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CRIATURAS NOTÍVAGA(S) Nº 24 — 02/11/2022

Mais um conto de Carlos Palmito. A avó guia os paladinos em direção a prisão onde se encontra Mariana, porém, águas turbulentas, perigos, exaustão tentam impedir a progressão de nossos heróis. Marcos e André terão forças suficientes para vencer todos os obstáculos?Leiam e comentem. Se não tiver tempo de ler, escute no Spotify.

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AUTOR CARLOS PALMITO

IG: @c.palmito


Nasceu na cidade de Évora, Portugal. Aprendeu a ler e escrever antes de iniciar a escola, por força e dedicação da sua mãe. Trabalha na área de TI, apesar da sua verdadeira paixão se encontrar na escrita, sendo nela que despende grande parte da sua energia. O primeiro livro que leu, e um dos que mais o marcou foi “O Conde de Monte Cristo”, teria sete a oito anos na altura, mas desenganem-se se pensam que ele se fixou só por romances, pois ele lia de tudo, desde banda desenhada a livros de geografia. Durante o seu percurso na escola, foi convidado a ingressar no jornal escolar, odiou esta parte, aqui descobriu que adora escrever ficção, mas odeia escrever sobre realidades. Tem como autores favoritos Alexandre Dumas, Júlio Verne, e o que considera seu ídolo e inspiração, Stephen King. Considera-se um apaixonado por letras, filosofia, psicologia e arte em geral, este autor desde cedo que começou a rabiscar contos e poesia. A sua criação hoje em dia rasa a loucura e a lucidez, a harmonia e o caos. Autor no blog https://allinone.blogs.sapo.pt

 

PARADIGMAS INTERMITENTES


Molécula, dois simples átomos de hidrogénio ligados a um de oxigénio, milhões destas moléculas despencavam no nada, na escuridão existencial, berrando na sua descensão, o barulho era dor, tal como dor era a omoplata.


— Estás quase lá, André — a voz da avó era doce, harmoniosa, cheirava a bolachas e leite materno. — Força, meu paladino.


Pedra após pedra, rochas em direção ao infinito, estrelas numa constelação alpestre criada na mente de uma criança.


Ele subia devagar, sentia náuseas de dor, na sua mente via uma rosa de luz extinguir-se, Marcos, que foi engolido pelo demónio que habita no coração do universo.


Finalmente os dedos chegaram ao topo, os pingos de água mesclavam-se com o suor e sangue da sua derme, puxou o corpo num impulso, os músculos protestaram, a visão tornou-se turva, mas conseguiu, a escalada teve o seu término.


Sentou-se na beira do mundo, e contemplou a vastidão insana do vazio, o absolutamente nada, à exceção do ensurdecedor rosnar de uma cascata enraivecida.


— Descansa agora — nova e eternamente ela, a velha de pele rugosa e um pântano tético.


Deitou-se na frieza glacial da derme de Gaia, fechou os olhos, sendo tomado por Hipnos e embalado por uma música angelical, o chilrear de corvos na plantação da vida.


No outro lado do espelho existiam máquinas que trabalhavam incansavelmente, um Deus que lutava para se manter vivo, enclausurado na mente e na criação, alimentado por tubagens, agulhas, e palavras vãs.


Depois havia a avó, a da cadeira junto à cama que rezava a criaturas assassinadas pelos homens ao longo dos tempos, e a outra, aquela que o Deus desenhou, na sua tentativa de fuga à dor, a do pântano, das bolachas e do tabuleiro de xadrez.


— Acorda bombeiro — a ordem veio do abismo. — Temos trabalho a fazer.


Ainda de olhos fechados sentiu o quente e a luz de um ser que ali não devia estar, Marcos, a roda-viva do universo em constante locomoção pausou, uma polaroide no chão de um quarto, algures na cabana de uma velha que vai movendo peças no seu jogo infindo.


— Marcos? — os olhos continuavam fechados.


— Sim, André.


Abriu-os, na sua frente estava o detentor da pureza, de roupas rasgadas, ensanguentadas.

— Como? — era impossível, nada sobreviveria ao tombo.


— Longa história — respondeu o imortal. — Levanta-te, temos que ir.


André ergueu-se no seu magistral metro e oitenta, a dor na omoplata era agora simplesmente um pequeno pulsar oculto na memória.


