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CONTOS DE UM FUTURO DISTANTE Nº 16 — 31/05/2022

Alessandra Valle fala da crueldade que existe nas comunidades do Rio de Janeiro e como, um gesto descontraído pode levar uma pessoa à morte. Eu, Luiz Primati, trago a quarta parte de um conto de 2018, publicado inicialmente no Facebook em partes e depois entrou para o livro: "Velhas Histórias Urbanas" que foi baseado num fato. O nome do conto é "A Emparedada da Rua Nova". Ricardo dos Reis nos traz mais um conto "Espiral de ofertas". E Sidnei Capella retorna com um novo conto: "A Magia do Anel Brilhoso".


Esse caderno tem a intenção de divertir os nossos leitores que, sempre acabam tirando algum ensinamento para suas vidas.

Leia, Reflita, Comente!


https://raizesdomundo.com/dicas-romanticas-para-desfrutar-em-paris/


NÓS DE SANGUE


por Alessandra Valle


Domingo, fim de tarde, o plantão na "Desaparecidos" estava quase encerrando, quando um casal adentrou com a angústia no olhar que nós, policiais, que trabalhamos com desaparecimento de pessoas, sabemos reconhecer.


— Nosso filho está desaparecido há mais de 24 horas — disse a mulher com a voz embargada pelo choro.


— Nos disseram que só poderíamos comunicar à polícia 24 horas depois do desaparecimento, estávamos esperando lá fora — apontou o homem, demonstrando indignação.


Nesse momento, fiz questão de esclarecer que a comunicação às autoridades policiais a respeito do desaparecimento de uma pessoa deve ser realizada tão logo o familiar ou a pessoa conhecida perceba a ausência de seu ente querido.


— Senhor, quem lhe deu essa informação estava equivocado. Não há que se esperar 24, 48 ou qualquer outro prazo para comunicar à polícia um desaparecimento — expliquei tentando apaziguar os ânimos e continuei:


— Sendo crianças ou adolescentes, a investigação de desaparecimento tem prioridade e as buscas devem ser imediatas, por força de lei no Estado do Rio de Janeiro.


Esse era exatamente o caso do desaparecimento que os pais comunicavam. O filho adolescente havia saído, com permissão de seus responsáveis, na companhia de outros dois adolescentes para irem ao baile funk, na noite anterior.


Dos três adolescentes que saíram juntos, apenas um não regressara ao lar. Os outros dois, segundo os pais do desaparecido, estavam em estado de choque e não queriam falar nada a respeito do que acontecera durante o baile.


Enquanto um colega conversava com os responsáveis e iniciava a coleta de informações sobre o rapaz desaparecido, me distanciei de modo a fazer comunicação com os pais dos outros adolescentes.


À princípio, a conversa, por telefone, com a mãe de um dos jovens não iniciou amistosa. A mulher estava apavorada, não tinha certeza de que se tratava de uma policial com quem estava conversando, mas após eu explicar a situação com paciência, me foi permitido conversar com o jovem.


Ele narrou que os três adolescentes chegaram ao baile, no interior de uma comunidade da Zona Oeste do Rio de Janeiro, por volta das vinte e duas horas e tão logo o desaparecido se interessou em conhecer uma jovem. Com a moça ele ficou dançando e namorando a maioria do evento, enquanto os colegas dançavam e consumiam bebida, afastados.


Declarou ainda que, por volta das duas horas da madrugada, viu que o desaparecido posava para fotos com a menina e as amigas delas, mas de repente homens portando armas de fogo, que também estavam no baile, se aproximaram de seu amigo e começaram a surrá-lo, jogando-o ao solo.


Já muito machucado, um dos homens atirou nas pernas do indefeso jovem, enquanto outros o arrastaram para o lado de fora do baile.


O adolescente começou a chorar ao telefone e disse que diante da violência que viu ser praticada contra seu amigo, ficou com muito medo, por isso não interveio para ajudá-lo.


— Você viu para onde levaram seu amigo? — indaguei na tentativa de saber o que se passara do lado de fora do baile, mas o rapazinho ainda tinha informação importante para declarar.


— Nós não vimos, pois, ainda ficamos durante um bom tempo no baile, fingindo que não tínhamos nenhuma relação com o jovem levado pelos bandidos — disse o rapaz atormentado e continuou:


— Durante o tempo em que permanecemos após o crime, vi o bandido que atirou nas pernas do meu amigo voltar ao baile e ele gritava “COMANDO VERMELHO É O CUZÃO”, enquanto agitava o fuzil para o alto. Acho que os bandidos pensaram que nosso amigo era bandido de outra comunidade contrária da deles.


De fato, analisando o histórico da criminalidade que domina a comunidade em que os adolescentes foram aproveitar o baile, constata-se que há presença de traficantes de drogas de uma facção criminosa diversa da exposta pelo discurso de ódio do homicida, informada pelo adolescente durante nossa conversa informal.


Antes de findar, deixamos agendada a oitiva formal para o adolescente prestar declarações em sede policial.


Voltando aos pais aflitos, chequei as características físicas, sinais, tatuagens e quaisquer outros acessórios que pudessem auxiliar na identificação de cadáveres e um detalhe por eles transmitido fora imprescindível: o jovem usava no punho esquerdo uma pulseira de lã nas cores de seu time de futebol preferido.


