contemplar um mundo fora de mim. Foi um aprendizado e tanto! Até então, nunca havia me dado conta do quanto eu acelerava a vida, sufocava o peito e criava um olhar cada vez mais introspectivo para as responsabilidades. Dentro de mim, borbulhas de afazeres dançavam em ritmos adversos ao meu limite de contemplação da vida; nem notava o quanto a despercebia.

Dias de luta

Incertezas, destrezas

Na via, labuta

Aprendi a perceber que toda correria que enfrentava me jogava em um estágio desenfreado de provações, o qual me fazia sentir bem por dar conta de tudo, diariamente; quando, na verdade, era uma sensação de superpoderes que nunca existiram, nem deveriam existir.

E por falar em pandemia, mesmo enfrentando medos, incertezas e tantos problemas advindos dela, foi o tempo que me despertou para uma vida além de mim.

Amo a vida, e achava que do jeito que eu a conduzia, amava. Utopias a parte! Descobri viverem no meu interior, meus excessos. Precisei, portanto, sentir medo da morte para reconhecer uma necessidade gigante de mudança. Na verdade, nunca houvera aprendido a estabelecer prioridades, e na pandemia isso foi preciso.

Entre dar conta do trabalho e sobreviver a Covid-19, renasci. Renasci do medo de enfrentar a vida praticamente sozinha; do medo de amanhã não mais existir; de nunca mais poder ver meus pais; renasci do erro de não me importar, de um eu severamente construído pelos meus mais absurdos medos; renascer foi preciso.

Hoje, ao tentar organizar sentimentos que transbordam desse tempo em que foi preciso ficar em casa e sobreviver ao caos, descubro que:

há dias ausentes

precisos, indecisos

mesmo no presente

A pandemia me fez enxergar que mesmo estando solta no mundo, estaria presa a situações atrofiadoras; que além das invenções do mundo, há uma máquina maior que precisa de oxigênio, sem a qual não somos capazes, nunca, de sobreviver nem nossos próprios pesadelos: o amor. O amor sem reparos é capaz de nos fazer acreditar, inclusive, que amamos. Sem ele, jamais teria suportado a distância de tudo e todos que, durante a pandemia, trouxeram de volta para mim, a minha vida. Descubro, portanto, que olhar para mim é uma necessidade, mas isso só acontece quando eu me vejo e me reparo diariamente.


Deus me livre do amor

De que nunca me despertou

Ao amor, o amar.


 

AUTORA JAQUE ALENNCAR


Jaque Alenncar é mais do que uma simples poetisa e escritora, ela é uma verdadeira força criativa. Como diretora de Operações da renomada Revista “The Bard” e Acadêmica Internacional da FEBLACLA, ela vem se destacando no mundo literário. Formada em Pedagogia e atualmente cursando a segunda graduação em Letras - Português, Jaque domina não apenas a técnica, mas também a arte de escrever. Seus escritos são uma expressão vívida da paixão que ela tem pela literatura desde a adolescência. Em 2020, Jaque decidiu ser hora de compartilhar seus escritos com o mundo, e desde então, tem uma recepção incrível. Com sua participação em diversas antologias poéticas, ela tem demonstrado sua habilidade em transmitir emoções através das palavras. Jaque Alenncar é uma escritora talentosa e dedicada, capaz de criar obras que tocam profundamente o coração de seus leitores. Seu legado na literatura só tende a crescer, tornando-a uma figura inspiradora no cenário cultural.
 

PANDEMIA


O ar ficou raro

Caro é o oxigênio

Custa uma vida,

Numa fila de hospital.


Quem sobreviverá

Ao caos da escuridão

Dos dias incertos

Da chamada COVID?


Será o apocalipse

Ou uma das profecias

Que veio a se cumprir

Em nosso tempo?


Quantas mortes por dia?

Não caem os números,

Que desespero, ansiedade...

Meu Deus, isso não tem fim?


Dor, dor, dor, choro...

Um período do mais puro breu,

Cegos pelas notícias que

Não nos dão esperanças


Tanto tempo se passou,

Tudo mudou dentro de nós,

Entre mortos e feridos,

Somos todos sequelados

De uma pandemia.