— Indica o caminho, Marcos — na sua mente existia um arranhar, algo a ser dito, que necessitava de ser proferido, que exigia ser proclamado. — Desculpa as pedras, o descuido da minha parte.


— Foi preferível ter eu caído que tu — existia preocupação na voz, mas também candura. — Vamos ter que atravessar o lago.


Ambos os homens examinaram a imensidade do espelho de água que refletia uma luz inexistente, lembrava um desenho a giz na parede do quarto de uma deidade ferida, magoada, em coma.


O possuidor da rosa alba entrou na água, pé ante pé.


— Marcos, volta para trás — havia temor na voz do bombeiro.


— Que foi? Não consegues?


— Não é isso — os olhos negros como borboletas do antigo paramédico continuavam a estudar a câmara em que se encontravam, os ouvidos a captar o brado dos átomos de hidrogénio e oxigénio. — Estamos demasiado perto da catarata, a corrente é muito forte aqui, é melhor entrarmos mais afastados.


Marcos ponderou a ideia, realmente sentia uma força extrema a tentar arrastá-lo, estivesse sozinho nesta demanda e prosseguiria sem medos, afinal mesmo que fosse puxado pelas mãos liquidas de um rio em fúria, sobreviveria, contudo, não se encontrava a solo.


— Tens razão — riu-se. — afinal nem equipamento de aqualung temos.


As rosas também conseguem produzir piadas.


Caminharam em conjunto ao longo do estreito passadiço de pedra, feito pela mãe da natureza para dois paladinos, esculpido apenas e unicamente para eles, os salvadores da criação.


A seu lado corria o rio, lembrando um potro nas pastagens de um sonho, veloz que nem relâmpagos e tornados, transmutando-se num lago.


Sou a tempestade, o tornado, o musgo, os desenhos, as bombas que tombam em Israel, sou a vida e a morte.


Alguns metros passados, a passagem começou a encolher, a estreitar, apertar, apartar… até se desvanecer, fumo na fogueira dissolvida de uma realidade paralela de vaidades, ali foram obrigados a entrar nas águas, sentir-lhe o glacial toque de morte, os corpos quentes gemeram, e a máquina emitiu mais um bip.


— Temos que ir com cuidado — berrou o bombeiro.


Seguiram pé após pé, os olhos fitos no destino, a plataforma do outro lado do espelho quebrado, o rio que se transmuta em lago, (serão os caminhos da redenção exclusivos somente para quem tem algo a redimir?).


Durou pouco o tempo em que os pés encontravam o fundo pedroso, pois rapidamente o perderam, o corpo gritava em silêncio, gelado, (sangue de deuses), a alma agonizava, as borboletas voltaram, aves de rapina na inconstância universal.


— Consegues nadar André?


O bombeiro lutava contra a corrente.


— Acredito que sim, se não conseguir, deixa-me ir — a alma queria ir mais além, mais longe, atingir o objetivo, contudo o corpo, esse estava esgotado.


— Não digas asneiras, vamos conseguir.


Cada braçada na água ausente de calor, de raios solares, gélida que nem um pássaro morto no deserto da imaginação concedia-lhe um duplicar de sofrimentos, Madalena… amava-a, sentia-lhe a falta, queria o seu calor.


— Os olhos dele são azul-celeste — mais um tabuleiro no forno da avó, carne assada, um cálice de vinho repousava na mesa, e ela olhava para as linhas do tempo enquanto mordiscava uma bolacha.


— Os olhos de quem? — André estava confuso. — Não é uma ela que vamos salvar?


— Nadem meus paladinos — um brinde ao pai de todos… no início era o Caos.


Ambos lutavam contra a correnteza, sentiam-se pesos mortos a flutuar no rio que muitos paladinos levou antes da sua própria existência, antes das rosas existem os espinhos.


— Marcos?


O homem da rosa interrompeu a braçada, estava exausto, sabia ter vantagem sobre o bombeiro, sabia que a velocidade da sua recuperação era um dom dele e somente dele, olhou para trás.


— Acho que não vou conseguir — os músculos do bombeiro latejavam de dor, cada mover de braços era agonia, agulhas a enterrarem-se fundo em todos os pedacinhos do seu corpo, um boneco de voodoo nas mãos de uma criança que não sabe a diferença entre o bem e do mal.


— Não percam foco, não percam fé — cheirava a carne a assar e rosas mortas. — A Mariana precisa de vocês, a Deusa da lua precisa de vocês, e o Deus a definhar necessita de vocês — a avó falava por enigmas.