— Meu filho estava usando essa pulseira há cerca de dois meses e dela não conseguia se livrar, pois, ao amarrá-la deu dois nós apertados — disse a mãe enquanto o pai falava que já tinha lhe dado a ideia de cortá-la com a tesoura, mas que o adolescente não quis e ainda beijava a pulseira em sinal de amor pelo time do coração.


Após pesquisa nos bancos de dados, fora encontrado um registro policial cuja vítima de homicídio fora parcialmente carbonizada, tendo sido descrita pelo perito no laudo de necropsia como sendo homem, entretanto, idade, cor da pele e estatura indefinidas pelo estado de carbonização. O perito descreveu um acessório no punho esquerdo exatamente como o acessório descrito pelos pais do jovem desaparecido.


A localidade, a data e o horário do encontro do corpo mantinham correlação com o fato do desaparecimento que investigávamos, por isso, aos pais fora dada a triste notícia da possibilidade de termos encontrado seu filho sem vida e os orientamos a que fossem submetidos a teste de DNA para confrontar material genético coletado no cadáver.


Passado o período necessário para realização do confronto genético, o laudo de DNA foi conclusivo, ou seja, foi verificada a porcentagem de 99,999% de vínculo genético entre os doadores e a amostra genética coletada no cadáver.


Os pais estiveram na “Desaparecidos” para receberem o laudo de DNA em mãos e me trouxeram uma pulseira semelhante a que o filho usava quando fora cruelmente executado, mas o presente tinha uma diferença: trazia as cores do time que elegi como preferência desde a infância.



A EMPAREDADA DA RUA NOVA

por Luiz Primati

CAPÍTULO IV — CHAPÉU DE TOURO


Sabrina não ficou chateada com a notícia de Igor não querer casar. Para ela era melhor assim. Sua preocupação era dele querer casar e, nessa altura, sim, seria um problema. Depois que o bebe nascesse poderia retomar sua vida e seguir.


O tempo foi passando. Isabela executava seu plano indo a cada 15 dias até o apartamento de Igor para tirar-lhe algum dinheiro. Mas, no fundo, esse não era o real motivo. Sempre que estava junto a Igor eles acabavam transando. Isabela estava gostando daquele papel de sedutora. Cada dia que ia até Igor estava com uma roupa justa e provocante. Com a testosterona a mil, não era difícil de Igor ceder aos seus encantos. Para ele era tudo o que queria: filha e agora a mãe. Isabela nem pensava nas consequências. Os anos de repressão sexual explodiam agora em forma de realização para ela. O plano funcionava. Sempre saia dos encontros com dinheiro.


Pedro Paulo não gostava que a esposa fosse receber de Igor e se ofereceu para ir em seu lugar. Isabela protestava.


— Você está maluco? Tenho certeza de que acabará fazendo uma besteira e matando esse garoto. Deixe que eu continuo indo. Está funcionando, não está? Mais um mês e podemos viajar.


— Está bem. Continue.


Pedro Paulo desconfiava que algo estivesse acontecendo. Isabela sempre se demorava cada vez que ia até o apartamento de Igor. Procurava por algum sinal em seu corpo ou em suas roupas que pudesse denunciar algum ato ilícito de sua esposa, mas nada. Isabela não era boba. Sabia como se prevenir. Na cabeça dela era apenas uma aventura passageira e que acabaria no momento em que viajasse com Sabrina e o marido para bem longe dali.


Mas a cabeça de Pedro Paulo estava perturbada. Contou à Matheus, seu melhor amigo a sua desconfiança. Matheus tentou tirar isso da cabeça de Pedro Paulo. Disse que poderia ser apenas uma bobagem sem sentido. Pedro Paulo insistia e o amigo disse que seguiria Isabela na próxima vez para verificar se suas desconfianças tinham algum fundamento. Pedro Paulo agradeceu.


Na semana seguinte, quando Isabela saiu para falar com Igor, Pedro Paulo ligou para o amigo, que morava perto. Ele disse que seguiria Isabela.


Tudo ocorreu como Isabela sempre planejava. Chegou no apartamento de Igor, se beijaram, ele tirou sua roupa, beijou seu corpo e transaram. Isabela se vestiu, retocou a maquiagem, pegou o dinheiro e se foi. No minimercado Pedro Paulo aguardava ansioso pela volta da esposa e por notícias do amigo. E depois de duas horas ela chegou.


— Isabela, por que demorou tanto? Igor não mora tão longe assim… — falou Pedro Paulo não se aguentando de ciúmes.


— Ah! Depois que fui à casa de Igor passei na casa de papai. Queria ver ele e minha mãe.


— Ver seus pais? Mas agora na hora do almoço?


— Eu não sabia existir horário para se visitar os próprios pais… Além disso, daqui a 15 dias nós viajamos. Vou ficar 4 meses sem ter contato. Queria matar a saudade. Algum problema com isso?