 

SEQUELAS


por Jaque Alenncar


Março, 2020

— Máscaras, álcool em gel, água sanitária e papel higiênico…


Confiro os últimos itens da minha lista no supermercado, me preparando para o lockdown, deu na TV que passaremos 15 dias em casa, apesar da circunstância, será um bom momento para organizar as coisas, já que meu trabalho me rouba todo o tempo e ânimo, esse período será como férias para mim.


— Nossa, o preço dos materiais triplicou de preço, não é moça? Alguns até mais… Em dezembro comprei a caixa máscara de 20 reais, hoje tá 132…


— É a falta, não estão encontrando no mercado, está em falta até nós fornecedores — me respondeu a moça do caixa, de saco cheio da mesma conversa o dia inteiro.

 


Setembro, 2020

— Bartolomeu, sorte a sua que pode sair e andar no telhado, queria eu pular de casa em casa ou sair como se nada tivesse acontecendo…


Acaricio os pelos do meu gato no sofá, enquanto ele descansa da noitada de ontem, imaginando o quanto queria estar como ele, na rua.


Já lavei cada cantinho da casa com água sanitária tantas vezes que me deu uma alergia respiratória, lá fui eu pro pronto-socorro, achando estar com COVID-19 e nem consegui ser atendida.


— Falta de ar?


— Não.


— E o paladar?


— Sinto o sabor de tudo!


— Febre, teve?


— Me senti um pouco quente, talvez febril, não tenho certeza.


— Está liberada.


— Mas moça, eu não passei nem da triagem, não é bom um médico examinar os meus sintomas?


— Senhora, olhe ao seu redor, está vendo quantas pessoas estão com falta de ar? Infelizmente não temos leitos para atender a todos esses pacientes que testaram positivo para COVID-19, apesar de termos um hospital de campanha aqui do lado. A senhora tem certeza que quer ficar aqui, mesmo sabendo que não está com COVID-19 e correndo o risco de acabar contaminada só porque quer ver o médico para confirmar o que acabei de lhe informar?


— Melhor não, né? — volto para casa tão envergonhada por querer passar na frente daquelas pessoas que já estavam lá.


 

31 de dezembro 2020

Estou em casa, sentada na frente da TV assistindo ao Especial de Final de Ano e chorando, minha família inteira está no interior, onde achei que estariam seguros, fiquei aqui na capital por este motivo, mas meu paizinho está de quarentena, o “corona” chegou lá. Que visitante mais indesejado. Todos estamos apreensivos, ele não anda muito bem de saúde, tem hipertensão e é diabético. 


— Oh! Deus, já orei tanto, proteja o meu pai, não permita que essa doença maldita o tire de nós.


Imploro na minha décima oração do dia.

 


2 de janeiro de 2021

Meu pai não resistiu, não tivemos nem o direito de dar a ele um enterro decente, para não correr o risco de contaminação e minha mãe, tadinha, não para de lamentar por não ter se despedido do marido, a quem se dedicou uma vida inteira.



Junho, 2021

Voltamos a trabalhar remotamente, graças a Deus, apesar de os pesares e dos entes perdidos, trabalhar parece, agora, um alívio. Adeptos das lives, nossa interação com o mundo virtual está cada vez mais comum.


— Amiga, hoje tem live no Instagram daquele cantor que a gente adora, vamos assistir?


— Ótima ideia! Não esquece da máscara na hora de vir aqui em casa, aproveita e passa no mercado para trazer uns petiscos e um vinho, farei o jantar.


Apesar das pesquisas e dos pedidos de isolamento, as pessoas começaram a descumprir o isolamento, o ser humano não foi feito para viver isolado e assim vamos voltando ao “novo normal”.

 


Dezembro, 2022

Nós não somos pessoas melhores após esse período pandêmico, por um tempo, imaginei que seríamos mais solidários ou até mais generosos, mas a generosidade não é uma roupa que cabe em todos. Alguns agem como se nada tivesse acontecido, como se não tivessem, de alguma forma, sido afetados. As sequelas são visíveis, as perdas incontáveis na população, os atrasos irreversíveis na educação. Nem mesmo tudo isso, nos fez seres humanos mais empáticos, apenas mais experientes e aliviados por termos passado “ilesos” pela pandemia. 