— Tem calma André, vamos conseguir.


O rio é um monstro, arrasta as vidas para o seu fundo, cuspindo no final cadáveres inchados que explodem na sua própria putrefação; na sua fantasia, André viu-se a ser mais um deles, um dos corpos amados pelo rio e consumido pelo mesmo, no bolso, o telemóvel desligou-se.


— Estou esgotado — saliva escorreu-lhe dos olhos em formato de lágrimas, desistiu de nadar, de lutar contra a força da monstruosidade aquosa perante o olhar aterrorizado do imortal. — Diz à Madalena que a amava — sentiu o corpo ser arrastado velozmente em direção ao precipício.


— Diz-lhe tu — Marcos começou a nadar a favor da corrente em direção ao bombeiro paladino, que flutuava como uma pena ao vento em direção ao final dos tempos.


Que seres habitam nas águas abscônditas da conceção universal? Que algas, que mortos? Que histórias?


Na balança da justiça foi colocada uma peça, é cega perante muitos, e raivosa perante todos… O que é a justiça?


Em segundos a mão onde um Deus (uma justiça?) em tempos desenhou a imortalidade de uma rosa, atingiu o braço do bombeiro que desistira.


— Não vais desistir, nem que eu tenha que te ir buscar ao fundo do cosmos.


Envolveu o pescoço do homem de pele escura no seu braço, e forçou-se a nadar, dois paladinos, um destino, uma Deusa na lua, uma avó a estudar um jogo de xadrez, bispo protege torre.


— Estamos quase lá André — no bolso do bombeiro, o telemóvel religou-se, apanhou rede, (não estava morto? Sem bateria?).


Centímetros da salvação, mesmo com a sua bênção, a sua cura extraordinária e imortalidade miraculosa, Marcos sentia cansaço extremo.


— Ânimo, Marcos — rainha protege bispo.


Enfim tocou na pedra, elevou-se sem largar o corpo do bombeiro, desgastado pelos tempos, em queda no seu salto de fé, e puxou-o também.


— Acorda bombeiro — a ordem veio do abismo. — Temos trabalho a fazer.


Os olhos negros como flores mortas abriram-se, o corpo esgotado ganhou alento, estavam no outro lado da câmara.


— Obrigado Marcos — sabia que sem ele, seria apenas mais um dos seres do rio, estava envergonhado, como podem os paladinos ousar desistir.


— Não precisas de agradecer — estendeu-lhe a mão, ajudando-o a erguer-se. — Vamos, ainda temos algum espaço para percorrer, mas agora será mais fácil, tiveste a tua redenção e eu a minha.


Poderão os seres sem pecado percorrer os caminhos da penitência?


A avó sorriu, bebericou do seu vinho, sangue de uvas, no tabuleiro existem mais peças para serem movidas, cavalos, peões, mas por hora, tudo vai bem, a máquina continua a fazer bips constantes num compasso perfeito… Deus ainda vive.


Palmilharam corredores enormes, câmaras e antecâmaras, acompanhados pela escuridão, sem falas ou demoras, tinham plena consciência que o mais difícil ainda estava por vir.


Duas horas de penumbra e entraram num corredor que tinha luz própria, rosas nasciam nas pedras, espinhos cravavam-se nas entranhas de Gaia, estavam perto.


— Porque demora tanto? — vozes de adolescentes.


— É já ali — Marcos apontou para uma porta, madeira, o primeiro vestígio humano desde que iniciaram a jornada. — Vais poder dormir um pouco.


Abriu-a, lá dentro estavam três adolescentes sentados a uma mesa.


— Até que enfim, Marcos. — Rafael sorria. — É esse o outro de nós? — apontou para André.


— É sim — o ser da rosa-branca indicou um colchão encostado a uma parede. — Vai descansar André, precisas, mas mais que precisar, mereces… nem todos sobreviveriam ao caminho que fizemos.


Mais seres se irão unir aos paladinos, outros guerreiros, vindos da memória transitória de um Deus que morre a cada batida do coração.


O bombeiro deitou-se, adormeceu quase no imediato… os mais atentos poderiam dizer que adormeceu ainda antes de cair na cama improvisada.


Na cidade do pecado, existem sombras ao luar, aberrações grotescas e rosas das mais puras tonalidades cromáticas, existo eu, existes tu… e existem esgotos.


 

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