Pedro Paulo sentiu vergonha de ter desconfiado da esposa e pediu desculpas. Ela o olhou firme de cima a baixo e o desculpou. Se recolheu para seu quarto. Pedro Paulo não via a hora que Sabrina tivesse o filho e a vida deles pudesse voltar ao normal. Sofria em saber que em Sabrina tinha um filho de Igor. Amava sua filha e, ao mesmo tempo, sentia raiva por ela ter engravidado do rapaz. Eram sentimentos díspares dentro dele que o deixavam confuso. Só faltava falar com Matheus e tirar essas bobagens da cabeça.


* * *


Pedro Paulo combinou de tomar uma cerveja no cais do porto com Matheus. Ali, longe de tudo e de todos poderia relaxar e ficar aliviado depois que Matheus confirmasse que tudo eram bobagens na sua cabeça.


— Oi! Pedro, como está?


— Bem meu amigo.


Os dois se abraçaram brevemente trocando tapinha nas costas. Sentaram numa mesa ao canto. Pediram cerveja e uma porção de peixe aperitivo.


— E então Matheus, como está a vida?


— Não posso reclamar. É dura, mas também é boa. Sabe que o serviço de empreiteiro é pesado.


— Soube que você pegou o empreendimento de um prédio para cuidar…


— É um bloco apenas. Dois andares. Nada de mais.


— Fico feliz por você.


Pedro Paulo jogava conversa fora fazendo o tempo passar. Tinha vontade de ir direto ao assunto. Enquanto queria saber a verdade, tinha medo da notícia não ser a que esperava. Matheus resolveu quebrar o gelo.


— Pedro, vamos direto ao que interessa — Pedro Paulo tomou dois goles longos de cerveja — segui Isabela como me pediu. Ela realmente foi até a casa de Igor.


— Isso nós já sabemos. E aí?


— Bem, Igor mora no segundo andar. Não tive como entrar no prédio. Fiquei lá fora aguardando para ver algo. A janela do apartamento dele dá para a rua.


— E viu algo? Conta-me… — Pedro Paulo estava ansioso pelas notícias.


— Calma Pedro. Você está muito nervoso. Precisa se controlar. Sua filha está grávida. Em 15 dias vocês viajam e tudo se ajeitará.


— Eu sei disso. Desculpe Matheus. Mas são tantas coisas acontecendo…


Os dois ficaram em silêncio tomando cerveja e comendo peixe empanado. Pedro Paulo ansiava que Matheus continuasse.


— Pedro, quero que saiba antes de tudo que estou aqui para lhe ajudar. Hoje e sempre. Tenha isso em mente.


— Eu sei meu amigo. Agradeço muito sua amizade e lealdade.


— Fico feliz em saber disse Pedro. Mas vamos ao que interessa. Não vou ficar enrolando você por mais tempo… — Os dois tomaram mais um gole de cerveja. — Da rua, logo depois que Isabela entrou no apartamento, vi os dois se beijando através da janela. Depois não pude mais vê-los. Sumiram da minha vista.


Pedro Paulo ficou com o rosto tristonho e decepcionado. Deu um soco na mesa.


— Traidores! Primeiro esse rapaz engravida minha filha, agora transa com minha mulher? Vou matar os dois — fez menção de se levantar. Matheus segurou as mãos de Pedro com força. Pediu calma para ele — Pedro se levantou.


— Não vá fazer besteiras — Matheus agarrou Pedro Paulo e o abraçou forte. Pedro chorou copiosamente. Tentou se desvencilhar do abraço do amigo e não conseguiu. Vencido, sentou-se novamente e chorou mais ainda.


— Por que isso aconteceu comigo? O que fiz para merecer tal castigo? Deus, por que me abandonou? — Pedro Paulo estava muito desesperado.


— Pedro, como te disse, vou te ajudar. Mantenha a calma. Você vai para casa e não vai dizer nada. Não vai fazer nenhuma besteira. Sabe que se matar alguém passara o resto de sua vida atrás das grades. É isso que você quer?


— Talvez fosse melhor…


— Você não sabe o que diz… A prisão aqui no Brasil não foi feita para seres-humanos. São jaulas para animais. Sei o que falo. Meu pai é um presidiário. Há 5 anos esfaqueou um sujeito que mexeu com minha mãe e paga por isso até hoje. Eu sempre o visito. Não deseje conhecer uma prisão.


— A culpada de tudo é a Sabrina. Se ela não tivesse conhecido esse rapaz nada disso teria acontecido…


— Será que não? Pedro, tudo que passamos na vida tem um motivo. Se analisar seu passado poderá encontrar as respostas que procura. Mas não culpe sua filha por isso. Vamos manter a calma. Não faça nenhuma besteira. Você está muito bêbado. Vai dormir em casa hoje.


— Não quero… Vou falar com Isabela…


— Não vai não!


Com algum sacrifício Matheus conseguiu carregar o amigo até sua casa. O deixou numa cama no quarto dos fundos. Por prevenção trancou o quarto com chave para que Pedro Paulo não saísse no meio da noite em busca de justiça. Avisou Isabela que Pedro dormiria na casa dele essa noite porque bebera demais. Ela nem ligou. Na manhã seguinte, quando acordou, Pedro continuava desmaiado da bebedeira. Seria um dia duro. Precisava ajudar o amigo a colocar a cabeça no lugar.