Somos seres marcados por um período de dor, sofrimento e escuridão. A incerteza do amanhã nunca foi tão marcante em qualquer período da vida de todos nós. A vida nunca pareceu tão valiosa e frágil ao mesmo tempo. 



Janeiro, 2023

Deu na TV que as vacinas surtindo o efeito esperado e que já podemos trabalhar e sair às ruas mais seguros, a maioria das pessoas nem usa mais a máscara e assim seguimos a vida, vislumbrando um futuro melhor, apesar de vez ou outra ainda ouvir que alguém está com COVID-19.


 

AUTOR SIDNEI CAPELLA


Sidnei Capella, natural e residente em São Caetano do Sul — São Paulo, Graduado em Administração. Escrevendo e publicando poesias e contos nos cadernos semanais da Editora Valleti Books. Participou da II copa de poesias da revista Cronópolis, em janeiro de 2022. Escreve textos poéticos, contos e mensagens, grande parte dos seus textos são publicados na página do Instagram que administra. Utiliza a frase criada por ele: “Inspiração me leva a escrever sobre tudo, a inspiração vem de Deus, escrevo para o meu próximo, de modo a despertar sentimentos e mexer com suas emoções.”

 

NÃO TEVE ESCOLHA


Não cansava, o amor ao próximo e a ética a profissão falavam mais alto. Inserido ao um período pandêmico, “correu contra o tempo”, cuidando dos pacientes infectados, controlou máquinas de oxigênio, orou… pedindo a Deus para não faltar o ar e nem forças para continuar. Transformou lagrimas em sorrisos; presenciou olhares de esperança, transformarem em gritos de agonia.


Incansavelmente passava noites em claro, trocava a casa familiar pelos leitos do hospital no qual trabalhava. Os números de infectados aumentavam; percorreu corredores amontoados de doentes. Os espirros, tosse, febre alta sinalizavam regiões vulneráveis a contração do vírus, mesmo sabendo que estava exposto, não desistiu; percorreu dias na fé, na força do trabalho e no amor ao próximo. Dr. Marcelo cuidou da família que contraiu o vírus da Covid19; ajudava companheiros de profissão com o estetoscópio pendurado no pescoço e um terço na mão.


Naquele período de excessos de atendimento, com uma atitude rara, passou a noite inteira junto a família, brincando, sorrindo, e confiante que em um futuro breve as vacinas chegariam. Amanheceu, trocou-se de roupa, arrumou o jaleco branco no banco de trás do carro e assim que colocou as mãos no volante do veículo, sentiu uma indisposição, notou que algo de errado estava acontecendo. As preocupações levaram-no a ansiedade, fazendo com que os batimentos cardíacos se acelerassem.


No caminho para o hospital, sentiu a garganta arranhar e falta de ar; chegou no local de trabalho, informando os amigos de profissão dos sintomas sentidos. Imediatamente foi encaminhado a realizar os exames, recebendo o resultado com a confirmação que estava infectado com o vírus da covid19. Agora na posição de paciente, não acreditando no que estava ouvindo, comentou com o amigo de profissão:


─ Não acredito! Eu que passei esta informação para tantas pessoas, agora sou eu que a recebo ─ Dr. Marcelo falou indignado, com a voz rouca e com dificuldades para falar.


─ Calma amigo! Vamos te isolar e cuidar de você ─ falou o amigo de profissão.


─ Avisarei a minha família! E você como médico responsável para cuidar de mim, não deixe nenhum familiar meu entrar aqui para me ver ─ decidido Dr. Marcelo falou passando as informações para o amigo de profissão.


No decorrer dos primeiros dias de tratamento Dr. Marcelo não teve melhoras, o quadro de saúde só piorava. Por ser um médico percebeu o agravamento da situação, chamou o médico amigo e falou:


─ Amigo! Amigo! Quando o meu filho conclui a faculdade de medicina, quero que o ajude junto a direção, para trabalhar nesta instituição hospitalar.


─ Calma amigo! Descansa! ─ falou o amigo de profissão, percebendo a fala cansada do Dr. Marcelo.


─ Promete que ajuda o meu filho? ─ Dr. Marcelo, com a voz cansada, insistiu pedindo para o amigo de profissão ajudar o filho.


─ Prometo!


