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CRIATURAS NOTÍVAGA(S) Nº 3 — 30/03/2022

Mais um conto da série, escrito por Carlos Palmito. Dessa vez Carlos explora o submundo das emergências médicas.


Leia, Reflita, Comente!


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GRAVEYARD SHIFT

(TURNO DO CEMITÉRIO)


por Carlos Palmito


— Graves lesões a nível de face, olhos, nariz, preparem a sala para o paciente. Possíveis lesões cerebrais.


— Porra, que lhe aconteceu?


— Não faço ideia, a central recebeu uma chamada anónima, estava inanimado no jardim numa poça de sangue.


— Tem identificação?


— Sim, tenho a carteira aqui, estava nas calças. — O bombeiro retira um cartão de identificação de um saco que trazia com ele, e lê o nome. — Miguel Salticidae.


— Salticidae? — perguntou a médica, enquanto lhe examinava a reação das pupilas. — Como a aranha?


— Se é como a aranha ou não, não sei, mas é o que aqui está — retorquiu o bombeiro, entregando os pertences à enfermeira que auxiliava Madalena.


— Não te preocupes, André, eu é que era viciada em biologia — volveu a doutora, desviando o olhar para a enfermeira — Vamos levar para a sala dois.


O bombeiro partiu, no seu metro e oitenta, levando a maca vazia em direção à ambulância, fechou as portas, olhou para a entrada do hospital, contemplando a médica de cabelos negros, na delicadeza do seu corpo, escondido por uma bata.


— Madalena? — perguntou. — Pequeno-almoço às oito e meia?


Ela riu-se, mostrando desejo no olhar, e acenou com a cabeça.


— Se conseguir estar a pé. Este é o segundo turno hoje, parece que a cidade enlouqueceu.


— Parece? Já eu tenho a certeza que sim.


Entrou na ambulância onde o colega o aguardava.


— Eu telefone-te para ver se estás livre, Maddy. Até já.


Rodou a chave na ignição e partiu, seguindo novas ordens, encontrando mais doentes para recolher, ou idosos para auxiliar.


Eram apenas duas da manhã, daqui até ao sol despontar, muito poderia ocorrer.


Médica e enfermeira entraram no hospital a empurrar a maca onde a vítima estava ainda inanimada, passaram pela recepção que se encontrava apinhada de gente, e adentraram em direção ao bloco operatório.


Madalena ia contemplando toda aquela confusão, pelo que sabia, ao início da noite tinha existido um choque em cadeia na entrada da cidade, entre dez a quinze viaturas envolvidas, sendo que no momento este era o único hospital nas imediações a receber pacientes.


Repentinamente abrandou o passo, algo lhe chamou a atenção numa maca que estava no corredor, não foram as feições do estranho, mas sim as costas da mão, uma rosa estava lá tatuada, uma rosa branca a ocupar-lhe a totalidade delas. Tinha a impressão de a já ter visto.

— Vítor? — perguntou ela encarando o auxiliar que estava mais próximo.


— Sim doutora?


— Quem é este aqui? — apontou para a maca da rosa.


— Um John Doe, não trazia identificação, retiraram-no do rio — retrucou o rapaz que parecia ter saído da universidade à pouco tempo.


— E que faz ele aqui, não devia estar a ser atendido? — voltou de novo a médica. — Sei que isto hoje está um caos, mas acho que ainda temos pessoal suficiente.


— Não doutora, ele faleceu no caminho.


Os olhos cinza de Madalena viraram-se para Inês, a enfermeira.


— Leva o senhor Salticidae para fazer uma ressonância antes de ir para o bloco, pode ser que tenha sorte e não seja tão grave quanto aparenta. Chama-me só em caso de ser necessária cirurgia.


Voltando-se para o rapaz de farda verde.


— Faleceu, dizes tu? E que faz aqui no corredor? Achas que isto é local para cadáveres?


— Não, doutora, levo já para baixo, mas informo que o médico legista não está, foi uma das vítimas da colisão na Autoestrada.


Madalena não respondeu, mirou uma vez mais a rosa tatuada a branco na mão daquele estranho, franziu a testa, tinha a certeza que já a tinha visto antes, mas podia ser cansaço, e voltou costas em direção à recepção.