* * *


Pedro Paulo e a família deveriam viajar em 15 dias. Pelos acontecimentos recentes e descobertas inesperadas, Matheus sugeriu que Pedro Paulo deveria ir logo. Quanto antes partisse, melhor seria.


No porto estava Matheus para se despedir do amigo. Pedro Paulo estava atrasado para o embarque. Escolheu Lisboa como primeiro destino e depois Paris.


— Meu amigo, coloque os pensamentos no lugar. Fique na Europa por 4 ou 5 meses até as coisas voltarem ao normal — aconselhava Matheus.


— Eu preciso. Esses últimos dias foram difíceis. Mas me preocupo com o mercado. Será que você consegue dar conta? — questionou Pedro Paulo.


— E eu já não cuidei de tudo? Sempre cuido de tudo para você.


— Eu sei meu amigo. Agradeço demais a sua ajuda.


— Vá tranquilo. Já contratei um gerente para o mercado. Fiscalizarei as operações diariamente. Não se preocupe. Descanse.


— Mas insisto que se mude para minha casa. Não fico confortável de deixá-la sozinha — falou Pedro Paulo.


— Vou me mudar hoje mesmo, Pedro. Vai tranquilo.


— E meu último pedido: avise meus pais para não ficarem preocupados.


O navio deu seu último apito sonoro. Se Pedro Paulo não embarcasse agora, ficaria para trás. Precisava ir. Pedro Paulo correu e lá de cima acenou para o amigo enquanto o navio se afastava. Matheus acenou de volta.


Quando não se podia mais diferenciar os rostos naquele navio, Matheus voltou para sua casa. Levaria algumas coisas para a casa de Pedro que ficava em cima do comércio. Ali, com 3 andares e 4 quartos, tinha espaço de sobra. Seria melhor que o buraco que habitava. Seriam meses difíceis — pensou Matheus em voz alta.


* * *


Para Matheus era difícil manter as atenções na sua empresa e no comércio de Pedro Paulo, mas o gerente que contratou para o minimercado, Marco, estava se saindo bem. Ficava das 6h até as 16h. Nessa hora Jéssica, ajudante geral assumia até que Matheus chegasse. Iam até às 19h e só depois poderia descansar por algumas horas até o dia seguinte, onde tudo recomeçava.


Uma semana tinha se passado quando Herculano chegou no balcão do minimercado. Jéssica imediatamente o recebeu com um sorriso.


— Boa tarde! Senhor, em que posso ser útil?


— Você deve ser nova por aqui. Não te conheço. Cadê minha filha? — falou Herculano irritado, sem paciência.


— A sua filha entrou aqui no mercado? Será que está perdida entre as prateleiras? Quer que eu o ajude a achá-la? — disse Jéssica perdida e assustada com a postura do homem.


— Não, não preciso de sua ajuda. Chame o seu patrão que me entendo com ele.


— Um minuto senhor — Jéssica se apressou entrando pelo fundo e subindo até o quarto de Matheus. Bateu na porta avisando que um senhor queria falar-lhe. Jéssica retornou para o balcão.


— Por favor senhor. Meu patrão já está vindo.


Herculano sempre bem-vestido com seu terno, chapéu e bengala, passava um ar de aristocrata. Impunha respeito em qualquer ambiente que adentrasse. Ele ficou aguardando que Pedro Paulo o recebesse e se frustrou quando Matheus apareceu.


— Pois não senhor. Precisa de algo? — disse Matheus em tom cordial.


— Quem é você? Quero falar com Pedro Paulo, ou com minha filha, Isabela — disse Herculano em tom ríspido.


— O senhor deve ser o pai de Isabela, senhor Herculano, eu suponho…


— Supôs corretamente — olhou para Matheus aguardando-o tomar alguma atitude. ELe apenas ficou olhando para Herculano aguardando também.


— Vai ficar aí parado…


— Matheus! Chamo-me Matheus — esticou a mão para cumprimentar Herculano que apenas olhou para a sua mão, olhou para seu rosto e fechou a cara.


— Quero falar com Isabela, mas serve Pedro Paulo.


— Lamento, mas não é possível. Nenhum dos dois estão.


— Então chame Sabrina, minha neta.


— Também não está… — Matheus disfarçava. Precisava controlar a situação. Herculano não sabia da viagem. Resolveu contar-lhe — Senhor Herculano, acredito que o senhor não esteja sabendo…


— O que foi que aconteceu? Minha filha está bem? É algo com minha neta? — perguntou nervosamente.


— Não, não. Estão todos bem.


Herculano respirou aliviado. Matheus continuou.


— Pedro Paulo, Isabela e Sabrina viajaram.


— Ah! Que susto homem! Por que não disse logo? Fale para Isabela me procurar quando retornar.


— Eu aviso, mas receio que vai demorar um pouco…


— Demorar? Quanto tempo? Dois dias? Para onde foram?


— A família viajou para a Europa.


Herculano ficou desolado. A filha nunca saíra da cidade sem lhe avisar ou pelo menos para Marieta.


— E quando é que eles retornam?


— Pedro me deixou encarregado do mercado. Ficarão fora por 4 a 5 meses.


— O quê? Quatro ou cinco meses? Mas onde é que estão com a cabeça? Onde arrumaram tanto dinheiro para esbanjar?