─ Obrigado Amigo! Quero que ele trabalha ao seu lado, aprendendo tudo o que eu te ensinei ─ Dr. Marcelo agradeceu e informou, sendo a sua última fala.


Naquele mesmo dia, com falta de ar e a saturação baixa, foi entubado e ao passar três dias do procedimento, não resistiu e faleceu, deixando como médico, aos amigos, pacientes e familiares um esplendoroso legado. Atualmente o filho do Dr. Marcelo é médico residente na ala de doenças infectocontagiosas que documentado e registrado pela diretoria do hospital, recebeu o nome do Pai.


 

AUTOR BERNIVALDO CARNEIRO


Francisco Bernivaldo Carneiro nasceu em Jaguaretama-Ceará em 10 de fevereiro de 1950, é Técnico de Edificações, Geólogo com Especialização em Engenharia de Saúde Pública e Ambiental e estudou Administração Pública. Em 2017, depois de 37 anos como funcionário público federal, aposentou-se e desde então se dedica à escrita. Estreou como ficcionista em 1998 e hoje tem nove livros editados como autor solo, sendo três no gênero técnico-científico, cinco de ficção (três romances e dois de crônicas) e um registro histórico e outros quatro praticamente no prelo: dois de contos e dois e crônicas. Além do quê, possui dezenas de prefácios, orelhas e coautoria em Antologias (inter)nacionais, coletâneas e mais de uma centena de artigos publicados em diversos veículos de comunicação, sendo a maioria em informativos, jornais, revistas, coletâneas e Antologias das duas Academias de Letras e de outras duas Instituições Literárias a que pertence como membro efetivo. Venceu alguns certames literários, com destaque para um promovido pela Internet sobre obras de sátira em 2008, concorrendo com autores de renome (inter)nacional, dentre outros, Gregório de Matos, Leonardo da Vince, Chico Anysio, G. H. Chesterton, Gil Vicente, Decio Junio, Revista MAD.
 

AS LIVES


Precisei viver a Pandemia da Covid-19 para ver as bizarríssimas Lives a seguir. E as mais caricatas foram produzidas por políticos. Pessoas da melhor espécie. Gente que transborda espírito público e vontade política. Cidadãos acima de qualquer suspeita e comprometidos com a moralidade e o bem-estar social, até o último fio de cabelo de suas lustrosas e iluminadas cabeças. Obviamente, sem deixar de fora aqueles, cujos cocurutos, mais parecem pista de pouso de insetos voadores.


Começo com a sessão remota em que um epopeico senador, ao ser indagado pelo presidente da comissão, como votaria o seu partido, ele (sem se dar conta de que já estava no ar) soltou o verbo: “Tô tocando o terôôôôrrrr!”. Falava de suas famosas Fake News contra o governo.


E da esfera federal à municipal, pelo menos quatro vídeos merecem destaque. O primeiro é de um nobre vereador paulista que, em vez de se ligar na pauta da sessão em curso, deu-se a cheirar e experimentar, como máscara, uma calcinha púrpura. Presente de um amigo. Pelo menos foi o que disse à imprensa — notoriamente sem jeito — o arremedo do cantor Wando, ao ser entrevistado após a Live. Enquanto isso, dois eminentes Edis cearenses (por desconto de pecado meus conterrâneos) também aprontaram as suas. Um deles cometeu o pecado capital da Gula, o outro o da Luxúria — que no final deu no mesmo. Sem enveredar pelas preliminares, o primeiro nada experimentou, nada cheirou, mas nadou de braçadas. Tirou a barriga da miséria com colheradas tão transbordantes que a graxa da gororoba escorria pelos cantos da esfomeada boca. Já o outro… Bem, o outro…


A julgar pela total ausência de panos e o semblante de felicidade da amante, cuja casa se abria para o mundo como uma das janelas da Live, àquela altura o ganso já tinha sucumbido à imersão. Senão, ouçamos o filósofo Virgílio, que em tempos idos a.C., cunhou esta inquestionável sacada: “Somente duas espécies se sentem absolutamente felizes depois do coito: a mulher e o galo”. Enfim, sorte dos dois, porque tão logo as imagens foram para o ar, os ruidosos vizinhos da casa da amante, detonaram a possibilidade de os dois se darem a qualquer saliência.