Uma vez lá, parou um pouco, olhou à sua volta, ouvia os gemidos de dores, os choros, a tosse, contemplava macas com pacientes espalhadas por todo o lado, sentia o odor de éter misturado com suor e sangue.


— Maria? — pediu olhando para a enfermeira chefe que se encontrava junta ao balcão de atendimento. — Hoje vou ficar aqui a ajudar na triagem, eu vou fazendo os primeiros diagnósticos, já dei ordem para me contactarem só caso seja indispensável a minha presença no bloco operatório.


— Certo, doutora — respondeu ela prontamente, ajeitando os seus óculos de aros grossos. — Alguma ordem específica?


— Não, por hora vou conseguir dar conta disto.


Começou a percorrer as macas, onde existia todo o tipo de danos, desde braços deslocados, a pernas partidas, passando por mais graves como perfurações com os mais diversos objetos, sendo que o que mais lhe chamou a atenção foi a de um homem que estava nu, apenas coberto por um lençol, tinha algo que se assemelhava a um travão de mão cravado no abdómen.


Deu-lhe a assistência primária ali, e pediu à enfermeira chefe para o levar para dentro, para que lá lhe fizessem um diagnóstico mais aprimorado, verificarem a profundidade dos danos.

Voltou de novo a atenção para os pacientes, pareciam não ter fim, estava esgotada, eram quatro da manhã, estava a trabalhar desde às oito da manhã, teve uma hora de almoço, quinze minutos de jantar, estava a ser um dia mau. Nunca gostou de turnos duplos.


— Doutora, doutora, a minha esposa, preciso de ajuda.


Apesar de fatigada, o tom desta voz acordou-a, concedeu-lhe estimulo, lembrou-se que quando começou a carreira na medicina, ainda nos estudos, foi a pensar em noites destas, sabia que nunca iria ter uma existência fácil, mas estaria a salvar vidas, tal como o seu pai esteve antes dela.


— Onde está, que se passa? — perguntou ao homem de meia-idade que pediu auxílio.


— Ali no carro, venha, preciso de ajuda rápido.


Ele começou a correr para a entrada do hospital, onde estava um veículo parado com os quatro piscas ligados.


Ela fez sinal ao auxiliar para a seguir, e estugou o passo atrás do careca.


— Senhor, que aconteceu, que se passou?


— Ela está aqui, ajude, rápido — abriu a porta de trás do Audi. — Por favor, diga-me que os consegue salvar — implorou.


Ela olhou para dentro, lá estava uma mulher de cerca de trinta anos, grávida, atendendo ao tamanho da barriga, estaria perto da hora de dar à luz; a perna esquerda estava com uma fratura exposta, pela posição do braço direito, a clavícula estava deslocada.


Madalena arregalou os olhos, dirigiu-se para Vítor:


— Chama a Inês aqui, rápido, tragam uma maca e levem de urgência para a obstetrícia.

Depois para o marido da grávida.


— Que aconteceu?


— Ela caiu em casa, do terraço, não sei bem, eu estava a trabalhar na altura, trabalho por turnos no Hotel Centurino, hoje estava a fazer turno duplo… diga-me que as consegue salvar, por favor, faça algo.


Nesse momento chegou Inês a correr a empurrar a maca, imobilizaram e colocaram nela a grávida que levaram para dentro quase na mesma velocidade.


— Tenha calma, senhor, inspire fundo, recobre o seu folego. Os meus colegas vão fazer o melhor por elas. Diga-me, de quantas semanas está a sua esposa?


— Trinta e cinco, só penso que se ela não tivesse o beeper, só mesmo amanhã de manhã é que a encontrava.


— Venha comigo.


Conduziu o homem para dentro do hospital, levando-o para uma sala mais calma, longe da confusão da entrada, indicou-lhe um sofá para se sentar, ofereceu-lhe um café que ele aceitou prontamente.


— Descanse aqui, senhor…


— Raul.


— Raul, não se preocupe, vamos cuidar o melhor possível da sua esposa e… filha?


— Sim, doutora, filha, pelo menos foi o que nos disseram que era.


Madalena deu-lhe mais umas palavras tranquilizadoras, chamou a enfermeira pelo beeper, e aguardou a chegada dela.


— Inês, qualquer novidade sobre a esposa do senhor Raúl, vem dar-lhe de imediato. Ele fica aqui a aguardar, está?


— Certo doutora, assim farei.