Herculano ficou praguejando enquanto Matheus tentava manter a calma. Pedro Paulo já o avisara sobre Herculano e ele havia se preparado para enfrentá-lo.


— Senhor Herculano, eu peço-lhes para contatarem o senhor se souber de algo. Tenha uma boa tarde!


Matheus voltou-se para dentro. Jéssica reassumiu o balcão. Herculano ficou ali parado por alguns minutos e depois se foi. Ficou muito abalado. Sentiu-se traído pela filha. Mas ela iria pagar caro quando retornasse. Exceto se tivesse um motivo forte sobre essa partida inesperada.


* * *


O tempo passou devagar demais para Matheus. Quando deu 4 meses Herculano apareceu para perguntar se retornaram e claro que a resposta foi negativa. Dali em diante, a cada 3 dias, Herculano ou Marieta iam até o mercado na esperança de verem Isabela. Mas isso não ocorria. Matheus começou a ficar incomodado de dar a mesma notícia sempre e instruiu que Jéssica deveria dizer que ele também não se encontrava. Herculano reclamava, xingava e ia embora. Marieta era mais compreensiva e saia dali entristecida.


Mais meses e passaram e quando completou o sétimo, Pedro Paulo retornou. Chegou por volta das 18h. Matheus estava no balcão e abriu um sorriso enorme quando o viu entrando pela porta do mercado com uma mala à tiracolo.


— Não acredito! Será que estou vendo direito? É você, Pedro? — Matheus saiu detrás do balcão correndo abraçar o amigo. Jéssica sorriu ao ver que Pedro voltara.


— Grande Matheus! Que saudades amigo.


Os dois estavam bem felizes e ainda se olhando. A saudade era muita e essa alegria não durou muito. Na porta, quase que como um fantasma, surgiu Herculano.


— Até que enfim vocês retornaram da Europa — disse Herculano em tom irritado para Pedro Paulo.


— Olá senhor Herculano. Como vai? — disse Pedro Paulo receoso.


— Eu estou ótimo. Espero que você também após esbanjar dinheiro por tanto tempo na Europa — O tom de Herculano era de raiva e amargura.


— Posso dizer que foi bom para espairecer…


— Que ótimo para você. Onde está minha filha e minha neta? Quero vê-las.


— Herculano, isso não será possível… — respondeu Pedro Paulo acanhado.


— Não será possível? Como assim? Está brincando com minha pessoa? — Herculano estava muito irado.


— Bela e Sabrina ficaram na Europa. Vão ficar por lá por mais algum tempo.


— Mas era só o que me faltava… Onde arrumou tanto dinheiro? Andou assaltando bancos? Está metido em drogas? Espero que tenha uma boa explicação Pedro Paulo.


— Respondendo a todas as suas perguntas: 1) Não assaltei bancos; 2) Não estou vendendo drogas. E para finalizar, eu e Isabela nos separamos. Era para essa viagem ser nossa reconciliação, a nossa segunda lua-de-mel. Infelizmente não deu certo. Brigamos e Isabela pegou sua mala e sumiu com Sabrina.


— Como assim sumiu? Onde estavam? Para onde foram? Elas estão com dinheiro ao menos? — Herculano fazia muitas perguntas.


— Estávamos em Paris. Estão com dinheiro suficiente para viverem mais um mês e voltarem ao Brasil. Só depende delas. No dia após nossa briga, Isabela deixou apenas um bilhete. Para que o senhor não tenha dúvidas, tenho o bilhete aqui — Pedro Paulo revirou sua carteira e pegou a carta. Era um papel amarrotado e, escrito à lápis, lá estavam as palavras que Herculano não queria ler:

“Pedro Paulo, foi bom enquanto durou. Sinto que aqui é meu lugar. Não quero mais viver com você e nem voltar ao Brasil. Sabrina fica comigo. Não tente nos procurar. Tenho ainda muita admiração por você. Avise meus pais que estamos bem. Em breve os contatarei. Beijos de sua ex, Bela”.

Herculano ficou desolado. Pegou o bilhete e colocou no bolso.


— Pode ficar com o bilhete — falou Pedro Paulo para o sogro.


Mas Herculano não precisava de permissão. Era a última lembrança de sua filha e sentia-se no direito de possuí-lo. Saiu do mercado cabisbaixo, triste. Pedro Paulo e Matheus o ficaram olhando. Encheram seus pensamentos com pena do velhote. “Mas isso passa — pensou Pedro Paulo”.


Matheus e Pedro Paulo voltaram a se abraçar depois que Herculano se foi. Tinham muito o que conversar. Matheus posicionaria Pedro Paulo sobre as coisas e ele contaria sobre sua estada na Europa. Seriam necessárias muitas noites e muitas cervejas até que colocassem toda a conversa em dia. Matheus estava alegre e aliviado. Não teria mais que cuidar dos negócios de Pedro. Com certeza estaria mais livre para cuidar de si mesmo.


Na casa de Herculano, Marieta chorava copiosamente. Herculano, triste, segurava as lágrimas e pensava numa forma de achar sua filha. Cogitou ir para Paris, mas a cidade era muito grande. A chance de achar Isabela eram quase nulas. Pensaria em algo. Em sua cabeça apenas uma questão: "Isabela, o que você fez com sua vida?".