Igualmente apressado foi um casal que, durante uma sessão remota da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, em que vereadores debatiam sobre merenda escolar, de tão famintos, não esperaram o recreio. Em um cômodo anexo ao Plenário, eles se merendaram sem saber que as câmaras captavam o libidinoso ato. Um atentado contra o decoro parlamentar daquela Casa Legislativa.


Também conheci muitos micos de uma senhora de relevância nacional e personagem de muitos memes, mas aqui me ocuparei apenas daquele em que, no meio da Live, ela procurava por um dado fulano de tal. Demanda que, apesar do caríssimo assessoramento da filha, perdeu-se em meio a reclamações: “Pare com isso, minha filha! Essa sua mania de achar que não tô vendo! Eu tô vendo, sim! Ou você pensa que não sou sistematicamente uma boa internéltica! Eu só tô procurando pelo fulano. Fulaaaano! Oh! Fulaaaano! Onde você tá? Cadê você, Fulaaaano”?…


A propósito, confesso: jamais desejei tanto participar de uma Live — mesmo sabendo que seria um abissal fracasso de público (apenas dezessete seguidores os assistiram em tempo real); quanto daquela que a referenciada senhora e outros seis dinossauros da política participaram. Porque o meu desejo era exercitar “as grandes caretas” das aulas de Ioga. Coisa que faço meio a contragosto, porque não acho bonito ser feio. Não me aprecio tão desaformoseado quanto aquelas sete ridículas figuras. Ainda assim, eu aproveitaria o momento para homenagear nosso cantor e humorista Falcão, que — em matéria de “desboniteza” — também não faria feio ocupando uma janela daquela Live. Aí, quando me fosse dada a palavra, eu exclamaria em alto e bom som: “Por favor, repitam comigo durante 30 segundos: Arre-égua, ô povo feio!… Arre-égua, ô povo feio!… Arre-égua, ô povo feio”!…

Teve também um internauta que resolveu se mostrar em pelo, apesar de o rotundo corpo desmerecer a exibição. Porém, por certo, se achando um manequim (da Nacional Gás Butano, obviamente), despiu-se e antes de se lançar na piscina ainda concedeu um frontal, às câmeras. O que causou espanto aos companheiros daquela sessão remota. Não pelo tamanho do que se situava imediatamente abaixo do globoso abdome (algo praticamente invisível), mas pelo volume da pança.


No mais, eu enfocaria também um participante muito zen, que dormiu tão profundamente no ar, a ponto de seu ronco abafar a fala dos demais “liveanos”, ou seriam: levianos?


Mas em matéria de emissão de som impróprio à ocasião, nada chegou aos pés de um dado Procurador Federal. Como se fosse um laxante ministro da Alta Corte, ele liberou tudo a seu bel-prazer. Porém, os bandidos soltos não eram de carne e osso, senão, flatulências gasosas. Algo de tal ordem estrondoso e irrespirável, que desconcentrou o então falante e decretou o fim da reunião. Mas nada tão deletério quanto o que foi revelado numa Live da mais afamada cantora e palestrante brasileira. Quem — mais uma vez raciocinando com o próprio órgão tatuado — apavorou seus seguidores, ao revelar o quão catastrófico para o mundo o é, o que ela denominou de “O peido da vaca”.


 

AUTORA SIMONE GONÇALVES


Simone Gonçalves, poetisa/escritora. Colaboradora no Blog da @valletibooks e presidente da Revista Cronópolis, sendo uma das organizadoras da Copa de Poesias. Lançou seu primeiro livro nesse ano de 2022: POESIAS AO LUAR - Confissões para a lua.

 

SERÁ?


E de repente...

Não.

Nem tão assim. Tudo foi se transformando aos poucos...

Ao passar dos dias, a cada hora uma notícia.

O medo, pânico, insegurança.

Uma mistura de sentimentos que nem mesmo conhecíamos alguns.

Porque não se podia imaginar algo assim.

Mesmo sendo de repente, já sentíamos a mudança com o passar do tempo.

O mundo ficou repleto de uma certa incerteza que até hoje e quem sabe, eternamente, não saberá como explicar tal acontecimento. Mas, será que o homem aprendeu algo com a lição da perda, do pavor, das lágrimas derramadas?

Será que nos corações que ainda batem por aí afora, as sementes do bem irão germinar?

Será??


 

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