A médica de olhos cinza partiu então, em direção ao seu gabinete, fazendo sinal à enfermeira para a seguir.


Entraram, fecharam a porta, Madalena contemplou um bolo abandonado em cima da secretária, vestígios de um jantar apressado.


— Diz-me, Inês, o senhor Salticidae?


— Felizmente era menos grave que parecia em primeira análise, está agora no quarto 102, sedado devido a dores.


— Uma outra pergunta, tenho uma coisa a cismar na minha cabeça. Tens memória de um paciente com uma rosa branca tatuada na mão esquerda? Não de hoje, mas de outra altura?

Inês passou a mão sobre os seus cabelos castanho-claro, a refletir sobre a questão, fechou os olhos momentaneamente para se concentrar.


— Não, doutora, de fato não tenho recordação alguma de uma pessoa assim.


— Não faz mal, deve ser confusão minha. Podes ir.


Na saída de Inês, Madalena pegou no bolo, seria um crime deixá-lo ali abandonado. Comeu-o quase de uma vez só, esquecendo assim a rosa, o homem nu, o caos na entrada, que felizmente já estava muito mais calmo.


Debruçou-se sobre a papelada, muitos relatórios estavam à espera de serem preenchidos, a burocracia sempre a aborreceu, mas fazia parte do serviço.


Eram exatamente sete da manhã quando finalmente desligou o computador, estava tudo tratado, toda a papelada preenchida.


Pegou no telefone, fitou os contatos com atenção e marcou o primeiro da lista. Ouviu os beeps habituais até a voz do lado de lá atender.


— Estou, André?


— Sim, Maddy?


— Olha, adorava ir tomar o pequeno-almoço contigo — começou. — Talvez te comesse a ti mesmo como sobremesa, mas estou esgotada, daqui vou direta para a cama. Desculpa.


— Não faz mal, sei como estás, eu mesmo também tive um turno da noite extenuante. Telefono-te quando acordar. Beijos.


Ela sorriu, despediu-se, arrumou as coisas, despiu a bata, desligou a luz, saindo então do hospital. Existia na sua casa uma banheira com água bem quente que a esperava, e depois pelo menos dez horas de sono.


No quarto 102, o paciente levantou-se da cama, está trôpego devido à medicação, mas sabia que não podia permanecer naquele espaço, vestiu a roupa do paciente da cama ao lado, e saiu pela porta da entrada.


Na morgue, uma rosa levantou-se da banca onde aguardava uma autópsia, sentou-se o dono dela, nu, na gelada superfície de metal, observou tudo ao seu redor, conhecia já o local quase como a palma da mão.


Bisturis à esquerda, serra circular à direita, fórceps nas imediações…


— Por mais que eu tente, não consigo.





AUTOR

Carlos Palmito

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6 comentarios


joanapereira.ft
joanapereira.ft
06 abr 2022

Ahahah devia ter lido este conto primeiro (antes dos grafitters) agora percebo… ADMIRÁVEL essa tua criatividade, Carlos!

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Stella Gaspar
Stella Gaspar
30 mar 2022

Cenas de hospital, dor, desespero, cansaço e corre-corre. Que conteúdo amplo de imagens Carlos, parabéns! 😍🌷

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dittrich.eclair
dittrich.eclair
30 mar 2022

Como assim, o morto recebeu um sopro de vida da rosa branca?🤔🤭 Aaaiiii que

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sidneicapella
sidneicapella
30 mar 2022

Carlos, Gosto de ler os seus contos! Que conto sensacional! No final, o espirito vagava na sala de autópsia, será que está história continua? Parabéns, que venham mais…

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Luiz Primati
Luiz Primati
30 mar 2022

Mais uma vez Carlos Palmito nos surpreende com um belo conto. Essa série está ficando cada vez melhor. Imagino que esses contos um dia possam se transformar numa série da Netflix, pois, possuem um link entre eles que, discretamente os tornam único. Espero que ao final do ano a Valleti Books possa lançar um livro com todos eles. Que tal Carlos? Será que os leitores apreciariam?


😁

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Carlos Palmito
Carlos Palmito
30 mar 2022
Contestando a

é manter força foco e dedicação, acredito que os leitores apreciem, e venham a gostar cada vez mais ainda a construção notívaga de uma cidade.

Ideias ainda tenho bastantes para ela ;)

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