Continua...




ESPIRAL DE OFERTAS

por Dos Reis

Lorenzo deu alguns passos à frente em seu quintal encharcado pela chuva, até chegar ao seu portão de entrada e gritar.


― Em nenhuma circunstância você pode estacionar em frente da minha garagem, ouviu? Isso não é uma bronca. Por favor, estacione em outro lugar da rua.


De repente, uma figura enigmática abriu o vidro fumê de seu carrão importado de meio milhão e Lorenzo, boquiaberto, amenizou a bronca e permaneceu espiando. Era seu novo vizinho. Homem elegante no estilo moderno. Segundos depois o vizinho abriu a porta automática da garagem ao lado e encostou seu carro. Lorenzo, de olhos arregalados em alarme, arremessou-se para cima do muro. Proferiu algumas palavras de desgosto e entrou em casa.


Em poucos minutos Lorenzo transformou aquele momento tenso em um momento de análise de oportunidade de negócios. Poderia muito bem oferecer alguns de seus produtos ao novo vizinho sem esperar recusas ou mendicâncias, afinal, uma pessoa que é capaz de gastar aquele dinheirão na compra de um carro não haveria de pechinchar descontos ou, em último caso... Rapidamente tratou de tornar-se amigo do vizinho. Para abrir assunto deu como presente uma magnífica batedeira.


― Vizinho, quando fizer um bolo não se esqueça de nós― orientou Lorenzo na entrega do mimo.


Em pouco tempo entrou em uma espiral de ofertas. Ofereceu de tudo, de seguro de carro à espremedor de limão. Nada foi aceito. O vizinho revelou-se verdadeiramente sovina e a amizade declinou. Entrou em choque de interesses.


― É tão chato que isto tenha acontecido ― lamentou-se a esposa de Lorenzo.


― Como pode? Uma pessoa tão rica e tão miserável? ― deferiu Lorenzo. ― Praticamente não trabalha, fica o dia inteiro em casa e não gasta com nada.


No inverno os empreiteiros entraram na casa do vizinho e demoliram boa parte da estrutura para dar lugar a uma casa maior. Lorenzo, que era um advogado ocioso abraçou a causa, entrou com um processo contra o vizinho e tentou obstruir a construção e captar algum troco por outras vias. Alegou que a obra tinha efeitos nocivos para a região, que o trabalho dos empreiteiros era análogo à escravidão e que a obra desvalorizava o seu imóvel, além de deixá-lo escuro e impróprio para moradia. Exigia uma pequena fortuna a título de indenização. Em resposta o vizinho declarou guerra total.


― Escute aqui, seu invejoso. A reforma é inevitável. E não venha você aqui novamente me oferecer suas bugigangas! ― vozeou o vizinho.


Por determinação do juiz a obra foi paralisada para que se julgasse a questão. Os dois assistiram à luta por anos a fio e a gangorra balançou para os dois lados antes que a sentença fosse concluída.


― Preste atenção, doutor ― disse Lorenzo ao advogado do vizinho, ― estou disposto a lhes fazer mais uma oferta.


― Pois então diga ― permitiu o advogado.


― Eu abro mão de meus direitos mediante o pagamento de metade do valor da indenização.


― Mas isso é um absurdo! ― protestou o vizinho. ― Eu não devo nada para esse senhor. Estou totalmente dentro da lei.


― Não seja inocente. Quem nesse país está totalmente dentro da lei? ― interpelou Lorenzo.


― Seu vigarista ― disse o vizinho contrariado.


― Cuidado, porque eu posso lhe processar por injúria também ― disse Lorenzo com um sorriso no canto da boca.


― Calma, calma... ― insistiu o advogado do vizinho.


― Então vamos resolver logo isso. Vocês pagam meu dinheiro e eu assumo meu prejuízo.


O vizinho tentou responder, mas foi contido pelo advogado.


― Explica para o seu cliente que ele não tem como escapar disso. Alguma coisa ele terá que pagar. É melhor fecharmos logo o negócio.


O advogado do vizinho o colocou a par de todos os riscos do processo, cujas afirmações são motivos para debate até hoje, e um acordo foi firmado ali mesmo, sem a participação do juiz. A favor do vizinho era dada a aprovação para a continuação da obra e para Lorenzo foi dada uma indenização no valor de meio milhão, metade do que havia pedido. O desgosto e a desilusão do vizinho foram tamanhos que ele colocou seu imóvel à venda. Já Lorenzo gozou dias melhores em sua aposentaria, graças à sua habilidade nos negócios.



FIM




A MAGIA DO ANEL BRILHOSO

por Sidnei Capella

Preocupado com a estiagem, e a falta de água no único rio da cidade, sendo a pesca o seu trabalho e uma fonte de ganhar dinheiro para o seu sustento, o humilde jovem pescador almoçou e, saiu para comercializar a pequena quantidade de peixes que havia pescado.


Caminhando, lentamente pela estrada de terra que, dava acesso, ao centro da pequena cidade que morava, foi surpreendido por um senhor com roupas estranhas, barba grande e um porte físico bem definido que, com uma pedra na mão, apontou para o rosto do jovem, implorando ajuda.


─ Cavalheiro Azul, solte a sua espada, preciso da sua ajuda! ─ esbravejou o senhor-de-roupas-estranhas, com o olhar de ira e rangendo os dentes.


─ Não tenho espada, é minha sacola de peixes! Como posso ajudar? ─ esclareceu e perguntou o jovem pescador.


O pescador assustado, imaginando ser um ladrão, tirou a carteira do bolso e, mostrou que não havia dinheiro.


Apavorado o senhor-de-roupas-estranhas, respondeu em um tom de voz rouca, que não estava atrás de ouro. Levantou os braços para o alto, fixou o olhar para o sol, gritou falando que a carruagem de fogo estava chegando e, que, tinha pressa para ajudar a filha.


“Este homem é louco! Usou drogas?” ─ pensou o jovem pescador.


O silêncio entre duas pessoas de mundo diferentes se instalou no vazio da estrada, prevalecendo o zunir dos ventos fortes. Permaneceram sentados, o medo do jovem pescador se transformou em preocupação, e o sentimento de caridade alojou-se no peito jovial, transformando-se em pensamentos… de benevolência em ajudar o pobre senhor que, permaneceu observando tudo ao seu redor.


─ Vamos, para minha casa? ─ o jovem pescador, perguntou oferecendo ajuda.


Deslocado, o senhor-de-roupas-estranhas, levantou do chão, esfregou as botas na terra, feito um cavalo quando quer dar um coice, salivou o dedo indicador e levantou-o para o alto, dizendo:


─ Vou ajudar! Esta terra precisa de chuva!


Gritando e dançando em círculos em forma de ritual, pediu a Deus em orações para despencar água do imenso céu.


Por muito tempo não chove na região; o jovem pescador iniciou uma sequência de gargalhadas intermináveis.


O senhor, irritado com a dúvida gerada do seu poder, olhou para o céu, tirou uma garrafa com um líquido amarelo da mochila feita com couro de animal, que carregava nas costas.


Derramou uma poção do líquido na terra, arrancando dos céus um raio, despertando um estrondoso trovão, que, no final do som ensurdecedor, iniciou uma sequência de pingos de chuva.


─ Como fez isso? Há muito tempo não chove nestas terras!


─ Nunca duvide de um Rei! O seu rio nunca mais secará!


Saíram a caminhar sob o forte temporal. Fluíam as conversas, e ao entrar no humilde casebre, o senhor-de-roupas-estranhas, pediu ajuda para encontrar um anel brilhoso de uma virgem do Planeta Terra.


Explicou que a filha perdeu a virgindade e, agora para se casar, teria que seguir a tradição e regras dos habitantes do Planeta Nervus, em usar um anel por toda a vida, de uma terráquea pura.


─ Que doideira, senhor Rei! E se ela não usar?


─ Nunca casará!


O jovem pescador confuso e boquiaberto, com os relatos do senhor-de-roupas-estranhas, convidou-o para sentar no banco confeccionado com os troncos de árvores, pegou uma garrafa de aguardente e o serviu uma dose, que, na primeira golada cuspiu o líquido, para fora da boca.


─ Que vinho é este? Queima até a alma!


─ Isto é pinga das boas! ─ falou o jovem pescador, rindo.


Degustando de gole em gole a cachaça, o senhor-de-roupas-estranhas, foi se adaptando ao lar humilde do pescador.


Embriagou-se e revelou sobre a magia do anel de uma moça virgem do Planeta Terra, que brilha idêntico às estrelas do universo, e leva a pureza para as jovens descabaçadas antes do casamento, habitantes do Planeta Nervus.


O jovem pescador escutava atentamente com a mão no queixo, ao final da última palavra pronunciada, olhou compadecido para a figura, que, para ele era estranha.


Tomou um gole da cachaça na própria garrafa que armazenava o destilado, levantou e foi até a janela do humilde quarto. Pegou o porta-retrato em cima da cômoda, com a foto da sua noiva, prometida como pura pelo pai, até o casamento, e contou que se tratava de sua amada virgem, portadora de um bonito anel brilhoso.


O senhor-de-roupas-estranhas, com a sensibilidade aflorada, sentiu o espírito altruísta do jovem pescador. Vencido pela embriaguez misturado com o cansaço, abriu um vasto sorriso, levantou do banco, ajoelhou diante do humilde rapaz determinado em buscar o anel na residência da moça pura, agradeceu, caindo no chão gelado e adormecendo.


“Aproveitarei, que ele adormeceu e, vou até à casa do meu amor, pegar o anel. Quando a pesca melhorar, compro um mais bonito para ela” ─ planejou o jovem pescador.


Colocou uma coberta sobre o corpo do rei, que dormia como uma criança que brincou incansavelmente em um dia de verão sob o sol forte. Saiu da humilde casa, trancou a porta para nenhum amigo pescador entrar e deparar com a figura de um ser de outro planeta.


Caminhou pelas vielas da vila dos pescadores em passos lentos, e com as mãos para trás, o cigarro de palha acesso no canto da boca, cumprimentava todos que cruzavam o seu caminho.


Pessoalmente presenciava a alegria e satisfação, dos moradores da ilha que, falavam sobre o milagre da chuva e o aumento do nível do rio, fitava os nativos e notava nos rostos cansados os olhares de esperança… de um futuro farto e promissor.


Finalizou os últimos passos com o sorriso desenhado no rosto. Chegou na residência da moça pura, pensando em tempos de fartura da pesca e na cerimônia do seu futuro casamento.


“Quem diria, que, um anel de uma virgem, traria alegria e esperança para estás bandas esquecidas do lado de cá.” ─ pensou o jovem pescador, aguardando ser recepcionado pela futura esposa.


Foi recebido por um longo beijo apaixonado e ao finalizar o ato de carinho, aproveitou a carência afetiva da sua amada e perseverando pediu o anel brilhoso.


Mentiu falando que venderia o anel, para investir em materiais de pesca, ferramentas do seu trabalho, e que em um futuro breve, compraria as alianças de casamento.


Mentiroso e contador de histórias como é um bom pescador, recebeu o anel brilhoso da sua amada que não hesitou em dar o objeto e partiu cantarolando em direção do lar.


Chegando no casebre, deparou-se com o senhor-de-roupas-estranhas, com a garrafa vazia de cachaça na mão, resmungando e caminhando em círculos pela cozinha.


─ Pensei que me deixaria aqui! Conseguiu o anel? ─ perguntou


─ Está na minha mão! ─ o jovem pescador, respondeu, abriu a mão e mostrou.


O senhor embriagado, esbugalhou os olhos em direção do objeto brilhoso, pulou em direção do jovem e agradecendo incansavelmente, deu um forte abraço no pescador, que lisonjeado e esperançoso, passou o anel brilhoso para o poder de um pai preocupado com a filha em não casar.


─ Tem certeza que esta argola é de uma virgem?


─ Se o anel não brilhar igual às estrelas do universo, o senhor volta aqui ─ respondeu, e ficou preocupado com a pergunta. ─ Independente o que aconteça o rio não pode secar.


O jovem pescador pensativo… coçou a cabeça, descendo a mão até a fronte, procurando por duas saliências.


Permaneceu por algum tempo dividido em sentimentos de desconfiança da sua noiva e da alegria de um pai realizado.


Notando o avançar das horas, o senhor-de-roupas-estranhas, juntou os seus poucos pertences, envolveu o anel brilhoso em um pano e o amarrou com um nó forte na parte inferior da perna, calçou as botas cobrindo a peça de grande valor sentimental, e falou da necessidade de partir.


─ Vamos meu grande amigo pescador! Você me conduz até o final da estrada de terra?


─ Pegarei a carroça do meu vizinho! Chegaremos, mas rápido!


Ao chegar no final da estrada, desceram do veículo de tração animal, o jovem pescador permaneceu em pé, enquanto o senhor-de-roupas-estranhas despediu-se, deu um beijo no cavalo que puxava a carroça e caminhou seguindo, levantou as mãos para o alto, e gritou:


─ Apareça carruagem de fogo!


Iniciou uma pequena luz, transformando-se em um imenso portal iluminado, avançou até entrada do portal, virou de costa para a passagem e, com um gesto de gratidão, colocou às duas mãos no peito, abaixou a parte de cima do corpo, reverenciando o jovem pescador.


Em um piscar de olhos, atravessou o portal, e a gigantesca luz multicores apagou, voltando a vista da estrada.


O jovem voltou para o seu humilde lar, cansado pelo dia que teve, preparou o material de pesca, abriu outra garrafa de cachaça, tomou uma dose, encostou a cabeça no travesseiro sobre a cama e se pôs a pensar:


“Se eu contar esta história para os meus amigos pescadores, eles vão falar que sou louco e mentiroso.”


Com a ajuda da cachaça, adormeceu. No dia seguinte, acordou cedo, pegou os apetrechos de pesca e partiu em direção ao rio, encontrando os companheiros pescadores fisgando peixes grandes, como já mais visto naquela região, separou as iscas, colocou no anzol e lançou ao rio, pescou fartamente, contemplando o azul do céu, sem dizer uma palavra.



FIM




NOSSOS COLUNISTAS


Luiz Primati, Alessandra Valle, Ricardo dos Reis e Sidnei Capella.

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3 commenti


sidneicapella
sidneicapella
02 giu 2022

Parabéns:

Alessandra, a crueldade das pessoas, apavora;

Luiz, estou ansioso, para ler o próximo capitulo;

Ricardo, o seu conto mostra que a inveja é maldosa. Me fez eu lembrar do nome do filme: "O inimigo mora ao lado."

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Luiz Primati
Luiz Primati
31 mag 2022

Stella, obrigado por apreciar nosso caderno. Estou esperando o seu conto, viu?

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Stella Gaspar
Stella Gaspar
31 mag 2022

Belos contos! Alessandra a maldade humana é inimaginável, o seu relato me deixou sentindo o pânico, o pavor , a agonia da família recebendo de volta apenas uma pulseira de seu filho. Onde está o amor? Luiz, ah essa vida de casal...quantos enredos e adereços. Ricardo, como é bom ler o que escreves e você Sidnei , fantástico na arte e na leveza de deixar o lado mais cômico aflorar em nossas mentes. Obrigada por suas artes em passar suas histórias. 😍

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